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Numerical Model

5.3 Effect of the Gap Ratio ! !

Aprendi, na Crítica da Razão pura, que a filosofia não é uma ciência das representações, conceitos e ideias, ou uma ciência de todas as ciências, ou ainda algo de semelhante, mas uma ciência do homem, do seu representar, pensar e agir; – deve apresentar o homem em todas as suas partes constitutivas, tal como é e deve ser, i.e., tanto segundo as suas determinações naturais como também segundo a sua condição de moralidade e liberdade. (KANT, SF, 2008, p. 89)24

Ao buscar assimilar natureza e liberdade, Kant quer nos dizer que não existe contradição em entender que o mundo se submete às leis naturais, como por exemplo, as leis da física e ao mesmo tempo há algo que não depende dos eventos empíricos e por si mesmo tem condição de dar a inicio a fatos. Na 3ª antinomia, assim expressa Kant,

Tese: a causalidade segundo leis da natureza não é a única de onde podem ser derivados os fenômenos do mundo no seu conjunto. Há ainda uma causalidade pela liberdade que é necessário admitir para os explicar. Antítese: não há liberdade, mas tudo no mundo acontece unicamente em virtude das leis da natureza. (KrV, A 444 / B 472, p. 406/407)

23 ―A liberdade jurídica (externa, portanto) não pode definir-se, como se costuma fazer, mediante a faculdade de

―fazer tudo o que se quiser, contanto que a ninguém se faça uma injustiça‖. Pois, que significa faculdade (Befügnis)? A possibilidade de uma ação enquanto por ela a ninguém se faz uma injustiça. Portanto, a explicação da definição soaria assim: ―δiberdade / é a possibilidade de ações pelas quais a ninguém se faz uma injustiça. Não se faz dano a ninguém (faça-se o que se quiser), se apenas a ninguém se fizer dano algum‖: por conseguinte, é uma tautologia vazia. – A minha liberdade exterior (jurídica) deve antes explicar-se assim: é a faculdade de não obedecer a quaisquer leis externas senão enquanto lhes pude dar o meu consentimento.‖ (KAζT, ZeF, ζota / B 20, 21, 22, p. 128).

24SF - Der Streit der Fakultäten. Cito tradução de Artur Morão: O conflito das faculdades. Lisboa: Edições 70,

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A estratégia de Kant ao apresentar conceitos que se contradizem, tem por finalidade demonstrar que há algo de errado acerca da compreensão dessas definições e por meio da contradição o filósofo procura analisar se somos determinados unicamente pela natureza ou se temos a condição de agir livremente, bem como, que a razão encontra limitações para solucionar questões teóricas criadas por ela mesma a partir de afirmações que aparentemente se excluem. Desse modo na 3ª antinomia, tanto pode-se perceber que não há a possibilidade da liberdade, quanto o seu oposto, que se pode admitir uma causalidade livre. O que estaria errado a partir dessas teses que se contradizem?25 De acordo com Kant,

Em vista disso, os objetos da experiência não são nunca dados em si, mas apenas na experiência, e fora dela não existem. Pode admitir-se, com efeito, que haja habitantes na lua, embora nenhum homem jamais os tenha visto, mas isto significa apenas que, com o possível progresso da experiência, podíamos chegar a vê-los; com efeito, tudo que está no contexto de uma percepção de acordo com as leis do progresso empírico é real. São pois reais, desde que estejam num encadeamento empírico com a minha consciência real, embora nem por isso sejam reais em si, isto é, fora deste progresso da experiência. (KrV A 493 / B 521, p. 438)

Nessa análise, através da razão, pensa-se a completude do mundo. Kant chega a apontar que o engano dá-se na forma de compreender os fenômenos como coisas em si. Noutras palavras, para além das percepções, das representações fenomênicas, na realidade nada nos é dado, visto que somente podemos afirmar que algo existe ao se experienciar esse algo e determiná-lo sensivelmente ou perceber que se poderia experimentá-lo de acordo com as leis do progresso empírico.

Por conseguinte objetos da experiência são fenômenos, apenas estabelecidos pela experiência, representações de nossa percepção e não coisas em si. Desse modo deve-se entender a distinção entre fenômeno e coisa em si, que remete à distinção conceitual sensível e inteligível, respectivamente. Assim, a partir da compreensão das questões da experiência

25 ―ζo contexto dessa questão, a palavra ―liberdade‖ designa precisamente a propriedade que teria uma causa de

iniciar uma série de eventos, sem ser determinada a isso por nenhuma ocorrência anterior e, por conseguinte, determinando-se a isso por si mesma. Por oposição à ―causalidade natural‖, que é a propriedade que uma causa tem de produzir um efeito na medida em que é determinada a isso pela causalidade de uma outra causa, a palavra ―liberdade‖ designa então a ideia de uma causalidade espontânea, aliás num sentido forte da palavra ―espontânea‖, porque se trata da independência não só de causas externas, mas também de ocorrências internas da própria causa e, por conseguinte, dos estados em que esta se encontrava antes do exercício de sua causalidade.‖ (AδεEIDA 1997, p. 178).

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possível como fenômeno, e da coisa em si como tudo o que está fora da experiência, pode-se melhor compreender as noções em pauta na 3ª antinomia. Nessa perspectiva a causalidade natural se remete ao âmbito do sensível. Mas no campo inteligível o conceito de causalidade é relacionado a determinações racionais, que podem não obstante incidir no plano sensível.

Kant denomina idealismo transcendental26 a ―chave da solução da dialética cosmológica‖. Após ter demonstrado na ―Estética Transcendental‖ que tudo o que está no espaço e no tempo, e assim todos os objetos de uma experiência possível, são apenas fenômenos que independente de nossa mente tem existência, mas são incognoscíveis. Kant afirma no tocante ao significado cosmológico da liberdade que se trata especificamente de uma causalidade diferente da natural, enquanto

...a faculdade de iniciar por si um estado, cuja causalidade não esteja, por sua vez, subordinada, segundo a lei natural, a outra causa que a determine quanto ao tempo. A liberdade é, neste sentido, uma ideia transcendental pura que, em primeiro lugar, nada contém extraído da experiência e cujo objeto, em segundo lugar, não pode ser dado de maneira determinada em nenhuma experiência, porque é uma lei geral, até apropria possibilidade de toda a experiência, que tudo o que acontece deva ter uma causa, e por conseguinte, também a causalidade da causa, causalidade que, ela própria, aconteceu ou surgiu, deverá ter, por sua vez, uma causa; assim, todo o campo da experiência, por mais longe que se estenda, converte-se inteiramente num conjunto de simples natureza. Como, porém, desse modo, não se pode obter a totalidade absoluta das condições na relação causal, a razão cria a ideia de uma espontaneidade que poderia começar a agir por si mesma, sem que uma outra causa tivesse devido precedê-la para a determinar a agir segundo a lei do encadeamento causal. (KrV A 533 / B 561, p. 463)

Nessa perspectiva Kant relaciona o sentido cosmológico da liberdade à ideia de liberdade como espontaneidade, ou liberdade transcendental. Nesse sentido a espontaneidade se dá em oposição à noção de causalidade natural que sempre é condicionada previamente, e nunca é espontânea e incondicionada. A partir da ideia de liberdade transcendental Kant pensa o conceito de liberdade prática como o arbítrio independente à coerção dos impulsos sensíveis.

26 Em nota acrescentada na 2ª edição da KrV de 1787, Kant nos diz com relação ao idealismo transcendental:

―chamei-o também, algumas vezes, idealismo formal, para o distinguir de idealismo material, isto é, que põe em dúvida ou nega a existência das próprias coisas exteriores. Em muitos casos parece conveniente servirmo-nos desta última expressão, de preferência à primeira, para evitar todo o equivoco.‖

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A capacidade de determinar a si e as suas ações com base em princípios extraídos da razão, independentes dos móbiles sensíveis é a grande contribuição kantiana para seu sistema filosófico prático a partir da KrV. Desse modo, a liberdade não pode ser dada na experiência do ponto de vista teórico de justificá-la. Mas ela pode ser pensada numa perspectiva prática, pode-se afirmar a liberdade no âmbito da moralidade. Ela pode ser estabelecida como fundamento compatível com princípios do conhecimento e como regra para o agir. (ALMEIDA, 1997). A impossibilidade cognitiva da razão no âmbito teórico demonstra que a liberdade no sentido prático é possível, bem como que a razão pura pode ser prática.