A identidade, enquanto processo construído, por toda a vida e referenciada pelos professores, colegas e familiares, o que me conduz à conclusão da importância dos referenciais na profissionalização de professores: “nunca pensei em ser professora” (AMANDA CABRÁLIA); “não sei, minha mãe era professora, mas nunca exerceu a profissão” (CLEMENTINO DAVID); “fui influenciada por uma professora de estatística” (AMANDA CABRÁLIA); “aconteceu a partir de uma monitoria no curso de graduação” (AMANDA CABRÁLIA).
Ao narrar para mim suas histórias, os professores as narraram também para si, quando fizeram um balanço de todas as aprendizagens, evocando recordações e referências, contando o que aprenderam com a própria vida, como nos ensina Josso (2004) e contando também seus projetos de vida futura, o devir, na perspectiva do que escreveu FREIRE (1984) sobre a incompletude do ser humano, o fato de ser projeto, na possibilidade da construção ética da vida, algo com um estilo próprio, segundo seus sonhos e valores. Deise Costa ao considerar suas aprendizagens, diz: “acho que uma coisa que me ajudou muito na profissão e na vida foi conviver com pessoas que eu admiro” (DEISE COSTA). A admiração pelo pai que declara com carinho nestas narrativas; a admiração com um pouco de afetividade com que se refere à ex-sogra e pelo seu atual companheiro.
O gosto de Clementino David por questões de ordem pedagógica, institucionais e sociais aliadas ao sentimento mais profundo de ensinar e ao desejo de crescimento pessoal, que marcam as ações da profissão, e pela narrativa transformam-se em experiências significativas, estruturando momentos de abertura de novos caminhos, segundo Josso (2004), em que os homens estabelecem regras de conduta e na sua singularidade constroem a própria vida sob valores estéticos e éticos.
Quando dialogamos sobre seus aprendizados, teorias e concepções, entra no processo de reflexão e tomada de consciência: “não sei...minha mãe é professora, mas nunca exerceu a profissão” (CLEMENTINO DAVID), pois conforme Tardif (1999) os saberes dos professores e a sua competência integra saberes plurais, incluindo as teorias e concepções que orientam a prática educativa. O professor incorpora no decorrer da existência algumas crenças e representações sobre o significado de ser professor e as aperfeiçoa ou aprimora pelos desafios enfrentados no início da carreira, o que torna relevante que se envolva com questões diversas do trabalho e do seu contexto para que assim desenvolva o gosto e o sentimento de saber fazer. A interação com os colegas pares de trabalho, alguns mais experientes, ou mesmo com alunos oportunizam momento de aprendizagem, e por vezes também as dificuldade trazem à consciência a problemática envolvida no trabalho docente universitário, o que representa outra construção e outra aprendizagem e assim os professores profissionalizam-se aprendendo consigo e com os outros, adquirindo autonomia. Nos momentos de questionamentos e embates teóricos; em reuniões com colega de trabalho: “eu estava ali, na verdade porque tinha interesse em participar” (CLEMENTINO DAVID). Muitas vezes os saberes e competências são construídos nesses momentos ímpares de maior desafio, como aconteceu com Clementino David, porém há aqui uma característica marcante, a abertura a novos saberes e a postura de colaboração na concepção de participação coletiva.
Em um dos momentos de retrospectiva de si, Amanda Cabrália num exercício de busca, reflete e na lembrança encontra um dos motivos que a levaram a ser professora: “o apoio dos meus pais sempre foi muito importante para mim”, além da professora do curso de graduação, da disciplina de economia também lembrada como referência: “a minha carreira de professora foi influenciada pela professora de economia, Célia Staut Melo” (AMANDA CABRÁLIA). Este fato significativo colabora na sua decisão de ser professora, e responder a expectativa dos pais e do seu próprio desejo de saber para ajudar os outros, ou melhor, fazer algo por outrem: “devo isto também aos meus colegas que me procuravam para ensiná-los Estatística” (AMANDA CABRÁLIA). O primeiro momento foi essa tomada de consciência do que a impulsionou na busca pela profissionalização marcada por estes momentos ainda como estudante ou início da profissão: “algumas oportunidades de cargos administrativos, chefias e coordenações também têm colaborado na minha aprendizagem e melhoria profissional” (CLEMENTINO DAVID) e quando inicia o processo de dar forma a si ou conferir uma estética a própria formação, afirmando-se no desejo de ser com uma expectativa de futuro ou de vir a ser, completa dizendo: “fiz o mestrado e agora o doutorado em economia
158 na UFRGS, e agora estou articulando um grupo de pesquisa para implantação dos cursos de pós- graduação na UEMS”(AMANDA CABRÁLIA).
Considerando que as histórias de vida não existem a priori, conforme explica Abrahão (2006), mas são construídas na investigação de um pesquisador por meio de trocas com o sujeito da história, as histórias surgem em um contexto social e histórico com significado, onde poderão surgir histórias e aspectos singulares, porém como parte da pluralidade, inclusive porque é no diálogo com o contexto social que o indivíduo interage e evidencia, pela narrativa, seu singular modo de mobilizar os conhecimentos e valores que formam a sua identidade.
As histórias de vida de indivíduos, na sua singularidade, como parte de um contexto plural, estão inseridos num sistema, o qual nada mais é do que a expressão de diversas singularidades, que compõe a pluralidade. Este é segundo Abrahão (2006), o caráter dialético das Histórias de Vida, pois embora tratem da história de um indivíduo, foram construídas dentro de um sistema social, de micro ou macro estrutura. Neste processo de interpretação dos dados, compreendo os sujeitos como agentes de alguns enunciados que se elaboram a partir da relação das narrativas com seu contexto social, pois parto do princípio de que o sentido dos textos narrados é algo construído pelos sujeitos. Contexto que envolve o que foi vivido no passado, as relações sociais estabelecidas no presente e no ambiente de trabalho e a relação estabelecida na entrevista-narrativa.
Esta compreensão do contexto, considerada por mim, em relação ao desenvolvimento da profissionalização na perspectiva do desenvolvimento pessoal profissional na perspectiva da aquisição de saberes da profissão a partir de sua socialização no meio de trabalho: “algumas oportunidades de cargos administrativos, chefias e coordenações também têm colaborado na minha aprendizagem e melhoria profissional” (AMANDA CABRÁLIA). Não podemos esquecer e disso nos lembra Abrahão (2001) que as pessoas universalizam através de suas vidas e ações, assim também compreendo algumas teorias e práticas do ser professor e profissionalizar-se, da aquisição de saberes da profissão, e da construção de identidades.
4.3.8- A VIDA COMO OBRA DE ARTE: ESTILO E ÉTICA NA