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3.2 O RGANIC ACIDS

3.2.1 Action mechanisms

Quando observo as narrativas dos professores, procuro os momentos de profissionalização na perspectiva da invenção de si e da transformação da vida, valendo-me de noções de Josso (2004). A invenção de si implica perceber-se, cuidar-se e demonstrar aos outros uma preocupação para consigo mesmo por meio de ações concretas e diuturnas de construção da vida pessoal e profissional. Logo, quero dizer que prestei atenção ao modo como as vidas dos professores, contadas e refletidas por eles e por mim, estão sendo (re) construídas; sob quais alicerces aconteceram as vivências de suas trajetórias e quais os modos de construção de sua identidade profissional, que efetivamente os professores assumiram para construir-se como sujeito, os quais acabaram por conduzi-los na direção do desenvolvimento de sua profissionalização, mesmo sem um caráter de intencionalidade.

As práticas de si, na perspectiva de vida como obra de arte, podem ser observadas no processo de desenvolvimento da profissionalização dos três professores, seja na vida pessoal, seja na prática de sala de aula, no envolvimento com os alunos em atividades extraclasses, seja na participação política em diversos assuntos que envolvem a instituição. Todos têm consciência da função social do professor universitário e de suas dificuldades e demonstram exercer um cuidado ao procurar tornar-se melhor como ser humano: “minha meta de vida sempre foi buscar independência profissional e financeira” (DEISE COSTA); “em primeiro lugar quero conseguir me fazer como pesquisadora. Já consegui conquistar meu espaço como professora; gosto muito de dar aulas e sou muito feliz” (DEISE COSTA). “não há muito comprometimento dos professores com a UEMS, isso me entristece” (DEISE COSTA); “O profissional envolvido com a educação superior precisa estar em constante busca de si mesmo enquanto ser humano e enquanto profissional, para que os alunos que conviverem com ele durante o ano letivo também possam trilhar seus próprios caminhos de busca pessoal e profissional”(DEISE COSTA); “a vida é um grande jogo de estratégias e o trabalho é mais uma ferramenta deste jogo, é mais um espaço para exercitarmos a vida e construirmos nossa caminhada”(DEISE COSTA). “Organizo o trabalho e replanejo até atingir meu objetivo que é o aprendizado deles” (AMANDA CABRÁLIA); “jovens que estão fazendo escolhas do caminho a seguir, quanto mais seguro, bonito, sinalizado for o nosso caminho, mais fácil para eles construírem seus próprios caminhos” (DEISE COSTA). “mas...é preciso sermos honestos e autênticos conosco mesmos” (AMANDA CABRÁLIA).

160 Foi possível perceber nas narrativas, indícios de um cuidado consigo, da consciência de suas fragilidades humanas, na procura do conhecimento de si, foi proporcionado também pela entrevista-narrativa desta pesquisa e ainda, a busca constante de novos saberes e aprendizagens como característica da trajetória de vida dos professores.

Sensibilizada pelo que construímos juntos neste estudo e cheia de gratidão pela escolha que fiz dos sujeitos, os quais caracterizei como bem sucedidos, tenho a dizer que são professores diferenciados, verdadeiramente profissionais que estão em permanente processo de construção de sua vida pessoal e profissional como uma obra de arte. Encantaram-me contando de sua vida cheia de espiritualidade e profissionalismo. Por isto gostaria de explicitar as compreensões que o estudo me permitiu. Professores que a princípio me pareciam apenas bem sucedidos perante a comunidade acadêmica, surpreenderam-me com sua jovem História de Vida repleta de coisas boas, de beleza, de alegria, de sentimentos, de emoção, de sensibilidade diante do mundo e do universo e de conscientização do papel social do professor, abrindo- nos a possibilidade da feitura estética da profissionalização sob princípios éticos singulares no contexto plural de vida e trabalho.

Admito tê-los escolhido por não terem formação pedagógica ou um curso de Licenciatura, porém agora admito também que este não é o diferencial. Bacharéis ou licenciados, não é este o diferencial, pois o que estes professores nos trazem por meio de suas vivências, está além das construções teóricas e práticas que se possa aprender na academia; o que têm a nos dizer com suas trajetórias é que amam o que fazem, são felizes e estão trabalhando na construção diuturna de sua vida como uma obra de arte.

A história de vida familiar destes professores bem sucedidos é uma vida de afeto e carinho com os pais, avós família em geral. São professores que reconhecem a influência dos mais velhos em sua formação e educação e reconhecem também as aprendizagens construídas com outras pessoas de seu meio social, pelo que são muito gratos. A relação que mantêm com o mundo, com o universo e com as pessoas é uma relação de harmonia e de entendimento, que o faz promotores do bem estar e do crescimento humano, como diz Amanda Cabrália: “Considero mais importante na vida de um professor é a motivação para mudar o mundo, acreditar que é capaz de fazer algo mais por alguém e direcioná-lo a um rumo certo, mágico e poderoso” (AMANDA CABRÁLIA). A motivação como fator de mudança e a confiança em si mesmo para melhorar a vida e a vida do outro e colaborar para um mundo melhor poderão constituir-se em utopia, importante qualidade da vida profissional, o que nos lembra Freire (1970) sobre os sonhos e a utopia. É preciso acreditar e sonhar para permanecer na busca de um ideal. Os três professores, embora admitam as dificuldades que enfrentam os profissionais

da educação em qualquer nível de ensino, referem-se à mesma valorizando-a, declarando que amam o que fazem, demonstrando respeito pelo outro, pelo aluno e pelo humano. O prazer no exercício da profissão assim como a participação em atividades que envolvem a educação na universidade, muitas vezes além da sala de aula é algo que está presente nas suas trajetórias.

Porém, esclarecendo que não é pela admiração ou idolatria a estes professores que me interesso aqui e sim pelo modo como vêm construindo seu processo singular de profissionalização, sem prescindir de suas interações e intercâmbios coletivos que caracterizam o trabalho com seres humanos, concordando com Tardif (1999), quando escreve que o objeto do trabalho docente são seres humanos. Os professores demonstram estar exercendo um cuidado especial consigo, com suas ações pedagógicas e institucionais, que poderá os estar conduzindo a um modo singular de ser professor. Evidenciei esta prerrogativa no modo como cuidam de sua aparência no trabalho; da organização de seus horários; da construção constante de conhecimentos, pois não cessam de aperfeiçoar-se e capacitar-se; da participação ativa nas questões institucionais o que os faz envolvidos e comprometidos com os destinos da UEMS. Os três professores admitem estar construindo a carreira com muito estudo e enfrentamento de todos os desafios que se apresentaram e apresentam-se, o que constitui em escolha consciente para a feitura da vida profissional, com estilo e ética. Estilo porque é uma maneira singular de profissionalizar-se, pela construção de novos saberes dentro do contexto do trabalho; pelas aprendizagens em colaboração e participação aliadas à declaração de que está bem claro para si o projeto vida de profissional quando esclarecem o que pensam ser um professor universitário.

Penso que há aqui uma preocupação permanente consigo mesmo, com objetivos claros e definidos e sua perseverança, especialmente nos momentos de estudo individual e coletivo, nas opções pelo convívio saudável e de amizade com colegas e alunos; pela aceitação dos obstáculos do caminho como forma de transformar a vida: “já consegui me fazer professora, agora quero me fazer como pesquisadora” (DEISE COSTA). Quando leio a trajetória da infância e a vida na família, percebo o comprometimento, o afeto e a responsabilidade diante de si e do outro desde cedo.

E também sobre a noção de incompletude do sujeito, o que me parece pertinente na vida profissional, pois o desejo permanente de crescimento e promoção pessoal constitui-se em requisitos para um trabalho bem sucedido de busca de conhecimentos na perspectiva da humildade para reconhecer-se incompleto e com isto admitir a possibilidade de crescimento ilimitado dos seus alunos, como diz Amanda Cabrália: “No meu trabalho o que mais gosto é a

162 oportunidade de crescer intelectualmente, isso me fascina. A busca constante pelo conhecimento é muito bom e me satisfaz bastante” (AMANDA CABRÁLIA).

Com base nas considerações, às quais atribuo especial relevância e considerando o processo de profissionalização dos professores universitários bem sucedidos, reuni algumas características encontradas na trajetória de vida dos sujeitos por mim escolhidos, para após elaborar um eixo integrador e representativo da compreensão das Histórias de Vida destes professores, na perspectiva da formação para uma profissionalização de sucesso pessoal, social e contextual, que faça diferença na instituição, na vida dos seus alunos e na sociedade, pois aprendi com Foucault (2010) que o processo de constituição do sujeito implica uma dimensão ética.

Estão bem presentes aqui as reconstruções de sentido estabelecidas pelos professores ao fazer uma retrospectiva de sua vida pessoal e profissional, incluindo sua atuação como docente. Atuação que implica crescimento de tornar-se um humano melhor ao exercer sua profissão na dimensão da alteridade, da solidariedade com o humano e com o universo que invariavelmente poderá começa na sala de aula de uma universidade a partir do contato quase anônimo com os alunos, seres humanos, sujeitos de uma concretude histórica. Importa prestar atenção em si mesmo, como ouvi dos professores sujeitos deste estudo a partir das práticas de si.