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5.5 Causes of the Changes

5.5.1 Educational systems

A monitoração quase sempre se define pelo papel que cada pessoa ocupa no momento da interação no domínio social. No domínio do lar, as relações são informais, prevalecendo uma comunicação adequada aos eventos interativos nesse ambiente.

Já nas relações mais formais, como em uma entrevista para ocupar uma vaga de emprego, a comunicação ocupa outro nível de monitoração linguística. Esses eventos comunicativos estão sujeitos à variação linguística que é um fenômeno inerente a toda língua humana.

Mollica (2000) afirma que todas as línguas naturais humanas encontram-se em permanente processo de variação e mudança. No entanto, como afirma Freitas (1996), há uma grande demanda social para que se promova a variedade padrão que, às vezes, faz com que o vernáculo seja cruelmente sacrificado.

Para enfatizar esse processo de variação e mudança, Bagno (2003, p. 10) apresenta uma metáfora muito interessante para a língua, comparando-a a “um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso [...] se renova incessantemente”. Posso perceber, a partir dessa figura, um movimento que se traduz na dinamicidade da língua, um processo contínuo e inegável de mudança.

Assim sendo, para fazer uma análise sociolinguística do Português do Brasil, Bortoni-Ricardo (2002) propõe a adoção de três contínuos: i) contínuo rural-urbano, ii) continuo de letramento e iii) continuo de monitoração estilística.

O contínuo rural-urbano compreende as variedades linguísticas rurais situadas, do ponto de vista geográfico e social, mais isoladas, como a variedade “caipira” até a variedade culta. Ao longo desse contínuo, a autora admite ainda a existência de dois tipos de regras variáveis: a) descontínuas – que são características das variedades regionais e sociais mais isoladas e que recebem mais discriminação pela sociedade urbana que detém o poder, como por exemplo: vo-

calização da palatal /lh/ como em “muié”, b) graduais – são características que fazem parte do repertório linguístico de quase todos os brasileiros e que são definidos pelo grau de formalização exigido pelo contexto de fala, como por exemplo: “correno”, “vinheru”.

O contínuo de letramento que é formado respectivamente por práticas sociais de oralidade e práticas sociais de letramento.

O contínuo de monitoração-estilística que diz respeito às características do falante para adequar-se ao seu interlocutor. São processos psicológicos de atenção e planejamento de fala no momento de ocorrência da interação, que vai depender de alguns fatores, dentre eles: a) adequação do falante ao seu interlocutor, audience design, de Allan Bell (1984); b) apoio contextual; c) nível de complexidade exigido pela produção linguística: d) intimidade do falante com a situação de comunicação.

A monitoração estilística requer do falante maior atenção à própria fala. Quando o falante dispõe de maior apoio contextual, bem como, de maior intimidade com o evento comunicativo, tem um desempenho no estilo monitorado com menos pressão comunicativa. Porém, quanto mais complexa a temática e menor o apoio contextual, maior é a pressão comunicativa.

Essa análise sociolinguística para o Português do Brasil proposta por Bortoni- Ricardo (2002), parece muito adequada, principalmente, para estudar a fala de alunos das salas de aula de jovens, adultos e idosos. Nas salas de aula desse alunado, há muitos alunos oriundos de famílias de origem rural e que trazem em suas falas características das variedades regionais mais isoladas geográfica e socialmente.

Há também, pessoas que mesmo tendo origem rural já estão mais próximas do polo urbano, denominado “rurbano” – termo advindo da antropologia social que se refere às comunidades urbanas de periferia onde existe grande influência rural na cultura e na língua (BORTONI-RICARDO, 2004a) – por isso essas pessoas já estão imersas em um processo acelerado de letramento, usando para as atividades de oralidade uma linguagem menos cuidada, mas para as atividades de letramento usam uma linguagem mais formal.

Assim, observo também características do contínuo de monitoração-estlística na conduta dessas mesmas pessoas, quando, por exemplo, estão adequando suas falas aos seus interlocutores.

As práticas de letramento, que segundo Street (1984), estão vinculadas aos contextos político e ideológico em que se realizam, pois são produtos de um construto social –, permeiam o cotidiano de jovens, adultos e idosos e a competência com que estes se desenvolvem nelas podem ser analisadas a partir do contínuo oralidade-letramento, pois de acordo com o evento de letramento, que para Barton, Hamilton e Ivanic (2000) são fatos possíveis de serem observados e que resultam de práticas mediadas por textos escritos –, em que tais jovens, adultos e idosos estão envolvidos, podem ser localizados em qualquer ponto de tal contínuo.

Observo, porém, que este contínuo tem interface tanto com o contínuo de urbanização quanto com o contínuo de monitoração estilística. Por isso, a competência com que os alunos jovens, adultos e idosos se desenvolvem nas práticas sociais leva em conta principalmente o contínuo de oralidade-letramento, mas também considera os outros dois contínuos.

Em sala de aula, é comum notar os alunos procurando adequar suas falas ao contexto. Exemplo: em situações de interação com o professor, quando buscam uma maior formalização na fala, pedindo uma explicação ou quando se dirigem aos seus pares, com uma fala mais informal, demonstrando familiaridade com o objeto da comunicação.

Localizar o falante ao longo desses contínuos não parece tarefa difícil, porque cada um possui características próprias, que são definidas a partir de sua rede de relações sociais, muito embora não exista falante de estilo único, como afirma Labov (1972).

Sobretudo no caso deste estudo que se deu em uma sala de aula de jovens, adultos e idosos, em que uma boa parte dos alunos possuem antecedentes rurais e, por isso, apresentam características de fala situadas no contínuo rural-urbano, o que os torna discriminados pela sociedade urbana hegemônica.

Acredito que os estudos sobre Sociolinguística Educacional precisam ser mais divulgados para que possam chegar ao seu destino, que é a sala de aula, a fim de que sejam adotadas ações docentes comprometidas com uma educação em

língua materna que, segundo Silva (2002), dê prioridade ao que, de fato, é funcional na língua, que são as aprendizagens linguísticas que possibilitam a comunicação com pessoas de outras comunidades e que promovam a utilização de outras variedades.

De acordo com a mesma autora, (2002, p. 264), a escola consegue, mesmo que a longo prazo – pois uma mudança de comportamento para se realizar demanda um tempo histórico –, instaurar uma mentalidade social que será uma “atitude de aceitação e não de tolerância” às variedades regionais.

Assim, o professor, no momento em que está realizando uma atividade que lhe exige mais monitoramento de fala, como a aula expositiva, entre outros, demonstra uma preocupação maior com sua linguagem. Já na realização de eventos de oralidade, como ao dar uma orientação sobre a realização de determinada atividade, ou chamar à atenção para alguma ocorrência, a linguagem é menos monitorada.

Dessa forma, dá-se uma alternância de variação linguística em sala de aula, o que possibilita ao aluno conviver e participar em interação com graus variados de monitoração estilística.