5.5 Causes of the Changes
5.5.2 Economy
A prática dos professores alfabetizadores está fundamentada nos métodos sintéticos e analíticos.
O método sintético de alfabetização fragmenta a palavra ou a frase em seus constituintes menores (sílabas e letras). Dá ênfase à correspondência entre grafema e fonema – letra e som. Defende a concepção de que a consciência fonológica é condição primeira para a aprendizagem da escrita.
O método analítico de alfabetização, conhecido também como método global de alfabetização, tem sua origem em Decroly (1926), opõe-se ao método sintético ao valorizar mais o atributo visual da palavra do que o fônico. Inicia o processo de alfabetização considerando que a criança precisa ter uma compreensão do “todo” da palavra, antes de chegar a fazer uma análise das sílabas e letras. Da fusão dos dois métodos derivou-se o método misto de alfabetização, que inicia o processo de ensino de leitura e escrita tomando como base frases e nomes para, em seguida, decompor em sílabas e letras.
Está presente também, na história da alfabetização do Brasil, o método Paulo Freire. Esse método se pauta em princípios sociais e políticos, levando o aluno trabalhador a perceber sua condição social e a reconhecer-se como um agente da história. Nessa perspectiva, o papel do professor alfabetizador é conscientizar o educando para ter conhecimento da realidade em que está inserido, ao tempo em que cria estratégias que possibilitem aos educandos o desenvolvimento da leitura e da escrita. Por esse método, no ano de 1962, são alfabetizados 300 cortadores de cana de açúcar em apenas 45 dias, em Angicos, Rio Grande do Norte.
De acordo com Brandão (2004), para desenvolver esse método, há que se promover uma investigação do universo vocabular do aluno para identificar as palavras mais usadas pela população a ser alfabetizada, a fim de possibilitar o debate que favoreça o estudo das sílabas, identificação dos aspectos fonéticos e a criação de palavras novas.
O diálogo é um recurso imprescindível para desenvolver a reflexão crítica e criativa do aluno, porque o leva a pensar em seu contexto social, permitindo a leitura de mundo que segundo Freire (1987), deve preceder a leitura das palavras.
Para Brandão (2004), Freire propõe um método de alfabetização revolucionário, porque proporciona ao aluno uma reflexão crítica e política de sua realidade, objetivando não apenas o ensino do código escrito. Ao analisar o método de alfabetização de Freire, observo que o mesmo pode ser classificado entre os processos de alfabetização do método analítico, pois este toma como ponto de partida a palavra geradora, que uma unidade de sentido polissêmico.
A proposta de alfabetização de Freire toma por base a ideia do diálogo entre educador e educando em que há uma troca profícua de saberes linguísticos culturais entre ambos, um dos pressupostos dessa proposta é que ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho, a educação se dá nas relações sociais, dessa forma há sempre educadores educandos e educandos educadores.
A cartilha, para essa proposta, é considerada portadora de um saber desvinculado da realidade do educando, por isso desinteressante para esse, “é uma espécie de roupa de tamanho único que serve pra todo mundo e pra ninguém” (BRANDÃO, 2004, p. 22). O cerne do trabalho do professor alfabetizador, nesse método, é a fala social que vira escrita pedagógica.
Assim, logo que a comunidade aceita envolver-se com a proposta de alfabetização freireana, inicia-se a pesquisa para o “levantamento do universo vocabular” que é a idéia de que há um conjunto de fala; vocábulos mais usados, específicos da cultura daquela população (BRANDÃO, 2004). A pesquisa do universo vocabular ou linguístico do aluno se coaduna com a pesquisa dos saberes da sua vivencia (oralidade) discutida neste texto. Portanto, acredito que são duas vertentes de uma mesma fonte de conhecimento (linguísticos culturais) que vão contribuir para o estudo em foco.
A pesquisa do universo vocabular se dá por meio de uma pesquisa de campo. A coleta dessas informações leva em conta todos os aspectos emblemáticos presentes nas falas das pessoas, desde palavras, frases, provérbios, modos próprios de representar e desvelar o mundo e, traduzir a vida.
Tais falas contêm os temas geradores que se expressam por meio das palavras geradoras que constituem o cerne do método. Essas palavras são vistas não apenas como instrumento de leitura da língua, são também instrumentos de uma releitura coletiva e existencial das relações dos homens que a falam.
Por conseguinte, tais palavras precisam atender a essas duas necessidades de leitura: a leitura da palavra e a leitura existencial.
Para Brandão (2004, p. 31) a melhor palavra geradora é aquela que reúne em si alguns critérios, tais como:
i) Sintáticos (possibilidade ou riqueza fonêmica, grau de dificuldade fonêmica complexa, de manipulabilidade dos conjuntos de sinais, as silabas, etc.), ii) semânticos (maior ou menor intensidade do vínculo entre a palavra e o ser que designa, maior ou menor adequação entre a palavra e o ser designado, etc.) e iii) pragmáticos (maior ou menor teor de conscientização que a palavra traz em potencial, ou conjunto de reações sócio-culturais que a palavra gera na pessoa ou grupo que a utiliza).
As palavras geradoras aparecem em frases nas falas das pessoas que apontam para as temáticas, ou seja, surgem aí os temas geradores que remetem às relações dos homens com o seu meio ambiente, seu trabalho, a produção de bens sobre a natureza etc.
O estudo de cada tema deve ser distribuído de acordo com as ciências do homem e como tal, receber um tratamento específico, não na lógica da fragmentação do saber, mais no sentido de situá-lo nas referidas áreas do conhecimento a fim de aprofundar o debate. Os temas geradores são pensados por Freire para serem usados no trabalho docente na fase de pós-alfabetização.
Observo que esse método propõe uma organização do trabalho pedagógico diferenciado das demais propostas de alfabetização. Essa organização se explicita, não apenas na elaboração da proposta didática, mas também na própria estética de sala de aula.
As salas de aula com carteiras dispostas em fileiras comumente usadas nas classes de alfabetização tanto de crianças como de adultos são substituídas pela organização dos “círculos de cultura”. Os alunos se organizam em uma disposição circular na sala de aula, em que visivelmente ninguém ocupa um lugar proeminente, o que permite uma interação face a face entre todos, inclusive com o animador do debate, como é chamado o professor nesse trabalho. O qual tem a função de
coordenar o debate, incentivando a participação por meio da dialogicidade em que todos se ensinam e aprendem, e o animador, ao conceder o piso de fala ao aluno, o ratifica como falante de sua língua materna.
No círculo de cultura, segundo Brandão (2004) mais do que o aprendizado individual de ler e escrever, o que se aprende são modos solidários e coletivos de pensar e aprender e todos juntos aprendem a cada encontro que aquilo que estão elaborando é uma outra maneira de fazer a cultura que os faz, por sua vez, homens e mulheres sujeitos seres de história.
Os estudos de Ferreiro e Teberosky (1985) têm como diferencial das demais concepções o mérito de descrever aspectos do desenvolvimento infantil e as operações cognitivas que são elaboradas pelas crianças na construção da escrita inicial, aspectos que, até então, não eram considerados.
Tais estudos começam a ser divulgados no Brasil na década de 1980 e influenciam sobremaneira os programas de alfabetização. O programa de Formação de Professores Alfabetizadores – PROFA, do Ministério da Educação (2001), utilizou esse referencial teórico em sua proposta para a formação de professores alfabetizadores.
As concepções de Ferreiro (1985, 1986 e 1993) e Ferreiro e Teberosky (1985) contribuíram significativamente para o estabelecimento de um novo olhar para o processo de alfabetização, viabilizando uma ressignificada percepção do desenvolvimento conceitual da criança e da valorização dos seus conhecimentos prévios sobre a escrita inicial e espontânea.
No entanto, após uma análise mais acurada desse processo, percebo que esse aporte teórico veio mais uma vez legitimar a alfabetização baseada na palavra, na sílaba e na letra, faltando a essa abordagem mais explicitação fônica, ou seja, relação fonema/grafema. Por isso, essa visão tem sido criticada por especialistas da área e novas pesquisas têm se consolidado, dando lugar a uma visão mais ampliada do conceito de alfabetização com os estudos sobre o conceito de letramento.
Pesquisas apoiadas na Sociolinguística e na Linguística têm contribuído para o entendimento da aprendizagem da leitura e da escrita, tendo produzido recentemente os estudos sobre letramento, cujos conceitos encontram apoio nas pesquisas acerca da alfabetização. As várias investigações, nessa área, decorrem
da necessidade de que os envolvidos com alfabetização busquem explicar as interferências da escrita no âmbito individual e social.