4. Marco teórico
4.1. Educación Emocional: conceptualización
Através de um exercício dialético, Mircea Eliade (2008) designa aquilo que faz parte do mundo do sagrado em contrapartida àquilo que pertence ao contexto do profano. A partir disso, o autor coloca ambos em pontos extremos: o profano é o caos, o devir, o relativo, mudança constante e, portanto, o irreal; enquanto que o sagrado é aquilo que ordena o caos, é o cosmos, a constância, verdade universal e, portanto, a única realidade.
Desta construção dual da realidade humana surge a concepção de liminaridade, pois para que o trânsito entre estes dois espaços se concretize há a necessidade de se considerar o limiar, que dá continuidade espacial. Portanto, o limiar entre os espaços sagrado e profano é sempre utilizado como local para sacrifícios, julgamentos e reverências, além de conter sinais
claros que alertam sobre a distância de ambos os locais. Um bom exemplo disso são as gárgulas que, no período medieval, eram adornações de feras e demônios, que tanto protegiam as igrejas, como alertavam aos fiéis os perigos que os aguardavam no mundo profano.
Assim sendo, a habitação do homem religioso é seu próprio universo, que ele cria para si através da repetição da criação exemplar dos deuses. Ela está no centro do mundo, não de forma física e material, mas de forma espiritual e existencial. É um simbolismo presente em todas as comunidades religiosas primitivas, sendo retomado pela arquitetura sacra surgida posteriormente.
Aquilo que Eliade (2008) chama de ―obsessão ontológica‖ é visto como uma visão completamente otimista, já que o homem religioso acaba aderindo totalmente ao ser e luta para que esteja sempre em sua presença, quer espacial, quer temporalmente. E, para além disso: toma seu ato de criação como modelo a ser seguido em todos os âmbitos de sua existência.
O mito é o modelo por ser uma verdade ontológica, absoluta. E o é porque foi revelado através da palavra, pois que, em essência, é um mistério e só fala da realidade e, portanto, da ―verdade‖. É evidente que se trata de realidades sagradas, pois o sagrado é o real por excelência. Tudo o que pertence à esfera do profano não participa do ser, visto que o profano é aquilo que não foi fundado ontologicamente pelo mito, não tem modelo exemplar.
Dois autores centrais em minha análise sobre o Espiritismo kardecista são Cândido Camargo (1961) e Renato Ortiz (1999)170, ambos utilizam da perspectiva comparativa para melhor compreender o universo de análise, executando essa perspectiva de compreensão que investe na possibilidade de comparação que o ajuda como a nós mesmos os leitores a situar a reflexão e ―considerar‖ o ―espaço‖. O ―continuum‖ religioso proposto por Camargo (1961) agrupa em um mesmo movimento diferentes comunidades como kardecistas e umbandistas. É importante citar que Ortiz (1999) nos alerta quanto a possibilidade de se deixar confundir o tipo o método com a própria realidade, envolvidos pela perspectiva funcionalista, que nos aproxima da realidade, mas não é a própria realidade, tratando-se de uma perspectiva tipológica e esquemática. A relevância do espaço sagrado, espaço de vivência do Cosmos umbandista como tratado por Ortiz (1999) demonstra-se essencial e diz respeito a mais do que descrever o espaço, mas em evidenciar os marcos, as referências de sentido dispostas na
170 Cf. ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro: Umbanda e sociedade brasileira. São Paulo:
construção, ou melhor, expressando a revelação do sagrado do espaço. A sua proposta é situar o espaço a ser compreendido a partir do um sistema de gradação que constrói a consideração de um culto mais ou menos ocidentalizado.
Ortiz (1999) nos evidencia o quanto, no caso mais específico de seu trabalho, ―[a] análise do espaço sagrado demonstra claramente as diferenças que existem entre as extremidades do ―continuum umbandista‖; ela permite compreender como valores religiosos e sociais podem servir de modelo à organização espacial do culto‖171. Ora, este exercício de
aproximação e distanciamento de referências permite a consideração dos detalhes marcantes e significativos que de outra forma não se evidenciariam com tanta força, como descrito no templo umbandista: a forma em cruz do salão, a ausência da ―cozinha dos deuses‖, da casa de exu, o solo sagrado não mais de terra batida, a presença do sistema burocratizado de fichas e enfim, a possibilidade de distribuição de marcos simbólicos ao considerar-se a edificação em terreno dentro ou fora da cidade, mais ao centro ou mais na periferia considerando seus frequentadores. Mantendo o esquema tipológico proposto por Camargo (1961) e explicitado por Ortiz (1999), a Umbanda está situada no pólo mais ―ocidentalizado‖ do que o candomblé, por exemplo.
Em nosso caso específico diria que o Espiritismo Kardecista está no extremo mais ―ocidentalizado‖ se comparado à Umbanda, principalmente se considerada a atribuição pelos espíritas kardecistas do papel minimizado das performances rituais, ou melhor, dizendo, a tentativa de invisibilidade da performance ritual espírita kardecista, conformada ao modelo da fábrica e das instituições de gestão burocrática ocidental moderna, com suas diretorias, departamentos coordenações, ministérios, filas, fichas, relatórios de frequência, etc., que se apresentam aqui, assim como no plano espiritual se consideramos os modelos organizacionais disponíveis das colônias e cidades espirituais.
Chego a casa ou centro Associação Espírita Caminheiros do Bem no mês de setembro de 2006, durante os esforços de construção do Projeto de Doutorado junto ao programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais-Antropologia na UFPA. Encontro o espaço do centro ocupando uma grande e notável edificação de fachada antiga, sóbria e bem preservada.
O nome ―Caminheiros do Bem‖, atribuído a esta casa espírita não é incomum. Há muitas casas portadoras do nome ―Caminheiros‖ no Brasil espírita, a atribuição faz menção à passagem do texto de psicografia de Chico Xavier que pretende descrever a vida dos cristãos
primitivos no texto intitulado ―Paulo e Estevão‖, seria ―caminheiros‖ a denominação inicial dada aos cristãos, como descreve a seguir:
―[...] [P]ondero a necessidade de imprimirmos a melhor expressão de unidade às suas manifestações. Quero referir-me aos títulos que nos identificam a comunidade. Não vejo na palavra ‗caminho‘ uma designação perfeita, que traduza nosso esforço. Os discípulos do Cristo são chamados ‗viajadores‘, ‗peregrinos‘, ‗caminheiros‘. Mas há viandantes e estradas de todos os matizes. O mal tem igualmente seus caminhos. Não seria mais justo nos chamarmos – cristãos – uns aos outros?172‖
Não devemos deixar de notar que as obras psicografadas de Chico Xavier atribuídas a seu guia espiritual Emanuel buscam ilustrar os episódios do início de Cristianismo e pretendem marcar a presença do Espiritismo desde sua origem histórica. Por isso não seria uma criação nova ou construção recente, mas na percepção dos espíritas o ―verdadeiro Cristianismo‖ que nunca teria se confundido com a Igreja Católica. É uma forma de utilizar a tradição para acalmar angústias e acusações sobre a novidade do Espiritismo em contraste com a tradição da vivência católica, mas também marca a casa espírita como modelada desde seu princípio às comunidades cristãs primitivas.
Em datas comemorativas de aniversário, com frequência relata-se o momento de fundação do centro espírita, descrita como segue:
―No dia 03 de março de 1926 um grupo envolvendo no total 222 pessoas, representando dezessete Casas Espíritas de Belém, reuniu-se na residência do Sr. Aquiles Gama (Largo do Redondo n° 5). Presidiu aquela reunião o Sr. Archimino Lima, membro atuante do Movimento Espírita da época e designou-se como secretário o Sr. Marcos Argüelles, então Presidente do recém-criado Centro Espírita Yvon Costa. Tinham por objetivo tratar do alcance da atuação das atividades daquela que, apesar de tão jovem, já era uma Casa tão cheia de novas buscas. Em meio às sugestões trazidas, o próprio Sr. Yvon Costa, ali presente, pronuncia-se propondo enfim a fundação de mais uma Casa, que teria um caráter especial, com tons beneficentes e que agregaria outras instituições espíritas simpáticas aos interesses daquele grupo. Esta proposta foi aceita por unanimidade. Em seguida o grupo recebeu através da psicografia do Sr. Archimino Lima a sugestão do nome: ASSOCIAÇÃO ESPÍRITA CAMINHEIROS DO BEM , para intitular a nova instituição, aceito também unanimemente. Instalado o consenso foram externados comentários vibrantes, em nome do Movimento Espírita no Pará, passando a fazer parte deste Movimento o nosso Caminheiros que este ano comemora 83 anos de exercício no Bem.
172 Cf. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estevão. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1992, p.
Elaborado a partir da Ata de Fundação da AECB em 03 de março de 1926.173‖
O prédio, uma casa de dois pavimentos (térreo e porão), ocupa a extensão do quarteirão de ponta a ponta, apresentando-se logo à esquina o que dá uma visibilidade destacada à edificação. Cercada por muros altos, há duas entradas: a principal, por onde os participantes são recebidos por trabalhadores da casa e que os leva à livraria e à portaria, locais onde terão, se novos participantes, as informações iniciais sobre a casa e encaminhamento sobre os ―serviços‖ disponíveis, a segunda porta de entrada, a dos fundos, nos leva até a lanchonete, recentemente instalada junto à cozinha.
A área do prédio, extensa, permite que o centro se divida funcionalmente e apresente muitas atividades paralelas. Isto é relevante ao considerarmos que o centro funciona apenas durante a noite de segunda a sexta; funciona pela manhã e tarde durante o sábado e apenas durante a manhã no domingo. A casa ou centro espírita apresenta-se em uma perspectiva do que pretendo chamar aqui de arquitetura sagrada ou espiritual, na tentativa de me aproximar dos fundamentos da concepção espacial no templo espírita.
173 Cf. AECB – Associação Espírita Caminheiros do Bem. Disponível em: