5. DISKUSJON
5.4 N EDBYGGING AV BARRIERER
É interessante notar que Milton escreve para um professor, não para os seus pais. A própria carta faz parte de um processo de educação – e talvez o jovem já estaria aprendendo uma das maiores lições que seguiria pelo resto de sua vida: a de que a pedagogia é essencial para se reeducar em um mundo contaminado pela violência. Tal violência “não é a violência física que o homem sofre por parte de sua natureza exterior (enfermidade, fome, morte, etc.), nem a que os outros indivíduos lhe infligem (sofrimento, privações, morte violenta)” – assuntos com os quais a filosofia política lida diretamente. Como já se intuiu ao observarmos as frases rascunhadas no processo de composição deste escrito, o que preocupa Milton é observar em si mesmo “a violência que o homem, enquanto ser razoável, sofre por parte do seu ser empírico: o homem sofre de si mesmo (passio, pathós, Leidenschaft), e é dessa paixão que a educação deve libertá-lo” – justamente a área cinza onde a filosofia moral dialoga com a voz da filosofia política13.
Ao se reconhecer como um homem violento, ele também percebe que é alguém dotado de razão e liberdade, um ser razoável, nos dizeres de Eric Weil. Ora, ao usarmos estas duas palavras – razão e liberdade – para identificar uma única condição também observamos que há uma divisão na pluralidade de “discursos” e de “morais” que regem uma comunidade, quando se trata da expressão de uma vivência que todos reconhecemos como una – afinal, sem a razão, a liberdade não existe, e vice-versa, e sem as duas faculdades juntas torna-se impossível distinguir o ser razoável do não-
razoável, a vida sensata da insensata14.
Se, no reconhecimento do dilaceramento moral, temos a tomada de consciência do “mal em nós”, da violência interior que pode nos dominar sem trégua, é natural que cheguemos à conclusão de que o conhecimento do mal é o fundamento para a construção de algum bem. Dessa forma, sabemos que, de fato, o mundo é contaminado
13 Cf. WEIL, Eric. Filosofia Política, tradução de Marcelo Perine, São Paulo, Loyola, 2011, pág. 59. 14 Cf. WEIL, Eric. Filosofia Moral, tradução de Marcelo Perine, São Paulo, Editora É, 2011, págs.34-59.
31 pela violência, mas não é pura violência. Assim, ao identificar a razão e a liberdade como estruturas essenciais do seu ser razoável, temos também de notar que a escolha é parte importante desse posicionamento moral perante a comunidade – talvez a mais importante de todas, já que há um momento indistinto em que não se sabe mais se a razão e a liberdade começam como uma única faculdade ou se é a vivência da violência interior que estimula a procura por esses fundamentos. Afinal, tanto a razão e a liberdade não podem ser capturadas como um fato; mas a escolha feita para ser esse ser
razoável só pode ser feita dentro do próprio fato que detona a violência exterior na
sociedade, sempre motivada por uma escolha que fez pela ausência de resistência à violência interior15.
Como toda ação humana vem de um desejo de concretizar ou expressar tal escolha, é de se perguntar de, caso o indivíduo decida ser alguém regido pela razão e pela liberdade, também não decida ser dominado pela violência de sua passio. É claro que não podemos cair nas armadilhas dos conceitos equívocos do que seria razão e do que seria liberdade e, por isso, a partir de agora, ao falarmos do primeiro termo, temos de ter em mente que razão significa ordem, proporção, harmonia, hierarquia entre as
diversas partes de um mesmo organismo, seja um ser humano, uma comunidade ou uma
sociedade onde se deve conviver politicamente; e ao nos referirmos à liberdade, deve-se vê-la como a decisão interior de um sujeito dotado de unidade de consciência e que, ao concretizá-la em uma decisão exterior, harmoniza a violência interior com a violência exterior, assume a responsabilidade perante os seus atos, seja para reconhecer os seus acertos ou os seus erros e, no caso de acontecer estes últimos, repará-los da maneira mais pessoal possível16.
Dessa maneira, o que torna alguém um ser razoável capaz de viver a vida
sensata é o fato de que ele deve escolher livremente a razão como norte existencial
justamente porque pode ter optado, também livremente, pelo o oposto da razão, a violência. Trata-se de um paradoxo que nos conduz à distinção dos dois sentidos da palavra liberdade, “um referindo-se à possibilidade da filosofia enquanto atividade
15 Idem.
16 Cf. WEIL, Eric. Filosofia Moral, tradução de Marcelo Perine, São Paulo, Editora É, 2011, págs. 34-59. Ver também: WEIL, Eric. Filosofia Política, tradução de Marcelo Perine, São Paulo, Loyola, 2011, pág. 59.
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humana, o outro, à realidade da filosofia constituída em autocompreensão do discurso
humano17”.
“É verdade que a liberdade escolhe entre a razão e a violência e que ela efetua essa escolha sem referência alguma à razão constituída”, esclarece-nos Weil, “que ela deve antes de tudo fundar: escolha sem fundo nem fundamento, fundo e fundamento não aparecendo senão uma vez feita a escolha”. Ninguém poderia dar razão de sua opção só pela razão (que explicaria, no máximo, sua escolha, mas ainda o faria razoavelmente). “Nesse sentido, pode-se dizer e é preciso dizer que o homem é
liberdade indeterminada e sempre se determinando: a liberdade pode aceitar, como
pode recusar, a violência, e ela pode situar-se do lado da animalidade, assim como pode desviar-se dela”. O ponto decisivo é que o homem não pode falar dessa escolha, ele só a pode descobrir (des-cobrir) “depois de ter escolhido o discurso coerente e a razão”. Os homens optam deliberadamente e após madura reflexão, contra a razão, num mundo que é informado por ela e que, pelo menos em princípio, organizou-se contra a violência; não é, entretanto, uma objeção: basta observar que, regularmente, “esses homens justificam sua opção, que, por consequência, eles pressupõem o discurso antes de negá- lo; eles não poderiam negá-lo se ele não existisse”. A recusa da razão se produz neles demasiado tarde: eles pretendem efetuar uma escolha razoável optando contra a razão; e aduzem razões “científicas” que tornam, segundo eles, essa decisão inevitável para que, razoavelmente, se submeta aos fatos. Malgrado eles mesmos, eles confirmam assim a tese: “razão e violência só se separam para o homem depois da opção pela razão. Só o homem razoável sabe que é livre; só aquele que se voltou para a razão pode compreender, dizer, proclamar que teria podido escolher de outro modo e que, a qualquer momento, ainda pode fazê-lo”. Uma vez que os homens optaram pelo discurso, “a opção pela violência é função dessa escolha. Quanto ao que seria violento num mundo não informado pela razão, ele não teria nenhuma consciência da sua escolha: ele seria um animal”18.
Assim, quando usamos os termos razão e liberdade temos de restaurar a
violência interior da qual surgiram. Quem decidiu pela razão e quem decidiu pela
violência, ambos livremente, não fizeram esta escolha em um ambiente sereno de
17 Grifo nosso.
33 discussão. E aqui se faz uma pergunta inevitável: no meio desta confusão, o que veio antes – a liberdade ou a razão? Se falarmos em termos de “discurso autoconsciente”, não seria exagero afirmar que a liberdade é anterior à razão. Mas há um equívoco se insistirmos nessa relação de causa e efeito: ela esconde o inconveniente da sua verdadeira simbiose, já que “a liberdade, com efeito, só existe para a razão: seria um contrassenso querer falar de liberdade abstraindo da razão, querer proceder de um ponto de vista razoável, mas situado fora da razão, pretender decidir entre razão e liberdade como juiz separado e desinteressado – em virtude de que lei?, de que princípio?, de que autoridade?”. A razão é liberdade que se determinou à razão, mas que só se compreende como razão por ter escolhido e por ser capaz de escolher. A razão reconhece que é incapaz de se fundar a si mesma e que nasce de uma decisão pela razão, que não poderia, portanto, ser imposta por razões. Mas ela vê também que o homem só é livre quando se sabe livre – quando quer ser razoável, por pouco explícitos que sejam esse saber e essa vontade. Para a razão, a razão é a realização da liberdade, dessa liberdade que se capta a si mesma na razão e se compreende como fonte e origem absolutas, como razão livre e liberdade razoável. “Porque ela é ratio cognoscendi [ordem do conhecimento] da liberdade, a razão é, portanto, também a sua ratio essendi [ordem do ser]: uma liberdade que não soubesse que é liberdade seria simples indeterminação, e só seria isso por relação a um ser livre e assim capaz de pôr a questão de determinação”. E porque ela é a ratio essendi [ordem do ser] da razão, a liberdade é também a sua ratio
cognoscendi [ordem do conhecimento]: “uma razão que não fosse livre seria uma
vontade de universalidade incapaz de escolher e não se conheceria, pois só um ser livre é capaz de se buscar, vale dizer, de se separar a si mesmo para se opor a si mesmo”19.