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Economic relevance of clusters and cluster policy

– op. cit. p.626

filha que sofre de ataques histéricos. Aquele uma sobrinha, cujo pulmão ameaça ruína. Este outro é achado de erisipelas. Um tem medo da febre amarela. Outro... No fim de contas não se vai para o campo por isto ou aquilo, mas quase sempre por moda .(...)86

As diferenças entre as cidades são apontadas por França Júnior, como “pontos de contato e traços salientes de separação”. Se para Petrópolis, deslocavam-se a família imperial e a corte, quase sempre por moda, para desespero das donzelas à procura de um bom partido, ou de assuntos para suas intermináveis conversas, a maior parte dos que iam a Friburgo o fazia por recomendação médica. A água das duas cidades possui “a virtude dos grandes remédios americanos; - cura todas as moléstias, desde a prosaica espinhela caída até a poética neurose, originária por amores infelizes”. Médicos a indicavam, como ainda indicam, para males do fígado, estômago etc. Um médico, em particular, é citado por França Júnior, mais por ironia do que pela competência: Sales Torres Homem, mencionado no capítulo anterior. Como dissemos, os folhetinistas não pouparam sua atitude de vira-casaca, passando de liberal radical que atacava até o Imperador a ministro de um gabinete conservador e Visconde de Inhomirim, título recebido do mesmo Imperador. França Júnior alista-se entre os conservadores que repudiavam o adesista e, nos diálogos que escreveu neste folhetim, abaixo reproduzidos, atira ao político (e médico) farpas certeiras:

- Para onde pretende ir este ano, Dª Chiquinha? - Para Petrópolis. Aquilo deve estar explendido! - Que pena eu tenho de não ir também.

- E porque não vai?

- O Torres Homem disse a papai que era melhor ir para Friburgo. - Eu já mandei fazer seis vestidos na Lambert, e estou à espera de três

chapéus que devem vir da Europa. Os nossos carros já foram. Quando sair à rua, hei-de por poeira naquilo tudo.

- Você é quem pode.

- No Hotel Bragança (em Petrópolis) já não há lugares. O Hotel

Inglês está cheio, as casas andam por favor.

- Maldito Torres Homem!

- Olhe, já lá está a família do Siqueira; ontem embarcou o Geraldo

com as filhas...

- Para onde vai o Geraldo?!

- Para um chalé na rua do Imperador.

- Diacho do Torres Homem!87

As comparações denotam a postura crítica em relação à administração local e à vida social, e a preferência do folhetinista por uma ou outra cidade. Assim, se em Petrópolis os chalés e as casas de campo são construídas

...a sorrirem entre as flores, Friburgo detesta os jardins, erguendo suas casas à beira da estrada, com o aspecto grave e carrancudo das habitações urbanas, e consente que o capim cresça em suas ruas, dignas de melhor sorte. (...) Petrópolis teve um teatro, que hoje é – venda. Friburgo teve uma venda, que hoje é teatro. Petrópolis, além da iluminação, tem a seu serviço legiões de pirilampos, que à noite cintilam como diamantes sobre os tapetes de grama, que bordam a margem de seus canais. Friburgo não tem iluminação nem pirilampos. (...) Petrópolis dança aos sábados no hotel Bragança (....). Friburgo não dança: engorda.88

87 FRANÇA JÚNIOR

– Op. cit. pp. 196 e 197.

COSTUMES

O mesmo França Júnior que chega ao lirismo em seus folhetins mais amenos, ao falar de crianças, sem perder a verve que constata, que os “anjinhos do céu”, após alguns minutos de convivência, “são mais espirituosos e malignos que todos os diabos da terra”, é o folhetinista bucólico que censura os “brasileiros degenerados” que na Corte cantam ao piano árias de Rossini e Verdi, recomendando irem “à Bahia” perguntar “ao capadócio” (espécie de trovador enamorado) “como se canta”. Antecipando a paixão musical de um Mário de Andrade, cita lundús, cateretês e sambas.89

O campo, na época nomeado como a roça, tem aparentemente, para França Júnior “encantos intraduzíveis”. Simulando ter recebido uma carta de um “amigo íntimo”, publicada no folhetim “A Roça”, o autor apresenta prós e contras a respeito da vida na natureza, pelas mãos do pretenso missivista. Viver numa choupana no “meio da mata virgem, rodeada de flores silvestres, (...) felizes eu e ela”, respirando “ar puro, puríssimo, tão puro que se o Rio de Janeiro pudesse recebe-lo encaixotado, fechar-se- iam logo todos os consultórios médicos”. Não transpirar, ter o fígado em perfeito funcionamento, dormir “como um justo” e ter o bom humor correndo “parelhas com o de um recém casado sem sogra no período da lua de mel”. Todas estas vantagens da

roça, no entanto, perdem para a vida da corte pelo predomínio dos hábitos urbanos e o choque que representa para o “amigo íntimo” a falta do pão entregue duas vezes por dia pelo padeiro, o horror a ter apenas a carne de porco e, graças à proverbial preguiça da

gente da roça (antecipando o Jeca Tatú de Monteiro Lobato...), ter apenas como legume o chuchu para comer:

(...)Estou farto de lombo de porco, de costeletas de porco, de orelhas de porco, de cabeça de porco... Não podes imaginar que porcaria! Sabes que nunca em minha vida fiz versos. Pois bem, ontem dediquei um soneto ao bife. Chamei-o – maná do deserto, único consolo da vida, sol da existência. (...) No que diz respeito a legumes. Acreditas sem duvida que devo ter tomado um fartão deles. Enganas-te, meu amigo. Esta gente daqui boceja, dorme, e nas horas vagas toca viola. Não lhe sobra tempo para plantar. No que diz respeito, pois, a legumes, estou reduzido ao chuchu.90

Após reclamar que seu espírito “começa a enferrujar” pela falta de opções de leitura, pois o livro “mais interessante que por acaso caiu-me nas mãos foi uma folhinha de 1871”, o missivista fictício relata um pedido feito a um vizinho, para que lhe emprestasse algum romance “digno de ler-se”, recebendo então dois volumes de um dicionário antigo, “romance” apresentado pelo vizinho como maçante que ele lia quando não tinha o que fazê... Concluindo a “carta”, assim podemos ver o predomínio da cidade sobre o campo (a roça...) na crítica do cosmopolita França Júnior:

(...)A despeito de tudo, engordo e passo admiravelmente bem. Prefiro, porém, a Corte. Tenho saudades do pão, do bife, dos camarões recheados do Pascoal, das boas prosas à porta do Castelões, do jardim do Teatro Santana, dos bailes dos Clubs de Regatas e das Laranjeiras,

etc., etc. Não nasci para respirar estupidamente ar puro e engordar sob o regime da farinha de mandioca, da carne de porco e do chuchu. O meu elemento é o Rio de Janeiro.91

No folhetim “Maçantes”, França Júnior ataca uma classe especial de homens, os maçantes, também conhecidos, então, como amoladores, sequistas (termo ainda

90 FRANÇA JÚNIOR, op. Cit. p. 609. 91 Ibidem, p. 610.

encontrado nos dicionários atuais) ou músicos do futuro, apelido dado pelos que, na época, detestavam a música de Richard Wagner. Reclama o advogado, pela pena do folhetinista França Júnior, contra a inexistência, no código criminal, de artigos que qualifiquem como crime os atos praticados “por semelhantes homens”. Qualquer ínfimo atentado contra a propriedade é levado “aos tribunais com grande aparato”. No entanto, o Juiz...

...por mais reto e severo que seja, cruzará os braços se alguém for dizer- lhe: Senhor: há um homem que envenena-me a existência dia por dia, hora por hora, minuto por minuto e contra o qual já não sei o que devo fazer. Esse malvado tem a mania de escrever péssimos artigos políticos para os jornais, e está sempre a falar contra o governo. Eu sou o seu – auditório, - e qualquer lugar, onde nos encontramos, transforma-se logo em tribuna!(...)92

Cria França Júnior, para classificar os tipos de maçantes (chatos, na gíria atual), dez tipos de categorias: 1) os que contam histórias “a propósito de tudo”, e na narrativa de um “caso, esquecem sempre os nomes dos personagens que nele figuram”; 2) os retóricos, “que escolhem termos quando falam, e que gostam de se ouvir”. São indivíduos que “não conversam, discutem.”; 3) os que falam e não deixam os outros falarem, verdadeiros “déspotas da palavra”; 4) maçantes que não falam: os mais perigosos, pois limitam-se a ouvir o que dizem os demais participantes de uma conversa e, quando ela parece extinguir-se, fazem de tudo para que ela continue, inclusive falar algo como: “-- É o que lhe digo. O senhor é quem pode. Este mundo é uma bóia. A vida é para o senhor. O que há de novo? O que se diz por aí? Isto vai mal, etc, etc.”; 5) o maçante lírico, “que adora em excesso a música”, e procura por todos os meios levar a conversa para o canto lírico, as novidades na área etc.; 6) os maçantes que não gostam de música, e “no entretanto obrigam as filhas a cantar e a tocar, para ... obsequiar as visitas”; 7) os que “se julgam atacados de todas as moléstias”; 8) maçantes valentões,

que implicam e ameaçam brigar por qualquer motivo, mas não passam das ameaças; 9) as solteironas, que o folhetinista, irônico, apenas menciona, sem defini-las... e, por último, os que “consomem o tempo a indagar da vida alheia, que perguntam aos conhecidos e desconhecidos: Onde compraste esta corrente? Estás empregado? Quanto ganhas? O que faz tua mulher todo o dia à janela? O que jantaste hoje? etc, etc”.

Com sarcasmo, França Júnior relata a criação, “há cinco ou seis anos (...) no Rio de Janeiro”, de uma sociedade a que chamou “Resgate dos Cativos, com o fim altamente filantrópico de livrar os sócios das garras dos maçantes”. Chega a descrever como se realiza o resgate: o indivíduo incomodado por um dos vários tipos de maçantes coloca a mão no peito. Um membro da sociedade que esteja passando pelo local ou presencie a cena aproxima-se, “afetando sofreguidão”, e diz que estava procurando a vítima do maçante “há mais de duas horas”, que (a vítima) era esperado por outras pessoas para tratar de um negócio imaginário. O membro da sociedade pede licença ao maçante, leva o “resgatado” pelo braço, e “vão à primeira confeitaria tomar um refresco, ou à próxima esquina, onde cada um segue seu rumo”.

Como acontecem aos bons escritores satíricos, e bem humorados, nosso folhetinista não poupa nem sua classe, ao final do folhetim:

(...) Mas agora reparo que tenho diante de mim vinte e três tiras de papel escritas! Em que categoria estarei classificado? Na décima primeira, de que não falei: - a dos escritores insípidos, que têm a mania de escrever folhetins. E antes que o leitor faça o sinal de socorro, ponto final.93

POLÍTICA

O arcabouço institucional do regime monárquico estava expresso na Constituição de 1824, que vigorou até o final do Império (1889) com pequenas modificações. O sistema político era monárquico, hereditário e constitucional. Havia uma nobreza, mas não uma aristocracia: os títulos concedidos pelo Imperador não eram hereditários, não havendo, assim, uma aristocracia de sangue no Brasil. A religião católica era a oficial, permitido o culto particular de outras religiões. Escravos e mulheres não possuíam direitos políticos, sendo que os escravos estavam excluídos dos demais dispositivos constitucionais. Uma curiosidade: até 1882 admitia-se o voto de analfabetos, nas condições censitárias abaixo discriminadas. Formalmente, a Constituição de 1824 organizava os poderes constituídos, definia atribuições, assegurava os direitos individuais, a igualdade perante a lei, a liberdade de pensamento e de manifestação. Estruturalmente uma sociedade de tradição autoritária, entretanto, no Brasil a aplicação de tais direitos era (como é) relativa, pois a população livre das áreas urbanas, a chamada elite letrada dependia dos grandes proprietários rurais.

No parlamentarismo monárquico que funcionou no Segundo Reinado, durante quase cinqüenta anos, em regime bicameral, era escolhido, por voto indireto e censitário (votavam os cidadãos brasileiros que possuíam renda anual de pelo menos cem mil réis, os votantes), em eleições primárias, um corpo eleitoral (composto de brasileiros que possuíssem renda de duzentos mil réis anuais e não fossem libertos, os eleitores). Esse corpo eleitoral elegia os deputados (compunham a Câmara), que além das exigências feitas aos eleitores e aos votantes, deveriam possuir renda anual de quatrocentos mil réis e professar a religião católica. Pelo mesmo processo eram eleitos os Senadores. A diferença substancial entre as duas casas legislativas estava no fato de que a eleição para