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KAPITTEL 2: TEORI

2.5 ECOC-programmet

Para analisar a influência da jornada flexível dos tutores no equilíbrio trabalho-família, foi considerado o modelo de Paschoal, Tamayo e Barham (2002) e as questões acerca dos componentes da flexibilidade da jornada de trabalho. Para cruzar essas variáveis, foi necessário aplicar a análise fatorial e a regressão múltipla.

Essas técnicas multivariadas foram escolhidas para atender à necessidade da pesquisa. Nesse ponto, os procedimentos adotados para verificar a influência da flexibilidade na QVT repetem-se. No caso do equilíbrio trabalho-família, as variáveis independentes permanecem sendo as variáveis dummy dos componentes da flexibilidade. Já as dependentes são as que constam no modelo de Paschoal, Tamayo e Barham (2002). Desse modo, foi necessário reduzir essas variáveis a fatores.

Para tanto, foi preciso aplicar a análise fatorial ao modelo do equilíbrio trabalho- família. Esse procedimento foi realizado sem a necessidade de excluir componentes do instrumento; isso se deu por dois motivos:

� o modelo foi constituído por 14 variáveis, contemplando uma amostra de 75 respondentes; assim, o quesito de cinco questionários para cada variável do instrumento, citado por Hair et al (2005), foi atendido;

as comunalidades e a matriz anti-mage apresentaram apenas um valor abaixo de 0,50, conforme se observa na tabela 23. A esse respeito, Corrar, Paulo e Dias Filho (2007) orienta que variáveis acima desse valor têm força significante sobre os fatores, e a sua retirada pode influenciar o modelo negativamente.

Tabela 23 - Comunalidades do modelo de Interação Trabalho Família

Initial Extraction Chego do trabalho sem energia para resolver problemas familiares 1,000 ,827 Compromissos familiares fazem-me mudar os planos no trabalho 1,000 ,549 Chego do trabalho cansado para realizar tarefas domésticas 1,000 ,717 Atividades de trabalho fora do expediente atrapalham meus

programas familiares 1,000 ,655

Responsabilidades familiares fazem-me sair mais cedo do trabalho 1,000 ,705 (Continua)

Perco um dia de trabalho resolvendo problemas familiares 1,000 ,725 Compromissos profissionais fazem-me mudar de planos com

minha família 1,000 ,653

Saio para trabalhar de mau-humor por questões familiares 1,000 ,750

Acontecimentos de trabalho deixam-me de mau-humor em casa 1,000 ,582

Responsabilidades familiares atrasam-me para o trabalho 1,000 ,539

Atrapalho-me nas responsabilidades familiares pensando no

trabalho 1,000 ,729

Problemas em casa deixam-me irritado com meus colegas de

trabalho 1,000 ,761

Saio do trabalho atrasado para eventos familiares 1,000 ,706

Atrapalho-me no trabalho pensando em minha família 1,000 ,719

Extraction Method: Principal Component Analysis. Fonte: Dados da pesquisa

Outro índice importante da análise fatorial é o Kaiser-Meyer-Olkin (KMO). Segundo Corrar, Paulo e Dias Filho (2007), esse componente indica o grau de explicação dos dados na análise de fatores, possuindo um valor mínimo de 0,50. Com base nessa informação, observa- se que o modelo trabalho-família apresentou um bom índice explicativo, uma vez que o KMO foi equivalente a 0,77.

A aplicação da análise fatorial demonstrou também que o modelo do equilíbrio trabalho-família utilizado consegue explicar aproximadamente 70% da variância dos dados. Pouco menos que o modelo de QVT.

A pesar dos bons índices apresentados nas tabelas da análise fatorial, observou-se que o modelo não se comportou como consta na teoria. Paschoal, Tamayo e Barham (2002) apresentaram apenas dois fatores em seus estudos. Porém, na análise feita, verificou-se que cada fator observado no modelo original se subdividiu em dois novos fatores, totalizando quatro componentes para representar o equilíbrio trabalho-família.

Os fatores encontrados acompanharam a seguinte ordem: � Fator 1: Interação família-trabalho, primeiro componente; � Fator 2: Interação família-trabalho, segundo componente; � Fator 3: Interação trabalho-família, primeiro componente; � Fator 4: Interação trabalho-família, segundo componente.

Ao verificar o alpha de crombach em cada fator, obtiveram-se resultados satisfatórios, pois todos apresentaram alfas acima de 0,50. Esse valor é o número mínimo permitido para fins científicos; segundo Hair et al (2005), ele indica o nível de confiança nos dados da

pesquisa. Com base nesse resultado, pode-se afirmar que o estudo possui um bom grau de confiabilidade. A tabela 24 traz o resultado do alfa dentro de cada fator.

Tabela 24 - Alpha de Crombach dos fatores da Interação trabalho-família Fatores encontrados na Análise Fatorial Alpha de Crombach

Fator 1 0,751

Fator 2 0,725

Fator 3 0,797

Fator 4 0,776

Fonte: Dados da pesquisa

Ao aplicar a regressão múltipla, consideraram-se os fatores encontrados na análise fatorial como variáveis dependentes, e os componentes da flexibilidade como independentes. Esse cruzamento de dados não apresentou relações significantes. Assim, o estudo não detectou interferência da flexibilidade no equilíbrio trabalho-família.

5 CONCLUSÃO

A pesquisa realizada contribuiu para ampliar os conhecimentos acerca da flexibilidade na jornada de trabalho. Neste capítulo, serão expostas as principais conclusões extraídas do estudo, bem como suas limitações e sugestões para trabalhos futuros.

Primeiramente, tem-se que a amostra em geral foi diversificada, abrangendo profissionais de diferentes estados e cursos. Os tutores presenciais e a distância da SEDIS vivenciam realidades semelhantes em termos de cotidiano de trabalho, porém apresentam perfis distintos. Enquanto que os primeiros são compostos por uma maioria de pessoas mais velhas, experientes na academia, casadas e com filhos, os segundos são mais jovens, estão entrando há pouco tempo na academia, são solteiros e sem filhos.

No tocante aos tipos de flexibilidade detectados, observou-se uma divergência entre a teoria e prática. No campo teórico, têm-se dois tipos de jornada flexível na EaD: o de horas reduzidas e o trabalho em casa. Porém a maioria dos tutores presenciais não considera seu trabalho flexível, uma vez que a flexibilidade depende principalmente dos alunos e não das suas necessidades pessoais. Por outro lado, os tutores a distância são cientes da modalidade do seu trabalho e a vivenciam na prática.

A jornada de trabalho dos tutores presenciais e a distância é praticamente a mesma; ambos destinam em média três horas por dia para as atividades da EaD. Nesse ponto, percebe- se a autodisciplina dos profissionais que trabalham em casa.

Nos dois tipos de flexibilidade detectados, há uma quantidade considerável de colaboradores que possuem outros ofícios. A flexibilidade permite que isso aconteça, o que torna os tutores sobrecarregados de tarefas profissionais.

Outro ponto que merece destaque é a Qualidade de Vida no Trabalho da EaD. A bibliografia estudada proporcionou base teórica para a adaptação do modelo de Walton (1975), em concordância com a realidade abordada. Esse instrumento comportou-se de modo satisfatório no contexto da flexibilidade. Cada dimensão apresentou suas particularidades.

A primeira dimensão, denominada “compensação justa e adequada”, demonstrou que, na visão dos tutores, a remuneração recebida está proporcionalmente em concordância com o trabalho desenvolvido. Porém o salário não é suficiente para suprir as necessidades dos

tutores. Esse é um dos motivos que leva a maioria do tutores a procurarem outros ofícios, tomando para si grande sobrecarga de tarefas profissionais.

A segunda dimensão do modelo, chamada “condições de trabalho”, apresentou resultados condizentes com a teoria. Nesse ponto, os tutores veem os seus respectivos ambientes de trabalho como favoráveis à segurança e livre de doenças, tanto em casa, quanto nos pólos.

Um ponto que discordou da teoria nessa dimensão foi o fato de pouco mais que a maioria dos colaboradores afirmarem que a flexibilidade proporciona aumento na carga de trabalho. Isso pode ser justificado tanto no contexto da jornada de trabalho reduzida, quanto na realidade do trabalho em casa. No primeiro caso, tem-se que o número de horas trabalhadas pelos funcionários presenciais, muitas vezes, não é suficiente para cobrir a demanda de tarefas, sendo necessário levarem trabalho para casa, ou aumentar um pouco mais o seu expediente. A segunda situação de trabalho requer uma autodisciplina dos colaboradores que trabalham com base nos resultados.

A terceira dimensão, intitulada “uso e desenvolvimento das capacidades profissionais”, foi vista de forma positiva em todas as variáveis. Os tutores julgam o seu trabalho relevante para a vida das pessoas; de modo geral, afirmam que a flexibilidade favorece a autonomia, além de utilizarem um grande leque de capacidades e habilidades profissionais em seus processos. Com base nisso, pode-se afirmar que a distância entre os colabores e a chefia não interfere no processo de desenvolvimento das capacidades profissionais dos tutores.

A quarta dimensão, de nome “interação social na organização”, foi avaliada de modo positivo. Primeiramente, a igualdade de oportunidade não foi apontada como um problema que possa ser interferido pela distância física entre chefia e tutor. Essa dimensão também transpareceu a necessidade de um contato físico mais freqüente com os colegas de trabalho para aprimorar o desenvolvimento das atividades e melhorar o relacionamento na organização.

A quinta e última dimensão, abordada na qualidade de vida, é o “constitucionalismo”. Nesse ponto, concluiu-se que a privacidade é presente nas duas formas de trabalho flexível analisadas. Além disso, a SEDIS proporciona liberdade aos tutores para expressarem suas idéias sempre que acharem necessário. A distância física não impede que esse relacionamento aconteça, uma vez que essas idéias geralmente são dadas via Moodle.

Outra característica no trabalho dos tutores, referente ao constitucionalismo, é a dinamicidade, tendo em vista que a monotonia no cotidiano não foi citada na maioria dos discursos. Em geral, essa dimensão foi avaliada de modo a favorecer a qualidade de vida dos trabalhadores.

No que se refere ao equilíbrio trabalho-família, analisaram-se duas dimensões apresentadas no modelo de Paschoal, Tamayo e Barham (2002): Interferência do trabalho na família e a Interferência da família no trabalho.

A primeira demonstrou resultados positivos, pois em praticamente todas as questões obtiveram-se resultados distribuídos pelos níveis intermediários da escala de freqüência. Em resumo, os tutores mostraram-se dispostos a resolver problemas familiares, mesmo depois de um dia de trabalho; geralmente, permanecem bem humorados em casa mesmo em meio aos acontecimentos profissionais; algumas vezes se vêem impossibilitados de realizarem as tarefas domésticas em decorrência do cansaço; poucas vezes atrapalham-se nas responsabilidades familiares pensando no trabalho; em algumas ocasiões, atrasam-se nos compromissos familiares por conta do trabalho; por fim, às vezes os compromissos profissionais os fazem mudar de planos com suas respectivas famílias. Assim a interação do trabalho na família é uma relação equilibrada.

A segunda dimensão do referido modelo denominada “interação da família no trabalho” foi caracterizada por pontos positivos e negativos. Em primeiro lugar, os tutores praticamente nunca saem ao trabalho de mau-humor por questões referentes à família; raramente mudam de planos no trabalho em prol de compromissos pessoais; os problemas familiares dificilmente interferem na vida profissional; por fim, nunca perdem a concentração no trabalho em decorrência de complicações vivenciadas em casa. Esses dados demonstram a existência de um bom equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional dos tutores.

Porém observou-se também que mesmo com a flexibilidade na jornada trabalhada, a maioria dos tutores praticamente nunca sai do trabalho mais cedo para atender a compromissos em suas residências; raramente se dispõem a chegar atrasados para o trabalho em decorrência de responsabilidades pessoais; e quase nunca perdem um dia de trabalho resolvendo problemas familiares. Com isso, percebe-se, mais uma vez, que a flexibilidade na jornada desses colaboradores é dada principalmente com base nos alunos e não nas suas necessidades pessoais.

Os resultados alusivos à relação entre as variáveis da flexibilidade com a qualidade de vida, o equilíbrio trabalhoifamília e a produtividade, foi resumido na figura 3, a fim de facilitar a visualização dos dados.

Figura 3 i Resumo das relações entre Flexibilidade e: produtividade, QVT e equilíbrioitrabalho família Fonte: Dados da pesquisa

A relação entre jornada flexível de trabalho e produção foi realizada de modo descritivo e sob a perspectiva dos colaboradores. Esses profissionais em sua grande maioria afirmam que a flexibilidade é um fator que pode influenciar positivamente a produtividade.

Para verificar a relação de dependência entre a flexibilidade e a QVT, foi necessário reduzir o modelo a cinco fatores por meio da aplicação da análise fatorial. O comportamento das questões dentro de cada fator foi semelhante ao esperado. Além disso, os índices de

confiabilidade e de explicação dos dados, em geral, foram favoráveis, o que dá credibilidade a pesquisa.

Com base nesses fatores, a análise de regressão demonstrou que o trabalho em casa contribui positivamente para a qualidade de vida no fator constitucionalismo e capacidades pessoais. Esse fator foi composto pelos seguintes critérios: variedade de habilidade, privacidade e liberdade de expressão. Assim, todos eles são favorecidos no exercício do trabalho em casa.

Já a liberdade para realizar a mudança de turno prejudica a QVT no mesmo fator, constitucionalismo e capacidades pessoais. Essa troca de horários é um atributo presente na jornada dos tutores presenciais. A influência negativa provocada pela variável, provavelmente, é dada por atingir diretamente o critério “privacidade”, pertencente ao referido fator, tendo em vista que a mudança de turno pode prejudicar a liberdade do tutor quando o mesmo não se sente à vontade para desenvolver suas atividades em um ambiente diferente do usual.

No tocante ao equilíbrio trabalho família, foi necessário reduzir o modelo para simplificação no processamento dos dados. Esse procedimento foi realizado por meio da análise fatorial, na qual se detectou a presença de quatro fatores, dois a mais que o esperado.

Ao aplicar a técnica de regressão múltipla entre as variáveis da flexibilidade e do equilíbrio trabalhoifamília não foi encontrada relação significativa. Nesse ponto, vale salientar que alguns críticos da flexibilidade afirmam que a jornada flexível, em especial, o trabalho em casa, pode provocar um desequilíbrio nas relações familiares, tendo em vista que as pessoas que antes estariam em casa para desfrutar de tempo livre com a família, agora estariam trabalhando. Porém, os dados demonstraram que na realidade dos tutores da SEDIS, essa crítica não se aplica, tendo em vista que não foi detectada influência direta entre a flexibilidade e os fatores do modelo trabalhoifamília. Desse modo, o referido equilíbrio está mais ligado à autodisciplina de cada indivíduo em casa e no trabalho, do que a flexibilidade na jornada trabalhada.

Por fim, concluiise que os objetivos propostos na parte inicial do estudo foram alcançados. Os tipos de flexibilidade utilizados pelos tutores foram identificados, caracterizados e comparados; a extensão da jornada de trabalho foi quantificada; a produtividade, a QVT e o equilíbrio trabalhoifamília, foram caracterizados de modo a verificar as relações existentes com a flexibilidade. Assim, podeise afirmar que há influência

da jornada de trabalho flexível no desenvolvimento das atividades dos tutores da Secretaria de Educação à Distância da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

No que se refere às limitações da pesquisa, temise os dados referentes à produtividade, uma vez que retrataram apenas a visão do colaborador. Esse procedimento foi tomado devido a dificuldade de mensurar a produção em atividades de serviços, e em especial, no serviço da EaD, por ser um processo que, para ser avaliado requer envolvimento tanto dos docentes, quanto discentes envolvidos nas atividades da SEDIS.

Como trabalhos futuros, sugeremise a aplicação da pesquisa em outras organizações que fazem uso de jornadas flexíveis de trabalho. O instrumento que avaliou a qualidade de vida, em especial, carece de validação, uma vez que consiste na adaptação de um outro modelo de QVT baseada em indicadores da flexibilidade. Recomendaise ainda que o instrumento seja aplicado em amostras maiores, a fim de que seja retirado o menor número de variáveis possíveis.

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