Acredito que o motivo pelo qual Beirão e Codri apresentavam essa predileção pelo discurso é bastante evidente: sua formação anterior. Se o performador atômico apresenta procedimentos particulares de criação graças à sua identidade criativa individual, é natural que tais procedimentos sejam fortemente influenciados pelos processos de formação educacional de cada um. Minha visão particular sobre o núcleo de Beirão é a de que ele seria um "corpo que devaneia". Já sobre o núcleo de Ribeiro eu diria que ela seria um "corpo que escreve". Tanto a formação de Beirão quanto a de Ribeiro sempre envolveram bastante leitura conforme relato dos próprios performadores. Em minhas anotações do dia 18 de janeiro de 2012, dia em que o coletivo de performadores reuniu-se para “fazer um balanço” do processo de criação e da resultante alcançada (Reatividade Atômica foi realizada no dia 03 de
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100 dezembro de 2011), descrevi Beirão como “bastante culto” e Ribeiro como “estudiosa, sua pincelada é um banho de tinta”, referindo-me ao fato de que qualquer pequena explanação de Ribeiro trazia uma carga pesada de informações e reflexões. Além disso, nenhum dos dois havia experimentado um processo criativo em que o corpo era matéria privilegiada e fundante, ao contrário de Codri e eu, artistas que estiveram envolvidos anteriormente em processos criativos intensamente corporais. Com o intuito de “abrir as portas” para que os corpos de Beirão e Ribeiro adentrassem definitivamente o processo, propus um atividade que intitulei de “trabalho com os elementos”. A seguir, transcrevo de meu caderno de anotações o primeiro roteiro que construí para este trabalho, datado do dia 13 de setembro de 2011:
1) Ao chegar, todos deitados. 2) Corpo pesado.
3) Anaxímenes: o “ar” expandido torna-se “fogo” e condensado torna-se gradativamente “água”, “terra” e “ pedra”.
4) Trabalho a partir da coluna.
5) Entre o umbigo e o sexo – núcleo, centro de radiação energética.
6) “Pedra” (chão) → “terra” → “água” → “ar” (de pé) → “fogo” → “carne” 7) Roda
- Discurso → solução → âmbito individual
- Corpo → problematização → exercício de liberdade - Questões reverberarem na ação
Compromisso ético (BARCELLOS, 2011).
Eu conduzi o trabalho, enquanto os três outros performadores o desenvolveram praticamente. O trabalho consistiu basicamente em, mantendo-se de olhos fechados, escutar e deixar-se influenciar livremente pelas imagens construídas verbalmente pelo condutor, permitindo que tais imagens gerem modificações diversas nos movimentos corporais. Neste trabalho conciliei uma imagem contemporânea da constituição da matéria, a do átomo moderno (núcleo e eletrosfera), com uma imagem antiga da constituição da matéria, proposta pelo filósofo jônico Anaxímenes, que viveu na Grécia do século V a.C. Os jônicos, orientados pela indagação cosmológica de origem da physis, ou natureza, acreditavam que esta era composta de arché, ou princípio, e este princípio constituia a origem e fim último de todas as coisas (ROCHA, 2006). Optei por trabalhar com Anaxímenes pois ele acreditava que o
101 princípio era o ar, que expandido tornava-se fogo e condensado tornava-se, gradativamente, água, pedra e terra. A perspectiva de transformação e interconversão proposta por Anaxímenes parecia-me condizente com os princípios de trabalho do processo de criação em cadeia. Eu poderia, obviamente, trabalhar com a ideia de transformação a partir dos elementos modernos (aqueles contidos na Tebela Periódica de Elementos), pesquisa na qual invisto atualmente. Entretanto, acreditava serem os cinco elementos antigos mais maleáveis e viáveis no âmbito de um trabalho introdutório do que os mais de duzentos elementos modernos. Além disso, entendi que o estabelecimento de associações entre imagem e corpo seria mais imediato com os cinco elementos do que com os elementos modernos.
A condução do trabalho foi desenvolvida seguindo o seguinte roteiro de instruções feitas pelo condutor aos performadores atômicos envolvidos:
1. Você é um performador atômico;
2. Como tal, sua trabalho dá-se no e pelo corpo;
3. Na sua região pélvica, localiza-se seu NÚCLEO, centro radiador de energia; 4. Todo o resto do corpo constitui sua ELETROSFERA;
5. A energia flui para a eletrosfera pela coluna e a partir daí nasce o movimento; 6. A coluna varia sua “elementariedade” entre pedra, terra, água, ar e fogo;
7. Após a elementariedade do fogo, a coluna volta a ser de carne e osso (BARCELLOS, 2011).
Tal roteiro foi transcrito de meu caderno de anotações e é datado do dia 27 de setembro de 2011. É importante observar que, se nos capítulos 1 e 2 utilizei a noção de núcleo e eletrosfera de forma a elaborar uma base teórica conceitual para o performador atômico e o processo de criação em cadeia, no trabalho com os elementos utilizei tais noções para promover a aproximação entre o corpo dos performadores e sua condição atômica. O efeito de cada imagem sobre o corpo foi diverso e cada performador atômico demonstrou-se mais confortável ou desconfortável em diferentes imagens. No quadro abaixo, elaborado a partir das minhas anotações do dia 13 de setembro de 2011, apresento relações entre os elementos e as imagens a eles atreladas, além dos efeitos observados nos corpos dos performadores especificamente para o trabalho daquele dia.
102 Elemento Imagens e efeitos corporais observados nos
performadores atômicos Pedra Coluna pedra Rocha Montanha Duro
Grande esforço para mover um dedo Torções
Contrações Musculatura enrijecida Expressão facial contraída
Dificuldade de movimentação pelo espaço
Terra Coluna terra Terra molhada Terra vermelha Terra preta Terra seca Pastoso Mole
Maior maleabilidade do corpo
Água
Coluna água
Grande maleabilidade do corpo Articulação Ondulações Suspensões Torções Saltos Choques
Grande movimentação pelo espaço
Quadro 3- Relação entre os elementos pedra, terra e água e as imagens e efeitos corporais observados nos performadores atômicos no trabalho do dia 13 de setembro de 2011. Os performadores atômicos
103 No trabalho com as imagens “pedra” e “terra” percebi uma gradativa evolução de Beirão e Ribeiro na percepção do trabalho de irradiação energética tendo como núcleo irradiador a região pélvica, resultando na movimentação a partir da coluna. Codri respondeu praticamente de forma imediata a esse trabalho, porém demonstrou receio em entregar-se profundamente. Observei ainda que tais imagens proporcionaram um alto grau de segurança aos performadores atômicos, pois se relacionam diretamente com a firmeza do chão. Outra observação interessante foi o surgimento de sonoridades na forma de gemidos, cantos e suspiros concomitantes à movimentação dos performadores. Em seguida, conduzi o trabalho com a água de maneira que a intensidade da imagem variasse conforme a seguinte sequência:
RIACHO à RIO à CHUVA à TEMPESTADE à TORMENTA à TSUNAMI
A movimentação dos performadores em “tsunami” foi bastante maior e mais intensa do que em “riacho”. A partir de “tsunami” a maior dificuldade enfrentada pelos performadores foi abandonar a imagem de destruição, a qual havia contaminado seus corpos, para construir uma nova imagem de “brisa” e deixá-la contaminar seu corpo. Nesse momento, Ribeiro não conseguiu abandonar a imagem de destruição que havia construído através de “tsunami”, Beirão manteve-se em “tsunami” movimentando-se descontroladamente pela sala e Codri abandonou o trabalho por ter alcançado a exaustão física. Em seguida, entendi ser pertinente finalizar o trabalho sem desenvolver as imagens “ar” e “fogo”, pois acreditava que os outros performadores também estariam exaustos.
O trabalho com os elementos foi transformador para os performadores conforme seus próprios relatos, particularmente os de Ribeiro, datados de 27 de setembro de 2011, extraídos de seu material de anotações:
É preciso ter mais consciência dos movimentos. Na premissa de que o movimento nasce da cintura. Às vezes durante a formação das imagens esquecemos disso e o trabalho torna-se periférico. (...) O Fernando disse uma coisa deveras legal sobre como o corpo continua o movimento quando sustentado por uma imagem! Às vezes a vontade não sustenta, mas a imagem sim (RIBEIRO, 2011).
O trabalho dos elementos foi realizado outra vez por nós, no dia 27 de setembro de 2011, uma ação que hoje considero ter sido desnecessária. O primeiro trabalho, realizado no dia 13 de setembro de 2011, foi transformador para todos os performadores, inclusive para
104 nossa relação de trabalho coletiva, que tornou-se mais íntima, colaborativa e generosa. Ao realizar o trabalho novamente Codri optou por filmá-lo ao invés de desenvolvê-lo praticamente e eu, além de conduzir o trabalho de maneira mais interventiva, reproduzi uma seleção de músicas que havia selecionado para cada elemento. A excessiva inserção destes elementos novos atrapalhou bastante a concentração dos performadores no princípio essencial do trabalho, isto é, a relação entre imagem e corpo, confome relato dos próprios performadores. Ainda assim, o trabalho com os elementos reverberou nas materialidades coletivas propostas nas etapas seguintes, nas quais o trabalho no e pelo corpo destacou-se.