Dennett trabalhou a questão da consciência em uma perspectiva deflacionária (TEIXEIRA, 2000, p. 160), considerando um mito a noção do teatro cartesiano – um intérprete central que daria ordem ao fluxo de consciência – o contrapondo ao seu modelo de múltiplas camadas (multiple drafts model). Para Teixeira
de acordo com esse modelo, nosso cérebro seria quase como uma máquina híbrida ou de arquitetura computacional mista: várias máquinas paralelas acopladas a uma máquina serial. Contudo, essa última seria uma máquina virtual produzida pela própria ação desse paralelismo massivo (TEIXEIRA, 2000, p. 161).
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Não há espaço para o homúnculo (espectador no teatro cartesiano) e o próprio Dennett (DENNETT, 1991, p. 106) afirmou que o exorcismo do fantasma na máquina não deixa nenhum papel para algum tipo de centro funcional do cérebro. De acordo com o modelo de múltiplas camadas, o cérebro opera um processo paralelo e multifário de interpretação e elaboração dos dados sensoriais. Esse processo assemelha-se a um procedimento de revisão editorial, ao final do qual escolhe-se a versão final que irá a público. O conjunto de camadas, processadas por circuitos especializados do cérebro, cria uma máquina joyceana (DENNETT, 1991, p. 228). Interessante observar que Dennett afirma que os circuitos cerebrais se tornam especializados “graças a uma família de hábitos, inculcados parte pela cultura e parte por auto-exploração individual” (DENNETT, 1991, p. 228)104.
A concepção de Dennett rompe profundamente com a noção de sujeito como individual e impermeável e se abre para a perspectiva do ego como o resultado da atuação e interação de circuitos (agentes) autônomos – o “eu” vira “nós”105. A consciência é um processo múltiplo, heterogêneo, distribuído, cooperativo/competitivo e autopoiético. Os micro-módulos dos circuitos cerebrais especializados juntam-se em uma rede cognitiva. Se a pessoa pensa, é “porque uma megarrede cosmopolita pensa dentro dela, cidades e neurônios, escola pública e neurotransmissores, sistemas de signos e reflexos” (LÉVY, 1993, p. 173).
O que costumava ser visto como um movimento para dentro – a construção da subjetividade e a emergência do pensamento em algum palco no interior do cérebro – passa a ser visto como um movimento para fora – uma gradual propagação de propriedades funcionais organizadas através de um conjunto maleável de mídia. O uso do termo mídia, quando se deveria esperar algo como substrato orgânico-cerebral é proposital. A noção de movimento para fora, implícita à concepção dennettiana, conforme argumentado anteriormente, pode estar no centro explicativo da pré-disposição natural do ser humano a se relacionar com artefatos.
Outra possibilidade que se infere do modelo de múltiplas camadas é a sua independência em relação às bases materiais do pensamento. Ao propor a decomposição dos processos cognitivos superiores em sistemas menores, o modelo implicitamente assume que
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thanks to a family of habits inculcated partly by culture and partly by individual self-exploration, tradução do autor.
105
Hayles (1999, p. 211) remete essa concepção à noção budista de que a idéia de que uma pessoa tem de ser eu é sustentada por meio de um monólogo interno, que nada mais é do que a estória que o ego conta para se assegurar de sua própria existência. Outro autor, Lecourt (LECOURT, 2005, p. 104), afirma que “o que chamamos de nossa ‘individualidade’ – desde que Diderot criou essa palavra [em francês] – nosso ‘si mesmo’, nosso ‘ego’ ... não passa nunca de uma construção singular, e sempre precária. Um ser humano – por ser humano – pode ‘se quebrar’. E todos nós conhecemos ‘mortos-vivos’ que não são mais do que os fantasmas de si próprios”.
não importa de que é feito o sistema, mas o que ele faz106. Portanto, um mesmo processo mental poderia ocorrer tanto em um chip quanto em um neurônio. Ou em um agente inteligente. Na visão de Clark (CLARK, 2003, p. 138), que compartilha o modelo de consciência de Dennett, o self é uma coalizão de processos, sendo alguns neurais, alguns corporais e alguns tecnológicos.
Os agentes inteligentes podem ser mais uma camada (draft). A visão orgânica, linear e mecanicista do ser humano cede lugar à uma perspectiva acêntrica e rizomática – aliás, a mesma perspectiva que se aplica às novas tecnologias de informação e comunicação. Estaríamos diante de novas subjetividades máquinicas107, capazes de operar com a
temporalidade introduzida pelos microprocessadores e de manipular quantidades enormes de dados. Santaella alerta que
na medida em que sistemas cibernéticos vão se integrando a sistemas psíquicos, na medida em que redes neurais artificiais vão se ligando a redes neurais biológicas, é um conjunto cognitivo inaudito que se configura, é a dimensão do cérebro e mente que se move na direção de uma cultura bioeletrônica (SANTAELLA, 1996, p. 204). Os agentes inteligentes, como uma camada, convivem na rede instável e randômica dos fluxos de pensamento, podendo, de quando em quando, aspirar aos seus 15 minutos de fama108. Nesses momentos de celebridade, os agentes inteligentes adquirem saliência e se inserem na sucessão do pensamento consciente, não interferindo com a sensação de coerência experimentada pelo ego.
Santaella nos traz a interrogação sobre o “que acontece dentro da mente quando uma parte mecânica exótica, refletindo um sistema tecnológico invisível, inteiramente estranho a todos os processos precedentes do corpo, junta-se (seja de modo integrado, seja como apêndice) ao corpo” (SANTAELLA, 2003, p. 227). A autora remete parte de sua resposta ao processo evolutivo da espécie, ao longo do qual viria ocorrendo uma gradual fusão do corpo aos artefatos, uma condição ontológica do sistema nervoso central do Homo
sapiens que o levou, irresistivelmente, a “habitar a biosfera nos interstícios dos signos e da
sua resultante direta, a cultura” (SANTAELLA, 2003, p. 211). A autora argumenta, ainda, que há várias possibilidades de descorporificação, recorporificação e novas expansões não carnais da mente, formando-se o sujeito da virtualidade como produção das interfaces dinâmicas com o computador. Outra parte de sua resposta nos remete à noção de sujeito freudiano (o sujeito
106
Em uma interpretação francamente funcionalista da obra de Dennett. 107
Conforme GUATTARI, 2004, p. 189. 108
Teixeira (TEIXEIRA, 2003, p. 161) lembra que Dennett nos diz que a consciência é similar à fama, aludindo à frase famosa de Andy Warhol de que cada ser humano teria o direito a ser famoso por quinze minutos.
descentrado do inconsciente) – um ego subvertido e disperso pelo espaço social. Na performance do pensamento, “ser humano e máquina estão tão interligados que a natureza de cada um não é mais discernível” (SANTAELLA, 2004, p. 129).
Land (2001) chama a atenção para o fato de que o modelo de consciência de Dennett aplaca suas verves libertárias por configurar um indeterminismo endógeno. A cada instante, o cérebro geraria aleatoriamente uma variedade imensa de possibilidades de ação, diante da qual se daria a decisão. Essa seria, para Dennett, o momento privilegiado de nascimento do pensamento: “o pensamento começa no que pode ser apropriadamente chamado de uma encruzilhada [forked-road situation], uma situação ambígua, que apresenta um dilema, o qual propõe alternativas” (DENNETT, 1991, p. 11). Tomar uma decisão é fazer uma seleção naquela variegada produção cerebral.
É a partir dessa noção que Dennett tenta compreender a consciência como um espaço semântico. Em princípio, o cérebro e suas produções aleatórias (camadas) é um engenho puramente sintático (manipulador de signos). Como órgão físico, reage a alterações de ordem física (estímulos), obedecendo propriedades estruturais e formais. A extração da consciência (semântica) de um substrato puramente sintático seria como distinguir entre um comportamento ditado pela razão ou movido pela razão109.
A perspectiva dos agentes inteligentes como uma das camadas no modelo de consciência de Dennett harmoniza-se com os pressupostos de sua teoria cognitiva: a percepção é maior do que a experiência; o conteúdo da experiência singular inclui tudo o que entre pelos órgãos sensoriais e chegue à memória; a experiência, a qualquer momento, transcende a capacidade verbal-descritiva do sujeito; a experiência transcende o foco de atenção do sujeito110.