4. ANALYSIS OF EMPIRICAL FINDINGS
4.6 THE ACCESS TO AND TRANSFER OF KNOWLEDGE BETWEEN HQ AND
4.6.3 E XPERIENCES WITH TRANSFER OF KNOWLEDGE
Refletiremos sobre o espaço que a ressignificação pode ocupar nas análises da adaptação fílmica, afinal, o filme surge como forma de enriquecimento da obra literária, pois tanto a retoma, valorizando-a, quanto a ela atribui nova significação.
O conceito de ressignificação refere-se ao método utilizado em neurolinguística para fazer com que pessoas possam atribuir novo significado a acontecimentos através da mudança de sua visão de mundo. O significado de todo acontecimento depende do filtro pelo qual o vemos. Quando mudamos o filtro, mudamos o significado do acontecimento, e a isso se chama ressignificar, ou seja, modificar o filtro pelo qual uma pessoa percebe os acontecimentos a fim de alterar o significado desse acontecimento. A ressignificação está
presente em muitas fábulas – podemos citar, como exemplo, Pinocchio –, tornando-se,
portanto, um elemento chave para o processo criativo.
Aproximando tal conceito aos Estudos de Tradução, apoiar-nos-emos na hipótese de base da teoria da tradução de Lotman, para o qual uma das funções do texto artístico é a de produzir novos significados.
Para Lotman (1982, p. 32), a arte é um gerador bem organizado de linguagens de um tipo particular. Dessa forma, as obras de arte, ou seja, as comunicações nessa linguagem podem ser consideradas um texto pelo autor e esse texto é, antes de tudo, um espaço semiótico, no qual as linguagens interagem e se organizam hierarquicamente, mas é, também, considerado, na sua potencialidade, um gerador de sentido, que tem necessidade de uma relação dialógica para colocar-se em movimento.
Lotman trata a arte como linguagem já que essa linguagem utiliza signos a fim de resultar em uma interação entre emissor/receptor. Todo sistema que serve para fins de comunicação entre dois ou mais indivíduos pode ser definido como linguagem, são eles: a linguagem do cinema, a linguagem do teatro, a linguagem da pintura, a linguagem da música.
Quando essas linguagens constituem-se em traduções, é importante que o significado gerado por elas seja considerado a partir da construção do texto artístico. Além disso, deve-se analisar a sua construção interna, as infinitas interpretações que o autor apresenta no conteúdo do seu texto, a intertextualidade e as relações semânticas. Todos esses aspectos serão componentes essenciais para que esse significado seja produzido de novas formas, com novos olhares, em particular, observado e analisado pela interpretação do público receptor.
Nessa ótica, Lotman vai levantar questões sobre o problema da significação do texto artístico, ou seja, como se organiza o texto artístico em sua construção interna, acima de tudo sintagmática, a fim de descobrir quais são suas relações semânticas com os fenômenos externos respeito a ele.
―O problema do significado é um dos problemas essenciais de todas as ciências do ciclo semiótico. Definitivamente, a finalidade que persegue o estudo de qualquer sistema de signos é a determinação do seu conteúdo. Isso é fácil de ser percebido de modo particularmente agudo pelo investigador de sistemas modeladores secundários: o estudo da cultura, da arte, da literatura como sistemas de signos separadamente do problema do conteúdo perde todo sentido. Sem dúvidas, é impossível não ver que, precisamente, o problema do conteúdo – senão nos contentamos somente com noções puramente intuitivas do significado – é o mais difícil de analisar‖141. (LOTMAN, 1982, p. 50)
Decerto, a complexidade do problema reside, em grande parte, no próprio conceito de que a equivalência nos sistemas modeladores secundários do texto de tipo artístico tem uma natureza distinta das estruturas de tipo primário, linguístico. Por conseguinte, a equivalência das unidades semânticas do texto artístico realiza-se por uma via distinta. A base que a constitui é o confronto de unidades lexicais, ou outras unidades semânticas, que, ao nível da estrutura primária (linguística), podem não ser equivalentes. Deste modo, cria-se uma estrutura semântica particular do texto artístico dado. (LOTMAN, 1982, p.63)
Nessa perspectiva, Lotman envereda pela teoria da ressemantização do texto artístico, um complexo de significados criado pela estrutura artística propriamente dita, como o texto fílmico, que estabelece uma relação semântica própria com o receptor desse texto, na produção de novos significados.
141 El problema del significado es uno de los problemas esenciales de todas las ciencias del ciclo semiótico. Em definitiva, la finalidad que persigue el estudio de cualquier sistema de signos es la determinación de su contenido. Esto lo percibe de un modo particularmente agudo el investigador de sistemas modelizadores secundarios: el estudio de la cultura, del arte, de la literatura como sistemas de signos separadamente del problema del contenido – si no nos contentamos solamente con nociones puramente intuitivas de los significados – es el más difícil de analizar.
Defendemos que a ressignificação é o novo olhar dado a uma tradução, no caso a adaptação fílmica, de um material já conhecido antes, que seria a obra literária, e esse novo olhar trará um novo significado aquilo que já era de conhecimento comum, consequência da interpretação feita pelas adaptações fílmicas. A ressignificação acontece porque a adaptação fílmica pode trazer um novo sentido ao texto de partida, um texto já conhecido pelo público, sendo enriquecido por novos elementos semióticos trazidos pelo texto de chegada, o filme.
O filme tem a sua própria linguagem e, portanto, fazer um filme envolve escolher as imagens precisas que se necessita para contar a história, especialmente, sendo essa história inspirada em uma obra literária. Tais escolhas podem fazer com que o roteirista crie uma ressignificação do livro, ou de elementos substanciais da narrativa como determinados personagens ou as características dos mesmos, mudanças no espaço e no tempo da narrativa, a modernização de um clássico, enfim, são muitos os elementos que podem dialogar com o espectador do filme, quiçá, também, leitor da obra literária.
Esse diálogo, de fato, gera uma forte identidade entre os códigos do texto de partida e do texto de chegada. Essa identidade ocorre porque são dois textos intercambiáveis nas suas significações, contudo tratam dessas significações em dois signos distintos com as suas respectivas linguagens, gerando, ao ser traduzido, ressignificações.
Peirce (1893) define esse processo intersemiótico de tradução de um signo a outro não como um simples reenvio, mas sim, como um contínuo engrandecimento de sentido. É nesse ponto que queremos nos deter. Perceber que a tradução pode causar um impacto de ressignificação no primeiro texto, trazendo novos elementos de enriquecimento para a própria cultura de chegada. Isso é possível mesmo em se tratando de textos considerados canônicos, com significações bastante estabelecidas na cultura de partida.
A ressignificação acontece porque o cinema é dialógico. Qualquer filme traz referências, mesmo que de forma indireta, a situações cotidianas, a outros filmes, a outros livros. O significado que um filme, em particular, tem para um público é determinado por sua relação com o contexto, perpetramos a leitura desse filme pelas associações, conscientes ou não, que fazemos. Quando esse filme é construído inspirado em uma fonte literária, a recepção desse filme será cheia de significações já consolidadas pelo leitor do texto literário. Esse leitor tomará o texto de partida como referência, traçando as relações intertextuais de ressignificação.
Eco (1994), por sua vez, percebe que se trata de um fecundo princípio de interpretação quando afirma que a tradução de um signo (expressão) numa outra expressão é fruto de um processo de interpretação:
Não há maneira, no processo de semiose ilimitada que Peirce descreve e cujos fundamentos lança, de estabelecer o significado de uma expressão, ist o é, de interpretar essa expressão, senão traduzindo-a em outros signos (pertençam eles ou não ao mesmo sistema semiótico) e de modo que o interpretante não só dê conta do interpretado sob algum aspecto, mas faça conhecer alguma coisa mais do interpretado. (ECO, 1991, p. 111)
De fato, esse algo a mais pode ser apresentado pelo signo fílmico, tendo o signo literário como inspiração para que nasça uma nova narrativa, com novas direções e novas significações, gerando, dessa forma, a ressignificação. A tradução intersemiótica, como qualquer outra tradução, tem a função de explicitar o implícito, sempre através de limitações e vantagens que são próprias da sua expressividade. De fato, é impossível que haja uma semelhança total entre obra literária e adaptação fílmica, todavia essa adaptação trará algo novo, pois ela é uma obra de interpretação, gerando, numa consequência natural, um novo texto.