5. ESTRATEGIAS DE MARKETING
5.3. E STRATEGIA FUNCIONAL
Historicamente, o termo subjetividade esteve elencado no quadro fenomenológico da produção teórico-acadêmica. Nessa instância, ele apresenta-se como estrutura que filtra e individualiza o pensar e agir do sujeito, deslocado dos processos vividos, como uma apreensão idealizada do mundo no eu. Pensada nesse campo, a subjetividade é dotada de liberdade, é individualizada, desadesivada do contexto em que o sujeito vive. Criada independente, absoluta, retorna ao mundo externo apenas para preencher-se, estruturar-se (GALLO, 2009).
Aita e Facci (2011, p. 34) também analisam que a subjetividade foi, e ainda é, compreendida por alguns grupos, desvinculada das condições históricas, a partir de ocorrências universalistas, ―[...] pautadas, muitas vezes, apenas na maturação biológica, não dando conta de explicar o homem concreto, síntese das relações sociais, como propõe uma visão marxista‖.
Atualmente, filiados à Psicologia Social, os estudos sobre subjetividade transpõem a dimensão idealista, transitando pela vertente sócio-histórica, que busca ―[...] uma Psicologia comprometida com a construção de uma sociedade justa e igualitária [...].‖ (BOCK; GONÇALVES, 2009, p. 7). Assim, a compreensão sobre a subjetividade – característica intrínseca do homem – atravessa o mundo da pseudoconcreticidade e se opõe a ele, assentando-se em um mundo concreto e histórico, capaz de dissolver as criações fetichizadas do mundo reificado e ideal. Um mundo onde a realidade é produzida pelos homens nas suas múltiplas e infinitas relações, o mundo da práxis humana (KOSIK, 2002). Nesse contexto, o mundo real não é
[...] um mundo de objetos ―reais‖ fixados, que sob o seu aspecto fetichizado levem uma existência transcendente como uma variante naturalisticamente entendida das ideias platônicas; ao invés, é um mundo em que as coisas, as relações e os significados são considerados como produtos do homem social, e o próprio homem se revela como sujeito real do mundo social (KOSIK, 2002, p. 23, grifos do autor).
As ações e representações produzidas nesse mundo real são constructos compreensivos sobre a realidade, que se redesenham na consciência do sujeito, compondo sua subjetividade. Trata-se, portanto, não de uma construção independente, livre, mas de algo tecido no seio da vida material humana. É a incorporação singular do homem coletivo no sujeito e a influência mediatizada do sujeito singular no homem coletivo (GRAMSCI, 2011).
No âmbito dos movimentos sociais e sindicais, tais ações e representações ganham contornos ainda mais delineados, dado que a participação dos sujeitos nesses movimentos tem um caráter educativo configurado em dimensões da organização e da cultura política (GOHN, 2005). Sob tais preceitos, programas e projetos educacionais formais ou não dos/para os sujeitos desses movimentos devem ter como balizadores de seus fundamentos e ações os princípios de tais movimentos. Tal afirmação, é claro, ganha caráter de verdade, somente, e tão somente, quando pensamos em programas e projetos que não tenham como finalidade a ―captura‖ da subjetividade dos sujeitos para a ―cooptação‖ desses movimentos. Que sejam constituídos de bases teórico-práticas que potencializem as ações dos sujeitos no mundo, através da apropriação crítica do conhecimento socialmente produzido.
Sob esse intento, o termo subjetividade dialetiza-se, ultrapassando teorias dualizadas de separação entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo, onde esse se forma
eminentemente no campo da abstração, através do método do pensamento que, como definido por Kosik (2002, p. 36-37),
[...] é um movimento que atua nos conceitos, no elemento da abstração. A ascensão do abstrato ao concreto não é uma passagem de um plano (sensível) para outro plano (racional); é um movimento no pensamento e do
pensamento. Para que o pensamento possa progredir do abstrato ao concreto, tem de mover-se no seu próprio elemento, isto é, no plano abstrato, que é a negação da imediatividade, da evidência e da concreticidade sensível. A ascensão do abstrato ao concreto é um movimento para o qual todo início é abstrato e cuja dialética consiste na superação desta abstratividade (grifos nossos).
Pela vertente dialética, a subjetividade forma-se na unidade dos mundos objetivo e subjetivo, com esses mundos referenciando-se, incluindo-se, sem, contudo, perder suas características intrínsecas, ou alguma delas se sobrepor às da outra, ou seja, em múltiplas determinações, em uma totalidade concreta. E, como consideram Aita e Facci (2011, p. 43),
compreender a subjetividade com base nessa lógica significa que não se
pode partir nem do mundo interno do indivíduo nem do mundo externo. É por essa via que a análise supera a lógica formal e encaminha para o entendimento da unidade dialética entre indivíduo e sociedade (grifos nossos).
Em tal perspectiva, não se tem um indivíduo que é empírico, mas concreto, que se constitui pelas relações que mantém com o outro e a natureza, através do seu trabalho, dado que
a essência humana não é abstrata e nem algo interior de cada indivíduo isolado, mas consiste no conjunto de relações sociais. Dessa forma, não é universal e desligada de existência, e sim, fundamentalmente, um produto
das relações sociais de produção, uma essência construída tomando-se por base uma existência prática (AITA; FACCI, 2011, p. 43, grifos nossos).
Assim, apreendemos a constituição da subjetividade a partir das relações produzidas pelo homem no mundo externo, material, concreto, pelas relações que ele estabelece com a natureza e com os outros homens, já que ―cada geração começa a sua vida em um mundo constituído de significados e de objetos construídos pelas gerações anteriores e
se apropria dessas objetivações por meio do trabalho‖, como analisam Aita e Facci (2011, p. 35), a partir dos estudos de Leontiev36.
Ao sorver-se dessa e nessa realidade, o homem vai individualizando as coletas da vida material, criando contornos próprios, redefinindo-as, subjetivando-as. Ao mesmo tempo, constrói-se como sujeito de um ou mais grupos, com os quais se identifica e onde se situa. Marca-se e é marcado, mesmo com sua singularidade, por uma classe a qual lhe oferta as vivências e experiências como sujeito social, e na qual deixa suas contribuições como homem. Incorpora-se singularmente como sujeito coletivo, antes já construído com sua colaboração (GRAMSCI, 2011).
Vigotsky37 (1988 apud AITA; FACCI, 2011, p. 36) ao estudar o desenvolvimento da linguagem humana – ao contrário do que muitos leituristas desse autor defendem –, apontou dois processos distintos do desenvolvimento humano: um biológico e outro histórico que, ontologicamente, não se separam, sendo que
[...] toda função psicológica superior aparece em dois planos: o primeiro de característica interpsíquica (nas atividades coletivas e sociais), para depois tornar-se intrapsíquica (com propriedades internas do pensamento), ou seja, aparece no plano externo e é internalizada.
Dessa forma, também para Vigotsky38 (1988 apud AITA; FACCI, 2011), as atividades coletivas materiais e sociais se constituem em fonte da formação do pensamento humano, tal como para Marx, que asseverava que a essência humana é formada pelas relações que o sujeito estabelece com o outro e a natureza, através do trabalho, transformando-os e transformando-se. Na sua VI Tese sobre Feuerbach, Marx (MARX; ENGELS, 2002, p. 101) escreve: ―Feuerbach converte a essência religiosa em essência humana. Mas a essência do
homem não é uma abstração inerente ao indivíduo isolado. Na sua realidade, ela é o conjunto
das relações sociais‖ (grifos nossos). Ao colocar a essência do homem como produto das
relações sociais, Marx a desloca do campo das ideias para fixá-la no campo da materialidade, onde os sujeitos se relacionam. Isto é, ―[...] o homem só se torna homem ao apropriar-se do mundo, e a constituição da sua subjetividade caminha desse ir e vir do mundo interno para o
36 LEONTIEV, A.N. O desenvolvimento do psiquismo. São Paulo: Centauro, 2004.
37 VIGOTSKY, L.S. Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar: In: LEONTIEV, A.N.; LURIA, A.R.; VIGOTSKY, L.S. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone; EDUSP, 1988.
mundo externo, numa relação dialética entre objetividade e subjetividade‖ (AITA; FACCI, 2011, p. 35).
Martins (2010, p. 8) analisa que
a compreensão da personalidade exige a compreensão da natureza essencial do homem. Determina a compreensão do movimento de seu desenvolvimento, que tem em sua base a atividade objetivada, isto é, o trabalho social. Ao produzir os seus meios de existência o homem se produz a si mesmo, dado determinante da seguinte constatação: nenhum homem, por
mais vasta que seja sua atividade, pode produzir individualmente tais meios e, consequentemente, a si próprio (grifos nossos).
Negar essa essência objetiva da subjetividade seria, na visão da autora (2010, p. 8), uma veneração à substância subjetiva fetichizada da sociedade burguesa, ao passo que ―[...] o tratamento dispensado à personalidade humana em sua essencialidade concreta determina a análise da dimensão ontológica do trabalho social‖.
Portanto, as subjetividades vão formando-se no movimento de internalização do trabalho social pelo sujeito, quando ele produz e se apropria da cultura e dos mediadores culturais, o que não se dá de maneira passiva, linear, receptora, visto que
a atividade mental humana sintetiza uma série de estruturas que não se encontram apoiadas em si mesmas, que não se instituem endogenamente, mas sim, por meio de auxílios externos, isto é, por meio dos processos requeridos na atividade social do sujeito. Por essa via se estrutura a mais complexa qualidade humana, representada pela consciência; dado que nos permite afirmar: a atividade engendra o desenvolvimento da consciência e
essa, por sua vez, a orienta e regula (MARTINS, 2010, p. 9, grifos nossos). Nesse processo, a transmissão de conhecimentos e de comunicação torna-se essencial, pois sem ela seria impossível a continuidade do processo histórico, visto que as gerações seguintes não teriam acesso ao desenvolvimento histórico-cultural da humanidade (AITA; FACCI, 2011).
Entendendo, portanto, que a constituição da subjetividade é um processo único para cada sujeito, e acontece à medida que este ―[...] internaliza, subjetiva as relações sociais que são externas a ele [mas que se constituíram, também, por sua ação], num processo dialético entre o interno e o externo‖ (AITA; FACCI, 2011, p. 43-44), é preciso sublinhar que, em um contexto sócio-histórico-cultural marcado pelas determinações do sistema do capital, a constituição da subjetividade humana é também marcada pelas características desse mundo material capitalista, já que
são as relações sociais de produção que promovem o desenvolvimento da subjetividade, e a sua formação atrela-se à historicidade dos fenômenos. A subjetividade, portanto, é constituída por fatores internos e externos, na qual a forma de o indivíduo se perceber está relacionada com o modo como os homens estabelecem as relações sociais em um contexto específico, decorrente de condições histórico-sociais (AITA; FACCI, 2011, p. 39, grifos nossos).
Ou seja, é preciso considerar que, pertencendo a uma sociedade orientada pelo sistema do capital, as particularidades dessa sociedade condicionam a construção da subjetividade de cada sujeito.
A subjetividade apresenta-se, então, como a singularização do social pelo sujeito, e, em cada tempo e espaço, sujeitos e grupos vão constituindo-se de formas diferentes, variadas, com peculiaridades próprias, mas também com muitos aspectos de cunho mais geral, pois vivenciam se não as mesmas realidades, outras muito próximas ou similares. Constituem- se assim a subjetividade do homem e a sociedade.
Partindo dessas premissas, podemos afirmar que a construção e o desenvolvimento da subjetividade estão intimamente ligados à base material, através de um processo que não se configura como uma simples reprodução do mundo externo. A construção das lentes pelas quais o homem vê o mundo se dá a partir das suas formas concretas de vida. São construídas na existência material dos sujeitos, a partir de sua relação com a natureza e com o outro, isto é, através de seu trabalho.
Essas formas de produzir e pensar o mundo, circunferenciadas pela vida social e abauladas pelas características pessoais, é o que denominamos subjetividade. Cada sujeito vive e percebe o mundo a partir do âmago das relações sociais que estabelece com seus pares, de uma forma diferenciada que lhe é própria, singular. Assim, o homem é uno e coletivo; apresenta-se como resultado das múltiplas influências e possibilidades que recebe e troca com os seus pares e com o mundo. Tece um modo de vida determinado pelas condições materiais de existência, mas também imprime nesse modo o que lhe é pessoal, singular. Seu modo de ser constructo incide sobre esse mesmo mundo. Ele é unidade e particularidade ao mesmo tempo, pois a unidade não dissolve as características intrínsecas de suas partes. Ao se darem em unidade, essas particularidades, ao mesmo tempo em que se reforçam, unem-se e dão sustentação ao todo que é sempre diferente das partes.
A subjetividade humana, neste trabalho, é representada, portanto, pela junção indissociável do ―corpo‖ e da ―mente‖ – psiquismo humano –, constituindo a individualidade
social dos indivíduos. O psiquismo humano, segundo a primeira elaboração teórica de Freud, no início do século XX, é formado pelo inconsciente, pré-consciente e consciente39 (ALVES, 2011; BOOK. GONÇALVES, 2009 ; ORLANDI, 2012; BRANDÃO, 2012; AITA; FACCI, 2011; ALVES, 2010; NOGUEIRA, 2001; SILVA, 2005)40.
―A consciência, a pré-consciência e o inconsciente dizem respeito a modos de operação do psiquismo humano e formas de relações sociais de ordem simbólica diante do mundo exterior‖ (ALVES, 2011, p. 133). Nesse contexto, entendemos que essas instâncias do [...] psiquismo humano não são meras estruturas instintivas do indivíduo, como poderia supor o freudismo vulgar. Existe uma dialética entre a
natureza e a civilização, uma dinâmica biológica e, ao mesmo tempo, histórica que constitui a anatomia da personalidade humana. As categorias freudianas dizem respeito menos à natureza pura (pelo que poderíamos acusá-la de ―biologismo‖) e mais a uma segunda natureza, uma história cristalizada41 (ALVES, 2011, p. 132, grifos nossos).
De tal forma, podemos afirmar que essas instâncias possuem caráter intrinsecamente histórico, não se constituindo como substâncias, coisas, ou mesmo lugares. Elas são formadas por ―conteúdos‖, entretanto, não são esses conteúdos que os definem, mas sim o modo segundo o qual tais instâncias operam, impondo a esses conteúdos uma determinada forma (GARCIA-ROZA, 200442 apud ALVES, 2011).
Alves (2011, p. 134) apóia-se em Bloch (200543) para afirmar que o inconsciente é ―[...] o ‗não-mais-consciente‘, isto é, aquilo que caiu numa ‗camada profunda‘ da psique, ficando depositado, [...] numa espécie de ‗paisagem lunar da perda cerebral‘ passando a representar o resto esquecido da psique (e que nem por isso é menos importante)‖. Com isso, supera-se a ideia do inconsciente como o inverso da consciência, ou uma ―supraconsciência‖ ou ―sub-consciência‖, algo que encontra-se acima ou para além da consciência. O inconsciente é ―[...] uma instância a que a consciência já não tem acesso, mas que se revela a ela através do sonho, dos lapsos, dos jogos de palavras, dos atos falhos, etc‖ (ROUDINESCO;
39 Posteriormente, Freud passou a denominar três instâncias: id, ego e superego.
40 Não é pretensão deste trabalho abrir um amplo leque de discussão sobre as teorias que tratam do psiquismo humano, nem mesmo a freudiana. Buscamos apenas registrar alguns elementos que possam colaborar na apreensão dos mecanismos de ―captura‖ da subjetividade do trabalho vivo pelo sistema sociometabólico do capital.
41 O significado de cristalizada não se refere a algo estável, imutável, ao contrário, parte da concepção de que a História tem influências sobre o indivíduo, mas este tem a capacidade de operar sobre essa História, sendo esse um processo essencialmente dialético.
42 GARCIA-ROZA. L.A. Freud e o inconsciente. São Paulo: Zahar, 2004. 43 BLOCH, E. O princípio esperança. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.
PLON, 199844 apud ALVES, 2011, p. 135). Fundamentando-se na análise da práxis social de Lukács (197845), Alves (2011, p. 137) avalia que
[...] o inconsciente é uma categoria ontogenética do homem com um conteúdo radicalmente histórico. A instância do inconsciente surge da luta do homem contra a escassez e da luta pela existência do animal homem pelo trabalho, que tem lugar num mundo hostil.
Por contingências de sobrevivência, o indivíduo é levado a agir sem a clara consciência de seus atos, o que lhe possibilita conhecer apenas uma parte mínima das circunstâncias produzidas e vividas. Essa é uma condição sócio-ontológica da práxis social, na interpretação lukasiana, o fato de fundo que constitui o fundamento ontogenético do inconsciente humano, isto é, a ―incognoscibilidade do conjunto das circunstâncias‖, que não se esvai mesmo com o desenvolvimento civilizatório e o aperfeiçoamento da atividade do trabalho (ALVES, 2011).
Salienta Alves (2011, p. 138) que,
em sua dimensão filogenética, o inconsciente se constitui pelo ―desconhecido‖. É nas circunstâncias de uma sociedade de classe e sociedade mercantil complexa que o inconsciente se interverte na instância
mental do “estranhamento” ou do “objeto” que se tornou coisa [...]. O “desconhecido” se interverte naquilo que é levado a “ignorar”. Desse
modo, pode-se dizer que é o inconsciente que constitui, no plano da subjetivação, as formas-fetiche (grifos do autor e nossos).
O deslocamento do inconsciente do fronte do desconhecido para o do estranhamento, ou do que se ignora, não se atém a um simples processo de esquecimento. Antes, reflete o trabalho consensualizador da ideologia em torno do que se deve reconhecer ou não como legítimo, próprio, possível e aceitável. Leva, portanto, as marcas da ação ideológica do grupo hegemônico.
Como vimos afirmando neste trabalho, o Estado desenvolve mecanismos de multi-regulação sobre a sociedade de maneira a conformá-la aos projetos determinados pelo capital para a sua (re)produção. Dentre os vários mecanismos e estratégias postos em ação, especialmente após a década de 1970, a ―captura‖ da subjetividade dos sujeitos e a ―cooptação‖ de movimentos têm se firmado como estratégias potenciais a tal propósito:
44 ROUDINESCO, E.; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
45 LUKÁCS, G. As bases ontológicas da atividade e do pensamento do homem. In: Temas de Ciências Humanas. São Paulo: Livraria e Editora das Ciências Humanas, 1978.
refazer-se e consensualizar novos projetos para a produção de excedente da mais valia, desenvolvendo processos de acumulação flexível, no mundo do trabalho.
Por outro lado, é, também, pela característica material da construção da subjetividade que muitos grupos têm conseguido se mobilizar contra tais processos multi- regulatórios impetrados pelo Estado, organizando-se em movimentos de defesa dos seus interesses, nem sempre se entendendo como classe, como acontece com os chamados ―novos‖ movimentos sociais, mas, invariavelmente, demonstrando que, no âmago das lutas, o que encontra-se em disputa é controle hegemônico – e, portanto, social, político, econômico e ideológico – da sociedade por classes que são ou querem tornar-se hegemônicas.
No âmbito dessas disputas, formas de luta vão sendo tecidas contra ou a favor, ora de uma classe ora de outra. É também pela constante busca para tornar-se hegemônico que movimentos sociais e sindicais, em determinados momentos, defendem os trabalhadores e, em outros, apóiam a classe patronal, mostrando que a História continua em processo.
No que se refere especialmente a ―cooptação‖ dos movimentos, temos reconhecido no campo desses um gradual processo de transformismo tanto molecular quanto coletivo (GRAMSCI, 2002).
Além da ―cooptação‖ das lideranças dos movimentos, atraindo-os para ocuparem cargos na burocracia do Estado, está em desenvolvimento um silencioso processo de transformismo coletivo, anulando ou controlando as forças e possibilidades de se descarrilarem ações contra-hegemônicas por parte desses grupos e movimentos. Abrindo para a realização de parcerias e ações de colaboração e entendimento mútuo com o setor empresarial, como se a relação capital/trabalho não fosse, em sua essência, antagônica, tudo é realizado sob a aura da democracia e dos direitos sociais dos trabalhadores brasileiros.
2.3.2 O processo de acumulação flexível e suas implicações na (re)-(des)construção e