DEL II: MODELLERE INN ENDRINGER I NOK-MODELLEN
5 BAKGRUNN FOR ENDRINGER I NOK
6.1 E NERGIMARKEDET OG UTSLIPPSINTENSITET
Elegemos como objetos de análise os posts sobre aborto publicados no blog Blogueiras Feministas53 no decorrer do ano de 2012. O Blogueiras Feministas é voltado para
o ativismo feminista, abordando temas de importância fulcral para o movimento, além de assuntos diversos, como notícias e literatura, tendo como base uma perspectiva feminista.
A escolha do ano de 2012 justifica-se por ele ter sido palco do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 54 (ADPF 54) pelo Supremo Tribunal Federal, quando ficou decidido que é incompatível com a Constituição Federal a interpretação da interrupção da gravidez de feto anencéfalo como conduta tipificada nos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II do Código Penal.54 Com isso, a antecipação terapêutica do parto de feto
anencéfalo deixa de ser considerada um crime.
A campanha em torno do julgamento da ADPF 54 se desdobrou em várias esferas, com destaque para a Internet. Grupos com opiniões divergentes utilizaram a rede para a divulgação de suas posições, lançando campanhas no intuito de formatar a opinião pública com o que acreditavam ser o desfecho adequado para a questão. Esse tipo de ativismo tem sido amplamente discutido, já que a Internet representa uma camada fundamental das relações sociais, atravessando também as práticas políticas.
53 www.blogueirasfeministas.com.
54 O aborto é considerado como um ilícito penal, incluído dentre os crimes contra a pessoa. O Código Penal
Brasileiro dispõe que a “mulher que provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque” (art. 124, CP) está sujeita a pena de detenção de um a três anos; quem “provocar aborto, sem o consentimento da gestante” (art. 125, CP) está sujeito/a a pena de reclusão de três a dez anos; aquele/a que “provocar o aborto com o consentimento da gestante” (art. 126, CP) está sujeito/a a pena de reclusão de um a quatro anos. O artigo 128 versa (1) sobre o chamado aborto necessário, isentando de punição o aborto realizado por médico/a quando não há outro meio de salvar a vida da gestante (art. 128, I, CP); (2) sobre o denominado aborto sentimental, quando a gravidez é decorrente de estupro (art. 128, I, CP) (DOMINGUES, 2008).
64 A Internet possui uma dimensão política que está intimamente relacionada com o modo como a democracia se configura atualmente (CARDON, 2013; CHADWICK, 2006). Chadwick (2006) afirma que a politização gradativa da Internet tende a se intensificar. Com isso, a questão a ser colocada não diz respeito à presença da política na rede, mas sim à forma e às consequências desse fato (CHADWICK, 2006). Como a Internet altera profundamente o modo como as pessoas se comunicam, ela inaugura a possibilidade da comunicação de muitos
com muitos, a nível mundial (CASTELLS, 2003). Ela tem, ainda, a especificidade de agregar
outros tipos de comunicação, anteriormente encontrados em meios mais antigos: as tecnologias de informação um com um, um com muitos e muitos com um (CHADWICK, 2006).
Nesse cenário, a Internet se transforma em um “meio essencial de comunicação e organização em todas as esferas de atividade” (CASTELLS, 2003, p. 114). Torna-se, assim, natural a sua apropriação pelos movimentos sociais e pelo processo político de forma ampla. Tanto os movimentos sociais surgidos no século XXI, quanto os tradicionais, modificam e são modificados pela Internet. Enquanto os primeiros descobriram na rede seu meio apropriado de organização, os últimos se aproveitaram de suas potencialidades para modificar ou incrementar as estratégias de ação (CASTELLS, 2003; CHADWICK, 2006). Nesse caso, podem-se citar como exemplos os movimentos feministas, que emergem em um contexto anterior ao surgimento da Internet, mas lançam mão da tecnologia de modo a aumentar seu potencial de organização e mobilização, além de fortalecer as suas redes nacionais e/ou transnacionais.
O fato é que a Internet reduz os custos de comunicação. Com isso, grupos que possuem poucos recursos, e cujas vozes podem estar ausentes dos canais tradicionais de comunicação, encontram na Internet um meio de mobilização e fortalecimento de redes que se encontravam isoladas (CHADWICK, 2006). Conforme aponta Chadwick (2006), “‘mudando quem diz o quê de quem’, as formas de mobilização possibilitadas pela Internet reconfiguram a ação política” (CHADWICK, 2006, p. 142).55
Com a Internet, a democracia muda, então, de aparência. Isso não significa que a internet seja necessariamente democrática ou que ela seja a manifestação de uma inteligência coletiva que conduz à democracia, como supõem Lemos e Lèvy (2010). Há várias formas de exclusão reforçadas pela Internet e há muitas práticas essencialmente antidemocráticas a
65 atravessar a rede das redes. O que parece inegável, contudo, é que há algumas mudanças políticas dignas de nota.
A Internet altera o regime de visibilidade dos processos comunicativos e, ao fazê- lo, afeta a configuração do espaço público, transformando a natureza da democracia. O público e o privado veem-se transformados, uma vez que a Internet, por um lado, difunde por toda a sociedade o direito de sustentar um discurso em público, e, por outro, inclui no espaço público parte das conversações privadas. Esse espaço público modificado pelo surgimento da Internet incorpora novas formas de expressão, para além daquelas configuradas com o nascimento da “esfera pública restrita” no século XVIII (CARDON, 2013).
Nesse contexto, os blogs aparecem como ferramentas de grande potencial para a expressão de opinião pública e de debate público. Os blogs são criados a partir da ideia de diário, o que se reflete na sua estrutura: atualizados regularmente, as postagens são organizadas em ordem cronológica. Essa ordem apresenta um padrão inverso ao da leitura canônica, uma vez que os textos (aqui chamados de posts) mais recentes se situam no início da página, e os mais antigos no final (RUIZ, 2005). A estrutura dos blogs, em função de sua
interface simplificada, permite que indivíduos ou grupos realizem novas postagens com
facilidade e rapidez, o que diminui os custos de atualização. A maioria deles traz um sistema de busca, categorização e referência cruzada, além de contar com meios simplificados pelos quais os/as leitores/as podem postar comentários relativos às postagens (CHADWICK, 2006). Chadwick (2006) sustenta que a difusão dos blogs “democratizou o acesso às ferramentas e técnicas requeridas para fazer uma diferença política através da criação de conteúdo” (CHADWICK, 2006, p. 129).56 A transformação se deu, inclusive, no cenário da
própria Internet, uma vez que os blogs possibilitaram a usuários/as comuns a criação de
websites ágeis e dinâmicos, além de facilmente atualizáveis. Ademais, a facilidade encontrada
em linkar os blogs entre si possibilitou o surgimento de comunidades virtuais de opinião (CHADWICK, 2006). Comunidades essas que podem ter efeitos democráticos, mas também que podem gerar formas de polarização que constrangem o debate plural de ideias (SUNSTEIN, 2001; HINDMAN, 2009).
Para Cardon (2013), a democratização do dizer viabilizada pela Internet não irá transformar em jornalistas a totalidade dos usuários da rede. É necessário considerar que nem todos os blogs trazem conteúdo político, e que alguns se limitam à publicação de discursos individuais (CHADWICK, 2006). Ademais, os/as blogueiros/as normalmente se dedicam a
56 Do original: “has democratized access to the tools and techniques required to make a political difference
66 comentar os assuntos correntes e se voltam para áreas pouco exploradas pela mídia tradicional, o que mantém uma relação de interdependência com os especialistas tradicionais (CARDON, 2013). O que não se pode negar, afirma Cardon (2013), é a contribuição dos/as blogueiros/as para alterar os regimes de visibilidade do discurso público.
Posto isso, é possível afirmar que o Blogueiras Feministas traz consigo a possibilidade de expressão de pontos de vista das mulheres distintos daqueles expostos pela mídia. A experiência conta, atualmente, com 69 blogueiras e blogueiros,57 além de trazer
publicações de autoras e autores convidados, posts do Coletivo FemMaterna, e postagens assinadas coletivamente como “Blogueiras Feministas”.
A criação do blog se deve à iniciativa de Maria Frô, que, durante o primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, enviou um e-mail para colegas feministas, buscando coletar informações a respeito de questões políticas referentes às mulheres. Diante da riqueza do debate promovido por esse e-mail, Cynthia Semíramis criou um grupo de discussão com o intuito de proporcionar um espaço de conversa e de troca de informações. O blog surge em um terceiro momento, a partir do crescimento do grupo. Nas palavras de Tica Moreno,
este blog existe porque queremos vivenciar na rede a experiência de ser feminista. Escrever posts, apontar manifestações do machismo na sociedade, twittar, fazer vídeos, publicar fotos, organizar manifestações nas ruas e na rede, entre outras formas de espalhar essa ideia de que ainda tem muita coisa pra mudar nas relações entre homens e mulheres. Por outro lado, tem a ver com uma reflexão constante sobre a nossa própria vida, sobre como a gente pode enfrentar as nossas contradições, como a gente constrói as nossas relações com mais autonomia e liberdade (http://blogueirasfeministas.com/about/).
O blog pode ser considerado uma das referências para o debate e para o ativismo feminista online no Brasil. O volume de posts e a frequência de atualização certamente contribuíram para isso. Ademais, o formato de blog possibilita uma maior interação com leitores e leitoras, que fazem comentários em muitos posts, especialmente os que tratam de temas polêmicos.
57 As blogueiras e os blogueiros colaboradores são: Adriana Mattoso, Aline XD, Amanda Vieira, Ana Rita
Dutra, Ana Rüsche, Artemis Keladeine, Bárbara Araújo, Barbara Lopes, Bia Cardoso, Bruna Provasi, Camilla de Magalhães Gomes, Carol Fontes, Carolina Pombo, Cecilia Oliveira, Cecilia Santos, Charô, Cláudia Gavenas, Cynthia Semíramis, Daniela Valverde, Danielle Cony, Deh Capella, Denise Rangel, Fernanda Marinho, Georgia Faust, Hailey Kaas, Henrique Marques-Samyn, Iara Paiva, Isabela Casalotti, J. Oliveira, Jarid Arraes, Jeanne Callegari, Ju Pagul, Karen Polaz, Karla Avanço, Karollyna Alves, Kori Ramos, Letícia Howes, Leticia Zenevich, Letticia Leite, Lilian Felix, Liliane Gusmão, Lis Lemos, Luciane Nepomuceno, Luka Franca, Madeleine Lacsko, Maia Cat, Maira Avelar, Maíra Kubík Mano, Marcelo Caetano, Mari Moscou, Mariana Rodrigues, Michelle Borborema, Nessa Guedes, Patricia Rameiro, Paula Penedo, Priscilla Caroline, Renata Correa, Renata Lima, Sara Siqueira, Sharon Caleffi, Silvana Bárbara G. da Silva, Suely Oliveira, Talita R da Silva, Tâmara Freire, Thayz Athayde, Tica Moreno, Ticiane Figueiredo, Xênia Mello, Yaso (Dados coletados em 04/12/2013).
67 A interface do blog facilita a navegação. A composição das cores e a organização dos assuntos principais em quadros temáticos na lateral direita da página auxilia a leitura e a identificação dos temas de interesse:
Figura 1 – Home do blog Blogueiras Feministas
Fonte: Blog Blogueiras Feministas58
Na página inicial, na lateral superior direita estão presentes links diretos para diversas redes sociais, além do link para um arquivo RSS, utilizado por softwares ou navegadores agregadores de conteúdo, que recebem rapidamente as atualizações dos sites selecionados pelo/a usuário/a. Essas ferramentas potencializam o alcance do blog.
O mecanismo de busca e a barra de navegação também contribuem para a clareza na utilização do blog. O quadro interativo, que ocupa grande parte da página inicial, traz os
posts de destaque dentre as publicações mais recentes. Ao lado, um quadro traz os posts mais
lidos do blog. É interessante notar que dois deles são relatos de mulheres que realizaram um aborto, publicados em 2012, fazendo parte, portanto, da nossa amostra. O peso da questão do aborto no blog é corroborado pelo quadro “Assuntos + Procurados”:
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Figura 2 – Assuntos mais procurados do blog Blogueiras Feministas
Fonte: Blogueiras Feministas59
A procura por “aborto” evidencia o interesse em torno do tema, tradicionalmente encarado como tabu. As leitoras e os leitores do blog buscam informações e opiniões sobre a questão, demonstrando seu potencial de debate, ainda pouco explorado, de maneira séria, pelas mídias tradicionais.