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E KSPLORERENDE UNDERSØKELSE

3. METODE

3.1 E KSPLORERENDE UNDERSØKELSE

Sabe-se que as formações discursivas recorrentes nos enunciados dos fãs são anônimas. Elas representam as filiações de um número de indivíduos a formações ideológicas (PECHÊUX, 2009) e dispositivos. A comunidade DarkUfo inicialmente foi proposta como espaço de discussão sobre o seriado Lost. Na análise, não se centralizou a canonicidade dos elementos narrativos do seriado como constituintes de “obra fechada”, mas observaram-se os discursos circundantes e derivados, considerados “menores”, ou seja, provocativos, discordantes e geradores de controvérsias, a partir da concepção de sujeito de Foucault: “uma provocação permanente das relações poder-saber-subjetividade” (EIZIRIK, 2005, p.143). Ou seja, menos focado na oficialidade e nas palavras de ordem dos produtores executivos, no que diz respeito aos cânones da narrativa de Lost, e mais nas redes de usuários e nos grupos de enunciados que exprimem outros pontos de vista, contestações, críticas, outros assuntos e desejos heterogêneos. Através da circulação de enunciados na comunidade online, observou- se as marcas ideológicas dos usuários, expostas por uma repetição de temas nos enunciados relacionados à interpretação dos episódios. Como salientou Foucault a respeito do caráter

anônimo dos discursos coletivos, esses conjuntos de regularidades representam posições- sujeito que podem ser ocupadas por distintos indivíduos e

[…] não coincidem com as obras individuais; mesmo que se manifestem através dela, mesmo que aconteçam de aparecerem, por uma primeira vez, em algumas delas, ultrapassam-nas largamente, e, concentram, com frequência, um número considerável delas. (FOUCAULT, 1997, p.11)

As formações discursivas analisadas, portanto, só existem de acordo com condições de recorrência. Observamos a regularidade de enunciados que responsabilizavam os produtores Carlton Cuse e Damon Lindelof pela “obra” Lost. Discurso dito por diversas vozes, sem centralidade, foi ressaltado na gama de enunciados que circula na comunidade. No

corpus, houve maior regularidade da disseminação de determinados discursos como os

daqueles que denegriam as figuras centrais de um autor da obra Lost, pois reconheciam que o mundo narrativo era mais importante do que o seu criador. Esse mundo suscitou expectativas, necessidades e interpretações de acordo com os conhecimentos prévios dos telespectadores, fomentados pelos spoilers, trailers, paratextos, pelos outros comentários e suas interações.

Por muitas vezes, os fãs participantes do site DarkUfo ficaram descontentes com as respostas dadas pelos produtores através de seus meios “tradicionais” (podcasts), ou não as aceitaram, e procuraram impor as próprias hipóteses. No contexto de uma comunidade em que distintos discursos sobre o destino da narrativa confrontaram-se com as explicações oficiais da produção, retomou-se o problema da autoria e da propriedade de uma obra. Para isso, ilustra-se essa situação através da dicotomia entre a centralidade no mundo de histórias, ou nos seus autores. No caso, a “função-autor” foi remetida aos produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse, responsabilizados por terem, de certo modo, assinado o texto de Lost. Como alerta Martins (2012, p. 29), os modos pelos quais a função-autor aparecem nas redes cognitivas não demonstram uma reconfiguração evolutiva rumo à transparência e à “morte do autor”84, apenas um fato de um contexto histórico-social marcado pela convergência midiática.

                                                                                                                         

84 No atual tecido histórico-social os limites da autoria são determinados pela sociedade em rede. A “morte do

autor” já foi descrita por muitas vezes. As fábulas, histórias míticas e os textos bíblicos circularam por muito tempo de forma anônima e oral em forma de mitos. A Odisseia, de Homero, é considerada por muitos acadêmicos uma obra anônima, visto que era um mito dedicado às musas que o inspiraram. Posteriormente teria sido recompilada sob esse “autor”. Como afirma Martins (2012, p. 29): “Homero pode ser entendido como um arquétipo, construído por um processo retrospectivo de autorização, como uma chancela sobre uma tradição cultural, e não como uma pessoa”.

Devemos situar sócio-historicamente o sujeito que faz conteúdo e o cria nas redes digitais, para contextualizar o atual momento de oscilação entre a figura do autor uno e a criação coletiva na internet. Para efeito de comparação, veremos algumas diferenças entre o sistema autoral como estava estabelecido no século XX em relação ao do corpus desta pesquisa.

Para Foucault (1992, p. 47), um dos momentos da história recente marcado pelo fortalecimento da ideia de um autor central para cada obra é o surgimento dos Estados Modernos. Com eles vieram os mecanismos de vigilância e punição que faziam parte de um sistema marcado e controlado através de diversas instituições e dispositivos. A necessidade de alguém rubricar ou assinar uma publicação (ficcional ou não) estaria relacionada à possibilidade de nomear e punir aqueles que promoviam a circulação de discursos conflitantes com aqueles das instituições vigentes, principalmente o Estado e a Igreja. Esta última, conforme analisado em outro contexto, possui uma ideologia que atravessou as formações discursivas observadas nos comentários dos fãs.

Foucault (1992) salienta que a autoria não é o processo de criação, mas uma prática discursiva com a intenção de chancelar e responsabilizar um indivíduo; prática que foi retomada historicamente múltiplas vezes, já que “os textos, os livros, os discursos, começaram efetivamente a ter autores (outros que não os personagens míticos ou figuras sacralizadas e sacralizantes) na medida em que o autor se tornou passível de ser punido, isto é, na medida em que os discursos se tornaram transgressores” (FOUCAULT, 1992, p. 47).

No atual momento de penetração da cultura da convergência e participativa, o trabalho imaterial e linguístico do Capitalismo Cognitivo circula através de redes e plataformas digitais. A sociedade em rede é a materialidade discursiva onde os enunciados e textos circulam. Com o advento da web 2.0 e da cultura participativa, na qual os usuários das comunidades online podem remixar e compartilhar seus conteúdos próprios, a figura de um autor capaz de controlar e cercear os limites de sua obra voltou a ser contestada, já que os fãs tendem a se sentir “proprietários” do mundo ficcional preferido.

No caso da comunidade de fãs de Lost, vimos que eles puderam tanto centralizar o texto de Lost aos produtores, que assumiram a “função-autor” do seriado, quanto “tomar para si” o mundo criado pela obra transmidiática. Essas não são duas práticas e discursos excludentes. Os usuários reportaram-se e criaram conteúdos novos para o mundo. A centralidade das obras deslocou-se dos autores (como os textos de Arthur Conan Doyle, venerados por sua “assinatura”) para um universo ficcional – como a ilha de Lost. Para Chartier (2012, p. 88): “é totalmente possível, num mundo eletrônico, pensar que todo texto,

seja lá qual for, se transforma em um banco de dados aberto e, imediatamente, conduz à perda ou à dificuldade da integridade, da identidade na obra”.

Os fãs usualmente não são fãs dos autores, mas da obra/mundo por eles criada e sentem-se portadores do direito de intervir nesse mundo ficcional. Isso acontece porque houve o deslocamento e descentramento da autoria no texto. “A noção de um texto que pode ser distinguido de outros textos se tornou impossível de manter, já que agora não é o produtor, mas o espectador que estabelece as fronteiras textuais” (SANDVOSS, 2007, p. 22). Nesse contexto, vimos uma dicotomia entre a centralidade/responsabilização dos produtores e as possibilidades de expansão desse mundo textual a partir dos fãs. Em muitas ocasiões, os fãs não tiveram suas expectativas realizadas e transcreviam as cenas que gostariam de criticar e modificar:

MÃE: Luz. A mais acolhedora e brilhante luz que você já viu ou sentiu. E temos que ter certeza que ninguém nunca irá encontrá-la.

MENINO DE PRETO: É linda.

MÃE: Sim, ela é. E é por isso que eles a querem. Porque um pouco dessa mesma luz está dentro de cada homem. Mas eles sempre querem mais.

JACOB: Eles podem pegá-la?

MÃE: Não, mas eles podem tentar. E se eles tentarem liberá-la, e se ela vazar, vai para todo lugar. E eu protegi esse lugar. Mas não posso proteger para sempre.

MENINO DE PRETO: Então quem vai? MÃE: Terá que ser algum de vocês. (LOSTPEDIA, 2010, n.p., tradução nossa)85

O diálogo acima é a transcrição feita por um fã de uma cena do décimo quinto episódio da última temporada de Lost, Across The Sea. Foi disponibilizada no site DarkUfo e na Lostpedia. Com a temporalidade centrada nos primeiros anos do primeiro milênio, o capítulo mostrou o início das vidas de dois personagens que representavam forças manipuladoras e contrastantes da ilha: Jacob e seu irmão, o Homem de Preto. Para explicar de que modo fenômenos aparentemente sobrenaturais ocorriam na ilha (pessoas que não envelheceram, forte eletromagnetismo que gerava atração de artefatos de metal, a impossibilidade de sair da ilha com facilidade), a personagem da mãe adotiva levou os dois meninos a uma “fonte de luz” no interior da ilha.

Como apontam os dados da tabela 3, esse episódio foi criticado e elogiado através de comentários que referenciavam à construção da mitologia da ilha, e exprimiam o descontentamento ou frustração – principalmente dos fãs motivados por informação – com a                                                                                                                          

85 Transcrição feita por fã e disponibilizada em: http://lostpedia.wikia.com/wiki/Across_the_Sea_transcript/.

resposta acerca das forças sobrenaturais daquele local. Um termo recorrente nos comentários foi a expressão latina deus ex machina. Um grupo de usuários utilizou o termo para designar uma possível manipulação às pressas no roteiro e a decepção nos modos como os mistérios foram solucionados. Essas discussões foram carregadas de metatextualidade. A expressão

deus ex machina remonta às tragédias do teatro grego em que a aparição de um deus baixado

por uma máquina no palco resolvia os conflitos do enredo de forma abrupta. “Os críticos da Renascença associaram a aparição de um deus no fim de uma peça com uma resolução artificial e feita muito às pressas para um plot absurdo e sem propósito” (REHM, 2004, p. 69). Quando não havia preparação textual para essa aparição especial ou manipulação, o público poderia ter um sentimento de desilusão e frustração em relação à narrativa, como o mostrado no seguinte diálogo iniciado minutos depois da exibição do episódio referido. Nele, os fãs apropriaram-se desse termo para criticar os produtores executivos, responsabilizá-los pela “autoria” de um ato indesejado:

Postagem 38

Eu não tenho postado aqui há muito tempo, mas eu estava tão desapontado na última noite que eu tinha que dizer algo. Voltando à primeira temporada, havia um episódio nomeado Deus Ex Machina. Eu estou certo de que quase todo mundo procurou pelo significado disso: 1. (um antigo drama romano ou grego) em que um deus é introduzido em uma peça para resolver as confusões do roteiro.

2. Qualquer artifício improvável ou artificial usado na resolução das dificuldades de