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E CONOMIC AND S OCIAL A SSETS

4. SOCIO-ECONOMIC DETERMINANTS OF POVERTY

4.3 E CONOMIC AND S OCIAL A SSETS

Os estudos de Brancaglion Júnior (2012) sobre homossexualidade na civilização egípcia, ao contrário daqueles referentes à civilização greco-romana, são bastante escassos, o que faz pressupor ter sido o povo daquele império faraônico destituído de valores eróticos. A esse fato é preciso acrescentar que a escassez desses poucos registros não ser extensiva para todos os membros daquela sociedade, pois aqueles existentes incidem sobre pessoas de status elevados, visto não há informações sobre os menos favorecidos. Outra questão relevante, para o estudioso dessa questão cultural, é a proximidade com a cultura greco-romana, embora os egípcios sejam mais antigos dos povos a se organizarem sob a forma de Estado Imperial e sua cultura não seja tão próxima daquela dos Impérios grego e do romano, há certo grau de contaminação interpretativa. Assim, prevalece certa tendência de associar a cultura egípcia a esses dois povos e não àqueles do mundo oriental e do africano. Outra questão problemática se deve ao fato de os egípcios não disporem de uma palavra capaz de fazer remissão a significados que pudessem definir com precisão as relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. Nesse contexto de dificuldades que incidem sobre a homossexualidade, para tratar de uma formação social que por três mil anos se fez presente sobre a Terra, o autor organiza seus estudos em três tópicos, quais sejam: a) como representação divina, compreendida por meio dos mitos e pelo mundo dos mortos; b) como representações literárias, associadas aos reis; c) como representações particulares, explicitadas por meio de imagens e/ou textos, associadas àqueles que eram representantes daquele estado do poder imperial.

As representações sobre as relações homossexuais referentes ao mundo das divindades estão associadas ao início dos tempos e são bastante raras, de modo a se referirem a relações de complementaridade entre a divindade masculina e feminina. Trata-se do episódio lendário denominado por “Grande Contenda” entre o deus Hórus que disputa com Seth o trono de Osíris e, convencido a dormir com Seth, esse coloca entre as coxas do primeiro seu membro endurecido. Registrado em língua escrita no Papiro Kahun, tem- se o enunciado “Como suas nádegas são lindas”, dito por Seth a Hórus. Assim e conforme Papiro Chester Beatty, a homossexualidade não tem o desejo sexual como seumarco fundador, pois a sua principal função é subjugar o adversário, o concorrente ao

trono real, muito embora no Papiro Kahun, são destacados os atrativos de Hórus como a principal razão que levaria Seth à prática do homossexualismo. Ressalta o autor que, no Papiro Chester Beatty, tem-se a narração em que Isis, mãe de Hórus, masturba o seu filho e recolhe o sêmen por ele ejaculado sobre uma folha a alface que é comida por sua mãe. Essa informação é complementada por dados do Templo de Edfu que, por meio de registros escritos de uma oferenda ao deus Min, traz o seguinte enunciado: “Deixe o seu sêmen penetrar no corpo do (seu) inimigo, que ele engravide de um filho seu” (Brancaglion Júnior, 2012:. p. 71).

Observa o autor que os papéis sexuais da sociedade egípcia não só eram bem definidos e - por estarem associados a uma ordem cósmica - a manutenção dessa ordem social era organizada pelo próprio cosmos. Assim, carregar consigo o sêmen do inimigo seria uma ameaça e exercer o papel de inimigo da própria ordem divina; razão pela qual o homossexualidade não tem relações com opções sexuais de Seth e sim para significar a relações não harmoniosas entre ele e Maar; por isso Seth não poderia herdar o trono egípcio.

O mundo pós-morte era concebido pelo povo egípcio como lugar do espaço cósmico habitado não só por deuses, mas também pelos mortos que nele perpetuariam suas vidas terrenas e, com/por ela, perpetuavam suas atividades sexuais. Nessa acepção, em “Textos dos Caixões” pode-se encontrar o seguinte registro: “Atum não tem o poder sobre (nome do morto) , ele copulou com seu ânus” – passagem que faz referência à prática homossexual, entendem alguns estudiosos, já outros afirmam tratar de demonstração de poder pela imposição de sodomia e não uma relação entre dois homens. (op.cit; p.71). Segundo o ator e, contudo nos Livros dos Mortos é que se pode identificar de forma mais explícita essa prática entre os egípcios, onde ela sempre aparece sob a forma velada de um hábito praticado não só durante a vida terrena, mas também a vida pós-morte. Todavia a sua condenação pelo Tribunal Divino, presidido por Osíris, implicava o fim da existência para a vida póstuma.

No que se refere às fontes reais, a homossexualidade se deixa revelar por meio de contos literários cujo modelo de composição textual-discursiva incide sobre a figura de seus faraós representados na condição de seres reais e não como seres divinos. Dentre essas fontes, também escassas e fragmentadas, Brancaglion Júnior (2012) identifica dois deles

para situar a figura de Neferlcare, provavelmente, o faraó Pepi II e a do faraó Amenhotep II, esse e não demonstra qualquer preferência pelo sexo feminino, pois nenhuma esposa real está associada a ele e, em alguns monumentos, tem-se citação sobre sua mãe como aquela que exerce o papel de esposa real. Sobre Amenhotep tem-se a identificação de um oficial da corte, Usersater, e muitas especulações sobre a sexualidade desse faraó, mas são informações de caráter especulativo - ao contrário do faraó Pepi II que mantinha relacionamento íntimo com um general chamado Sasenet. Assim e à semelhança de outras composições fragmentadas é possível identificar que esses contos tinham como leitores pessoas pertencentes a grupos ilustres que viviam nos palácios para servirem aos seus faraós ou a sacerdotes dos templos sagrados– escribas, secretários, contadores ou coletores de impostos, por exemplo, que se ocupavam de registros escritos.

O general Sasenet não teria uma esposa e vivia sozinho, ao contrário de Pepino que, mesmo casado, frequentava a sua casa à noite, depois de lhe fazer um sinal para que uma escada fosse abaixada pelo muro e ele pudesse entrar e nela se encontrarem. Retornava ao palácio pouco antes do amanhecer, mas “Depois que sua majestade tivesse feito tudo que desejasse” – essa mesma expressão “fazer tudo o que desejava” também está registrada nos templos de Deirel Bahari, mas se refere à rainha, o que faz pressupor ser o rei aquele que assume o papel de homossexual ativo nessa sua relação. Segundo tais registros, esses são fatos que só apontam para hábitos que ilustram o comportamento de governantes de um Egito decadente.

As fontes não reais que não incidem sobre o mundo divino das realezas e tampouco sobre os mitos daquela sociedade antiga registros sob a forma de provérbios, ou máximas que, embora pouco numerosos, são bastante significativos e permitem considerar a existência de homossexuais entre membros daquela sociedade antiga. A função desse tipo de textos reduzidos esteve e está voltada para a propagação de normas de conduta moral e/ou valores éticos, referentes aos modos de agir e de se comportar aceitos socialmente. A quantidade de cópias existentes possibilita aos estudiosos desses documentos pressuporem serem elas não só bastante populares, mas também serem usadas pelos escribas nas escolas dos templos, onde se ensinava à escrita e a leitura, por meio de cópias e de ditados, para orientarem o comportamento social de crianças e jovens. Esse comportamento, concebido como antissocial, é exemplificado pela seguinte

máxima: “Não tenha relações homossexuais com um efebo.”, para advertir sobre esse comportamento que, para os egípcios, era avaliado como antissocial; contudo, não se identifica nesses textos sentidos que visam à condenação dos homossexuais, por se tratar de advertências.

Os estudos desse autor resgata imagens cunhadas em uma tumba da V Dinastia egípcia, construída para alojar o corpo de dois homens e suas respectivas famílias - Niankhknum e Khnumhotep, ambos Supervisores dos Manicures do Palácio - na pirâmide de Djoser, na Necrópole de Saqquara. Essas imagens cunhadas os representam em poses próprias de casais, observado o fato de o sentimento conjugal ser expresso por abraços e a posição das mãos e do corpo indiciarem práticas sob o comando da mulher no corpo de seu marido. Embora esses dois homens possuíssem esposas e filhos, suas imagens estão representadas em posição secundária, onde o primeiro ocupa a posição masculina e o segundo, a feminina que é abraçado, ao mesmo tempo em abraça o primeiro, e é tocado pelas mãos de Niankhknun. Tais cenas estão no pilar central da antecâmara e na sala de oferendas, onde seus rostos estão próximos de modo a tocar a ponta de seus respectivos narizes e a possibilitar que se compreenda que tais relações seriam perpetuadas por toda a eternidade. (cf. p.74 e 75).

Pode-se, ainda considerar a preocupação do autor em resgatar fragmentos desses documentos antigos que tematizam o lesbianismo – muito mais escassos do que aqueles referentes ao homossexualismo – contudo, interpretado como um “mau sinal”. A relação homossexual entre os egípcios nunca teve reconhecimento formal, pois aquela sociedade exigia de seus membros a obrigação de eles constituírem famílias, em primeiro lugar, de modo que essa norma primeira se impunha à vontade e desejos individuais. Afirma o autor de esse estudo ser possível identificar nas fontes por ele investigadas “a humilhação pela passividade e a dominação pelo coito anal, imposta aos inimigos do Império Egípcio” (cf. op.cit. p.75), à semelhança das tribos indígenas da América Ibérica, descrita por Paz, no item 1.3.1 desse Capítulo. Todavia, a palavra “hemiu”, por designar não só “inimigo”, mas também “afeminado”, é usada para denominar o deus Seth – o mesmo que representava, na mitologia, a esterilidade em contraposição a Osísris, a deusa da fertilidade e da regeneração. Enfim, na civilização egípcia o culto à fertilidade trazia consigo o medo pela infertilidade que era motivo para divórcio. A vida – concebida pela

intercorrelação entre o masculino e o feminino – estabelecia a forma do universo, de sorte que o homossexualismo era compreendido como negação desse poder vital; razão pela qual essa modalidade de relação homossexual era avaliada como desperdício do sêmen humano, símbolo de infertilidade. Apresenta-se, abaixo, quadro referente à descrição, acima:

Figura 2 – Gravura da Homossexualidade no Egito Antigo

Fonte:

https://www.google.com.br/search?q=imagens+de+homossexuais+no+antigo+egito&newwindow=1&tb. - Acesso em 12/09/2013.

Nesse contexto e considerados os estudos de Paz entre os nativos das duas Américas Ibéricas - a do Sul e a Central – é possível identificar o sentido, talvez universal da cultura humana que valoriza a heterossexualidade como ação para a manutenção e preservação da vida humana na Terra, em detrimento da homossexualidade. Outra questão relevante, ressaltada por sociólogos que tratam desse mesmo tema, é observar que as sociedades primitivas não estavam preocupadas com o tipo de relação sexual, mas sim, com o número de filhos que poderiam ser gerados uma vez que não havia o controle da natalidade.(Cf. Paz, 2002).