Até aqui tratamos da sociologia tardiana de modo a prezar pela descrição dos critérios que permitem ao fato social em sua dimensão antropológica ser tomado como objeto de uma ciência autônoma, ou seja: da inteligibilidade matemática que Tarde encontra nas quantidades da alma, do fato social elementar ou ação de contágio entre espíritos, e do campo de repetição que se inaugura com esse gênero de atividade. Ao fazê-lo, não pudemos deixar de tratar, por contraposição, dos resultados aos quais chega a ciência dos fatos sociais durkheimiana que, sob muitos aspectos, toma como ponto de partida exigências análogas àquelas que animam o intento tardiano, a saber: fundar uma ciência autônoma para uma dimensão da vida do espírito que exige, por sua irredutibilidade, essa autonomia. Resta-nos agora demonstrar, no interior do edifício da ciência social tardiana, como a interpsicologia implica uma lógica ou inter-lógica.
Um gênero de repetição qualquer, seja ela física, viva ou humana, é um acordo estabelecido entre uma heterogeneidade pulsional. Quando Tarde se propõe mensurar os fatos sociais, trata-se de tomar as quantidades da alma agenciando-se na constituição dos acordos ou repetições sociais, agenciando-se, portanto, em um movimento de conjunto que possui uma direção precisa. É nesse sentido que a inter-psicologia implica uma lógica social. Esta se ocupa das lutas e alianças das ideias e das volições quando elas se alojam em espíritos diferentes que se encontram em ação intermental. Em se tratando dos acordos sociais, Tarde (1904, p. 77) pode afirmar que “As lutas e alianças de ideias e volições entre indivíduos diferentes são a matéria a mais abundante da interpsicologia”. Sequer o ideal científico de mensuração de que nos ocupamos até aqui fica claro caso não levemos essa dimensão do fenômeno social em consideração. Pois o que é medido no tecido social não são quantidades de crenças e de desejos como unidades independentes que se adicionam sem motivo, ao simples gosto de uma métrica social, mas sua mobilização em sentidos precisos, seu acréscimo e diminuição, suas mudanças de direção e de intensidade no interior da constituição de acordos. O que é medido são as crenças e desejos mobilizados na constituição da vida social, a qual tende a “resolver um problema árduo”, um “problema de maximum de crenças e de desejos a equilibrar” (TARDE, 1902a, p. 3).
O laço social não é somente uma ação inter-mental, mas ainda, e acima de tudo, um acordo inter-mental nascido dessa ação. Acordo, isso significa que um deseja o que
o outro deseja, ou repele o que o outro repele, que um afirma o que o outro afirma ou nega o que o outro nega. A sociedade, então, em sua essência íntima, deve ser definida como uma comunhão mental; ou melhor, como essa comunhão nunca é perfeita, um grupo de julgamentos e de desígnios que se contrariam o menos possível, que se confirmam ou entre-ajudam o máximo possível (TARDE, 1902a, p. 02).
A inter-psicologia e a inter-lógica se aliam na descrição das leis que animam as repetições sociais. A primeira observa os limites do fato a ser observado e a segunda a maneira como esses fatos constituem progressivamente o tecido social. Se a primeira mostrou “como se formam os tecidos sociais”, a outra se ocupará da maneira pela qual “esses tecidos se organizam, pela qual esse estofo é costurado e talhado” (TARDE, 1895b, p. 61). É verdade que, na constituição dos acordos, o mais das vezes imperfeitos e temporários, o problema se apresenta como uma tentativa de estabelecimento de uma espécie de platô de variação que contenha o mínimo de contradição e o máximo de equilíbrio. Não obstante, uma tendência ou direção essencial pode ser deduzida desse quadro. Uma assimilação contagiosa que, levada ao limite, caracterizar-se-ia pelo “nascimento, o transbordamento, o crescimento de uma sociedade única” (TARDE, 1890b, p. 455).
Sua constituição se encontra “implicada” no restante das harmonizações que a natureza compôs ao longo de sua história. Isso será objeto do próximo capítulo, quando observarmos a maneira pela qual os acordos antropológicos se encontram “implicados” nos acordos materiais e vitais, expressões parciais do esforço de harmonização progressiva que atravessa todos os andares da natureza, tendência oculta que anima o gênio social e inventivo do cosmos. Pelo momento interessam-nos os limites estritamente sociológicos de estabelecimento de acordos e equilíbrios. Por diversas que sejam as invenções e descobertas, as proposições e os desígnios que chamam a atenção dos homens vivendo em sociedade (linguísticas, econômicas, religiosas, científicas, políticas, estéticas), e por mais variados que sejam os problemas que eles resolvem, um problema geral domina a todos: “uma invenção, tendendo a se propagar pela imitação, tem sempre por resultado mais ou menos direto a fabricação de uma unidade entre os homens”. Em graus variados e sob formas as mais diversas, os códigos, dogmas, as verdades científicas, os produtos da arte e da indústria “satisfazem às exigências do que Tarde chama a lógica social e conspiram para o acordo entre os indivíduos” (BOUGLÉ, 1905, p. 311).
A paz social, a fé unânime em um mesmo ideal ou em uma mesma ilusão, supõe assimilação cada dia mais extensa e mais profunda da humanidade: eis o termo para o qual caminham, quer queiramos ou não, todas as revoluções sociais. – Tal é o
progresso, ou seja, o avanço do mundo social nos caminhos lógicos (TARDE, 1890b, p. 207).
A evolução da realidade social consiste em uma passagem gradual de uma multidão de pequenas harmonias a um número menor de harmonias maiores e depois a um número muito pequeno de harmonias muito grandes, até que se alcance, em um futuro indefinido, “a consumação do progresso social em uma civilização única e total, tão harmoniosa quanto possível” (TARDE, 1898a, p. 119). A observação dessa tendência – que a filosofia da natureza já nos permitira elucidar – na vida do homem em sociedade ganhará, nas mãos do “cientista” dos fatos sociais, um novo campo de desenvolvimento ao lado da inter- psicologia. “Retornar à discussão de pontos numerosos da lógica, já tocados por muitos filósofos, escaparia aos meus objetivos e capacidades”, afirma Tarde (1895b, p. 75), não obstante, prossegue, “parece-me que por alguns lados ainda negligenciados, a lógica se liga mais intimamente do que se supôs até aqui à psicologia, de um lado, e à ciência social, de outro, e que, considerada sob esse aspecto, ela é susceptível de novos desenvolvimentos” (TARDE, 1895b, p. 75).
De modo que as leis lógicas da imitação possuem um duplo aspecto: elas vêm expressar uma tendência inscrita nas próprias coisas – e, aqui, nas “coisas sociais” tomadas em sua dimensão antropológica – e são obra da análise do cientista, que discerne no estabelecimento dos acordos sociais as direções e as intensidades dos movimentos de crenças e de desejos que trabalham em sua constituição. As crenças e os desejos mobilizados na vida social constituem reservas de energia espiritual, formam um capital energético cuja repartição dá origem a conflitos e combinações. Cabe ao sociólogo conhecer as leis que regem esses movimentos das duas quantidades da alma. Como? Por meio da análise de silogismos cujos conteúdos mobilizados em intensidades e direções que variam são inumeráveis casamentos de crenças e desejos. “O estudo dos vastos campos habituais em que se exerce a lógica viva, real, em que se fabricam diariamente milhares de silogismos, se impõe ao filósofo” (TARDE, 1895b, p. 113).
Acabam de me dizer, e eu acredito, ou, antes, eu afirmo, segundo esse testemunho, que um homem acaba de ser morto a pouco não longe de mim; corro para lá e vejo um homem manchado de sangue, uma faca sangrando na mão, ao lado do cadáver; concluo que esse homem é necessariamente o assassino. – Sou ambicioso, desejo as honras (maior); aprendo, creio que uma boa ocasião se oferece de tornar-se prefeito de minha cidade (menor); a conclusão é que eu devo me apropriar da faixa convidativa. – Quero me enriquecer; afirmo que essa queda de água inutilizada, situada em minha propriedade, é uma fonte de fortuna; digo a mim mesmo que devo explorá-la. – A vida é repleta desses silogismos (TARDE, 1890b, p. 249).
A psicologia, como vimos, é quantitativa ao tratar dos componentes de crenças e desejos na sensação. Paralelamente, a lógica será quantitativa na medida em que não se atém às formas e funções da representação, mas sim às combinações e aos graus de crenças e de desejos (DELEUZE; GUATTARI, 1980). O silogismo serve muito mais à discussão e à persuasão – à mobilização de volições e convicções – que à meditação, dirá Tarde (1895b, p. 114). Do ponto de vista da sociologia que dele se ocupa, ele se liga às operações essenciais da lógica social e do problema que a define: o estabelecimento de acordos, a supressão de contradições. De modo que tratar da lógica abstração feita da crença e do desejo “é retirar dessa ciência sua razão de ser”. Na verdade a lógica social se divide em dois ramos37. A lógica trata de julgamentos diversos e agrupados que dividem entre si a soma de fé de um povo. A teleologia lida com as tendências ou vontades que apresentam um povo. Os dados da lógica e da teleologia sociais se mostram assim claramente. Trata-se de noções próprias a servir de sujeitos ou predicados afirmados ou negados em premissas ou conclusões (lógica), modos de ação ou satisfação a buscar ou afastar, próprios a servir de meios ou de fins (teleologia). Os raciocínios lógicos podem exprimir a crença pura, ao passo que os raciocínios teleológicos transmitem crenças e desejos combinados. Trata-se, no caso do silogismo teleológico, de silogismos nos quais “os autores não falam, ainda que ele preceda e governe cada uma das ações de nossa vida” (TARDE, 1895b, p. 134). Citemos um exemplo cuja simplicidade se faz fonte de clareza.
“Eu quero realizar minha salvação; ora o jejum é um meio de me salvar; logo devo jejuar”. Assim raciocina implicitamente o cristão cada vez que ele jejua. Se ele não toma o cuidado de o mais das vezes pronunciar a maior, é que o fim do qual se trata é estabelecido permanentemente e domina absolutamente sua vida. Um desígnio do qual somos possuídos serve de maior inconsciente a todos os raciocínios morais de onde se conclui uma obrigação (TARDE, 1895b, p. 134).
37 “Segundo prestamos atenção ao conflito, ao concurso de necessidades, ou ao conflito, ao concurso de
esperanças, fazemos da teologia ou da lógica social” (TARDE, 1890b, p. 219). Dito de outro modo, a relação da teleologia ou “lógica da ação, com a lógica propriamente dita ou lógica do pensamento, é precisamente aquela da crença com o desejo” (TARDE, 1897a, p. 263). Ao tratar dos silogismos teleológicos e não simplesmente lógicos uma complicação se introduz: há duas quantidades distintas a considerar, o grau de desejo (positivo ou negativo) e o grau de crença (positivo ou negativo) do qual esse desejo é objeto (TARDE, 1895b). Cabe observar que um desejo tem sempre uma crença por objeto. Ele não poderia apresentar-se separado dela. O que quer que seja, para ser desejado, tem de ser acreditado, objeto de fé. “O beberrão, o jogador, o devasso sem dúvida se instruiriam mais se frequentassem os museus e bibliotecas e não as espeluncas, os cabarés, os maus lugares. Mas eles se ligam àquele de todos os estados intensos do qual eles dispõem, que lhe concede o captar simultâneo o mais completo de todas as fibras de seu ser, o feixe de evidências o mais forte” (TARDE, 1880, p. 300). Como se o objeto do desejo fosse indiferente, contanto que acreditado, contanto que mobilizando as forças constitutivas da alma em direções determinadas que cabe à sociologia discernir no tecido socio-psicológico.
Esse modo de encarar os fatos sociais elementares em seu encadeamento por meio de operações silogísticas que mobilizam correntes de fé e de desejo conduz Tarde a definir uma sociedade qualquer como “um silogismo complexo, ao mesmo tempo lógico e teleológico” (TARDE, 1895b, p. 145). Suas maiores são o conjunto de ensinamentos reputados divinos ou vontades soberanas, dogmas ou leis, cujas menores são a cada instante fornecidas, para cada cidadão, por uma circunstância qualquer de sua vida que lhe designa ou aconselha uma nova aplicação do dogma ou lei em questão e, por fim, suas conclusões são tudo o que é julgado e decidido, tudo o que se diz e se faz conforme os princípios e máximas de um povo, ou seja, a quase totalidade das atividades e pensamentos de fermentação nacional.
Uma nação, disse, é um silogismo complexo. Mas o que é um silogismo complexo? É um sistema, ou, do ponto de vista teleológico, um plano. Um sistema, com efeito, é uma proposição geral ou um feixe de algumas proposições gerais que servem de maiores a um grande número de deduções silogísticas pelas quais explicamos os fatos quaisquer que se apresentam. Um plano é um fim ou grupo de fins ligados entre si (entrar à força na capital de um Estado, por exemplo, e conquistar uma ou duas de suas províncias) que servem de fundamento a um grande número de deveres práticos silogisticamente deduzidos dessa vontade-mãe numa ocasião qualquer. Quando silogismos possuem desse modo uma mesma maior, há sistema ou plano. Uma nação é, portanto, um verdadeiro plano e um verdadeiro sistema (TARDE, 1895b, p. 148).
Enumeremos alguns exemplos de deduções silogísticas dessa natureza. Um antigo escuta um trovão e diz que Júpiter está em cólera, caso ele veja um corvo voar à sua esquerda, prevê um mal que lhe ocorrerá; o barulho do trovão (menor) o fez lembrar a explicação mitológica do trovão (maior), talvez mesmo alguns versos de Homero em que essa teoria é formulada; o voo do corvo (menor) o fez lembrar o princípio geral dos livros de auguras sobre o significado do voo dos pássaros (maior). Um árabe encontra seu inimigo (menor), ele imagina que o costume ordena a vingança (maior), ele sente o dever de atirar em seu inimigo (conclusão). Se esse inimigo se transforma em hóspede de sua tenda, ele se lembrará de que a hospitalidade é recomendada pelo profeta e acreditará dever lhe oferecer uma xícara de café. “Todas essas maiores, que dominam de tão alto, como de montes, o escoamento cotidiano na bacia de uma cidade ou de um Estado, exprimem as teses ou injunções antigas, cujos autores são o mais das vezes esquecidos” (TARDE, 1895b, p. 146).
(...) em resumo, guerras ou alianças, conflitos ou acordos, tudo leva as sociedades às grandes aglomerações, às grandes centralizações, ou seja, à formação de sistemas majestosos cujas proporções aumentam e onde a Lógica social admira-se a si própria
em pirâmides de silogismos mais altos e mais fortes que qualquer tumba dos Faraós (TARDE, 1895b, p. 157).
Em seu aspecto puramente formal, as deduções silogísticas que Tarde observa como organizando do interior as correntes imitativas em nada se distinguem da definição aristotélica do silogismo38. Porém, o que se trata de afirmar é uma indissociabilidade e imanência absoluta da lógica e da vida psíquica, pulsional, que caracteriza as ações humanas. Tarde rejeita a forma pura para dar à “forma consistência ligando-a as forças que a subentendem e que por ela se exprimem” (SCHÉRER, 1999, p. 21). Erraríamos, confessa Tarde (1895b, p. 128) em “pensar nas palavras e não nos graus de crença, no corpo e não na alma de suas ideias”. Deixemos de lado pelo momento a teleologia e nos ocupemos estritamente da lógica social e dos graus de crença com os quais ela lida. Do que pretende se ocupar a lógica social? Das mudanças ou variações de direção e de intensidade de blocos de crenças ligadas a determinadas premissas ou proposições.
Há um limite a partir do qual não é mais possível aumentar ou diminuir o grau de crença em determinada direção sem que ela não mude de direção ou, propriamente, de proposição tomada como verdadeira. Esse “limite” é partidário de uma demarcação proposicional, de conteúdo, ou simplesmente de direção (positiva ou negativa) de uma mesma proposição. Ou seja, ele é demarcado pela possibilidade ou não de aumento ou diminuição em cada uma das direções sem uma contradição que implicaria seu abandono ou inversão da direção (afirmar o que era negado, negar o que era afirmado). O que compete à lógica é indicar o sentido, afirmativo ou negativo, e em cada um deles o grau da crença que seria preciso transportar de antigas proposições a novas proposições creditadas verdadeiras. Ela não nos obriga a enveredar nas discussões da realidade ou não do mundo exterior: “o grau de verdade de uma opinião é simplesmente o intervalo maior ou menor que a separa da
convicção máxima no mesmo sentido”39 (TARDE, 1895b, p. 116).
38 “O silogismo é um discurso no qual, sendo postas certas coisas, algo diferente desses dados resulta
necessariamente, por consequência apenas desses dados” (ARISTÓTELES, Primeiros analíticos, I, 1, 24b10). Ao definir uma nação como um silogismo complexo, Tarde não introduz na vida do homem em sociedade ações que derivam necessariamente de princípios e de leis, em suma, de premissas “exteriores”. Mas a ausência de algo que se configurasse como polo que imanta vontades em uma direção precisa faria falta à constituição de um acordo social. Essas premissas, afirma Tarde (1895b, p. 148), “são semelhantes a essas garrafas mágicas de onde é retirada uma infinidade de coisas que seu autor jamais colocou nela”. No mais, independente da contingência que se insinua na necessidade que se desprenderia de uma dedução silogística social o que interessa não é propriamente o conteúdo, a forma da premissa – essa pode ser ocupada por qualquer gênero de invenção ou descoberta que, sendo imitada, torna-se social –, mas sim sua função, a unidade de direção e a suplantação da contradição que ela introduz em um tecido social dado.
39 O espírito busca, à revelia de um objeto que fosse mais ou menos adequado ou convidativo a esse intento, uma
majoração da crença. Não há atividade sem um gasto de crença, verdade acreditada verídica. Haveria segundo Tarde (1895b, p. 124) uma espécie de pendor “instintivo” que coage o pensamento a marchar até que ele tenha
O objetivo de Tarde é tratar os movimentos das crenças deixando de lado o realismo ou não realismo dos “julgamentos verdadeiros”. A veracidade de uma proposição qualquer não se liga à adequação ao seu objeto, tampouco se define por uma lógica transcendental que se ocupa das condições e limites do conhecimento. Pouco importa, na verdade, “o que é” esse objeto investido de veridicção, pois a lógica tardiana se preocupa com a energia inter-psiquíca que incide sobre a proposição sob a forma de um julgamento positivo ou negativo, de determinado grau de intensidade e em determinada direção. Provar a realidade de um objeto qualquer por um suposto acordo de julgamentos “verdadeiros” realizados sobre ele ou provar a “verdade” desses julgamentos pela realidade suposta do objeto em questão não interessa à Tarde. Tudo o que desejei mostrar, afirma Tarde (1895b, p. 118), é que é importante “deixar à parte da lógica a questão do realismo e de dar por fim a essa ciência não a busca ou a revelação da verdade, mas a direção da crença”.
A lógica não é, portanto, nesse sentido, a arte de descobrir a verdade, mas a arte de mudar de pensamentos conservando, sem aumento nem diminuição, a distância que nos separa do verdadeiro e do falso. Nisso o problema que ela resolve é análogo aquele que resolve o traçado de um círculo: mover-se permanecendo a uma mesma distância de um mesmo ponto. Esse ponto em torno do qual gravita o espírito que raciocina em suas evoluções mentais é o maximum de crença inerente às percepções ditas imediatas (TARDE, 1895b, p. 119).
Uma ciência dessa natureza (exatamente na qualidade de ciência) lida com objetos passíveis de quantificação. Sabemos que não há outras quantidades psicológicas senão crenças e desejos. Lógica e teleologia sociais buscam então seguir e descrever a repartição e dispersão em direções distintas, ou a totalização em uma única direção, do capital energético de uma sociedade dada por meio de convicções ou atitudes que resultam de deduções silogísticas tais como acabamos de demonstrar. Um grupo social é prenhe de necessidades e de idéias criadas por invenções e acumuladas no tecido social pela imitação. As diferentes necessidades concorrem mais ou menos ao triunfo de um desejo dominante, do mesmo modo que as ideias entram mais ou menos em acordo ligando-se logicamente umas às outras ou não se contradizendo. O que implica a contradição de uma ideia ou crença, de um desejo ou necessidade, é o fato de uma delas implicar a negação do que a outra afirma. Quando são compatíveis, duas ideias ou crenças, dois desejos ou necessidades, é que elas não implicam negação mútua, quando se encontram em acordo é que por um número considerável de suas