Chapter 4: Interplay, dialogue, and challenge through dancing layers and drum languages
4.1. Drum languages and polarisation of meaning
A campanha experimental realizada nesta dissertação foi fundamental para avaliar as características das argamassas mistas de cal e terra no estado endurecido. Foi possível avaliar, de forma sistemática, a influência da substituição de cal por percentagens crescentes de terra nas argamassas com traço volumétrico 1:2.
Tornou-se muito interessante analisar o comportamento das argamassas com a evolução da idade de cura (dos 90 dias para 1 ano) com base em três tipos de provetes/aplicações diferentes – prismas de
6. Conclusões
argamassa, argamassas aplicadas sobre tijolo e sobre murete de taipa. De acordo com a natureza das argamassas formuladas, a aplicação e caracterização do reboco no murete de taipa tornou possível obter resultados mais próximos da realidade relativamente ao comportamento das argamassas face à influência do suporte com natureza semelhante e em condições adversas de exposição natural. Com este estudo foi ainda avaliada a influência da adição de fibras vegetais (em percentagens elevadas) e um pouco da influência de distintos traços (no caso 1:3).
Finalizada a presente dissertação, considera-se que foram cumpridos os objectivos inicialmente traçados de contribuir para um melhor conhecimento de argamassas mistas de cal aérea e terra. Seguidamente, são apresentadas as principais conclusões obtidas relativamente às argamassas com 1 ano de idade de cura e com traço volumétrico 1:2.
Os resultados da DRX mostraram que o mineral de argila maioritário na terra utilizada nas argamassas é a caulinite. Trata-se por isso de uma terra caulinitica. De igual forma, constatou-se que os resultados da análise mineralógica das argamassas são coerentes com as matérias-primas utilizadas. Verifica-se um aumento do pico da caulinite nas argamassas com maior percentagem de terra, em oposição à diminuição da portlandite com a substituição por terra. A caulinite possui uma restrita capacidade de troca de catiões e, em consequência deste facto, tanto aos 90 dias como 180 dias/1 ano não houve formação de novos compostos devido a qualquer reacção entre a cal aérea e a terra caulinítica. Adicionalmente, as condições de cura das argamassas (65% de humidade relativa) poderão também não ter sido as mais aconselháveis para favorecer a reacção pozolânica, a qual exigiria a presença de maior humidade. Verifica-se ainda que a reacção de carbonatação ocorreu até aos 90 dias de idade, uma vez que, o teor de portlandite manteve-se praticamente constante a partir dessa idade. Este facto é muito importante, uma vez que indica que os 90 dias de idade de cura são uma idade bastante representativa para a realização da caracterização química e mineralógica das argamassas.
De acordo com as resistências mecânicas (compressão e tracção) e o módulo de elasticidade dinâmico, verifica-se que os valores obtidos são baixos, globalmente inferiores aos da argamassa só de cal aérea (argamassa de referência). Esta tendência é validada nos provetes prismáticos e nos rebocos do murete de taipa.
Constata-se que houve também uma diminuição das resistências com a evolução da idade de cura, associado a uma diminuição dos teores de calcite nas argamassas, comprovado pelo ensaio de dTG. Este facto desperta curiosidade no sentido de perceber o que se passou nas argamassas que estão temporalmente afastadas relativamente à idade de cura (9 meses). Contudo, com a introdução de fibras vegetais nas argamassas mistas , nas dosagens elevados que fora utilizadas, não se constatou alterações significativas nas resistências mecânicas ao longo da evolução da idade de cura. Esta situação pode comprovar que a introdução das fibras (alterando a estrutura porosa e a quantidade de pasta num mesmo volume de argamassa) possibilitou uma carbonatação bastante avançada das argamassas logo aos 90 dias de idade.
Apesar dos factos acima mencionados, de acordo com estudos anteriores (Veiga, 2010) os valores obtidos são compatíveis com a utilização das argamassas em rebocos exteriores e interiores, mas não para refechamento de juntas. No entanto, dadas as características mecânicas das paredes de terra, nomeadamente taipa ou alvenaria de adobe, que apresentam grande deformabilidade e baixos valores de resistência à compressão, verifica-se que as argamassas com terra caulinítica são adequadas para este tipo de paredes. Esses factos justificam também a necessidade de escolher argamassas com propriedades semelhantes à alvenaria na qual vai ser aplicada.
A terra quando empregue como material de construção numa argamassa, para além da redução do impacto ambiental e energético, contribui também para a qualidade do ambiente interior. Em boa verdade consta-se uma diminuição da condutibilidade térmica nas argamassas mistas de cal e terra, tanto nos provetes prismáticos como nos provetes de argamassa aplicada sobre o tijolo. Globalmente, as argamassas em estudo com 10% e 25% de terra caulinítica são as que apresentam vantagens, com valores de λ inferiores à argamassa de cal, muito embora esta vantagem seja reduzida face à espessura de aplicação de rebocos.
O comportamento das argamassas relativamente à água tem uma influência directa nos mecanismos de degradação das alvenarias. Os fenómenos de humidade são considerados um dos maiores perigos que pode afectar as construções em terra. A absorção de água pelas argamassas e a sua capacidade de promover uma rápida expulsão da água por evaporação são uma das mais importantes características. Os ensaios laboratoriais de absorção de água por capilaridade e secagem realizados revelam que as argamassas mistas com terra são bastante favoráveis, com especial ênfase para a argamassa com 25% de terra caulinítica. Esta argamassa tem o menor valor assimptótico e um dos menores coeficientes de absorção. As argamassas com 25% e 50% de terra caulinítica beneficiam de uma rápida secagem, sendo este um resultado muito satisfatório. Pela comparação dos resultados obtidos nos três tipos de provetes (primas, argamassas aplicadas sobre tijolo e sobre o murete de taipa) a tendência identificada foi consensual, ou seja, os resultados obtidos são claramente vantajosos relativamente à argamassa de cal com terra caulinítica. A introdução de fibras vegetais nas argamassas, nas dosagens elevadas que foram utilizadas, promove absorção de maior quantidade de água e, simultaneamente, torna a secagem um processo mais lento. Globalmente, o comportamento das argamassas em relação à absorção de água por capilaridade e à secagem, melhorou significativamente com a evolução da idade de cura. Contudo, o ensaio de resistência aos sulfatos revelou que a introdução de terra conduz a uma diminuição de resistência.
É importante conhecer a estrutura porosa das argamassas. De acordo com os resultados experimentais da porosimetria de mercúrio, é possível concluir que nos primas, com evolução da idade, existe uma diminuição da quantidade de poros com menor diâmetro e um aumento da quantidade de poros de maiores dimensões nas argamassas com maior quantidade de terra. Genericamente, nas argamassas aplicadas nos suportes (alvenaria de tijolo e murete de taipa) verifica- se a mesma tendência. O aumento da quantidade de terra caulinítica introduzida nas argamassas
6. Conclusões
conduz, por um lado, ao aumento da quantidade de poros de maior diâmetro e, por outro, à diminuição do número de poros com menor diâmetro.
Os resultados anteriores contribuem para melhor compreensão do comportamento das argamassas mistas de cal e terra caulinítica, perante a presença de água. O aumento da quantidade poros com maiores dimensões está estreitamente relacionado com absorção de maior quantidade de água no ensaio com os tubos de Karsten e maior facilidade de secagem. Por outro lado, a diminuição da quantidade de poros com menor diâmetro (poros capilares) conduz a menores valores de CC (coeficiente de capilaridade) nas argamassas mistas comparativamente à argamassa de cal.
Foi muito importante a realização dos ensaios no reboco do murete de taipa pois aproxima o presente estudo da realidade e do comportamento efectivo das argamassas aquando da sua aplicação em taipa.
Em suma, tendo em conta todos os resultados obtidos, conclui-se que a argamassa com 25% de terra caulinítica mostrou ser bastante competitiva em relação à argamassa de referência, revelando vantagens acima enumeradas. As características específicas destas argamassas mistas (boa deformabilidade, baixa resistência, boa dureza superficial e um bom comportamento face à água) classificam-nas como adequadas para revestimentos de construções em terra e também de edifícios antigos com características mecânicas semelhantes. Considera-se, assim, que as argamassas mistas de cal aérea e terra poderão ser eficientes na reabilitação de edifícios antigos, sobretudo em edifícios com paredes onde a terra já tinha sido utilizada para a sua execução. A utilização destas argamassas mistas em construção nova com alvenaria de terra será também, certamente, uma solução eficiente nomeadamente ao nível da execução dos rebocos exteriores.
Para além das vantagens efectivas apresentadas ao longo das conclusões, as argamassas mistas de cal e terra possuem menor energia incorporada do que argamassas só de cal aérea, que, já de si, são mais sustentáveis que muitas outras argamassas produzidas a partir de ligantes produzidos a temperaturas superiores, tal como o cimento. Com efeito, a terra pode ser obtida localmente, necessitando de um destorroamento e naturalmente de uma caracterização mineralógica , de modo a conhecer a sua composição. Estes factos espelham as vantagens económicas e ambientais da utilização da terra como material e construção.
Com base na parte inicial da presente dissertação, foi realizado um poster para a Conferencia Internacional de Arquiterctura Vernacular – CIAV 2013, intitulado “Characterization of Air Lime- Earth Blended Mortars” (vide Anexo). Foi também realizado e apresentado publicamente o artigo “Caracterização de argamassas de cal aérea e terra”, no I Simpósio de Argamassas e Soluções Térmicas de Revestimento em Coimbra. Este artigo está incluído no CD, editado com as Atas do Congresso (vide Anexo). Pretende-se ainda disseminar os resultados complementares obtidos neste trabalho através de futuras publicações.