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Driver Trip - Replicated Fouling

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Mas, afinal, de que tradução se trata aqui? O que é essa tradução de Rosenzweig que nos ocupará ao longo de todo este trabalho? Busquemos obter aqui uma primeira impressão.

Trata-se, desde logo, é claro, da tradução do grande texto literário. Da obra que, canônica ou revolucionária, clássica ou limite, sempre se lerá ao longo do tempo.

A tradução daquilo que, quem dera, a tradução fosse desnecessária, quem dera, o leitor da outra língua falasse a língua do original. Mas não fala. E por isso— melancolicamente—o tradutor encara a tarefa, cumpre o dever, traduz.

Na epígrafe do “Posfácio” do Yehuda Halevi, Rosenzweig (1995, p. 169) cita uma nota de um certo Friedrich Leopold von Stolberg, tradutor da Ilíada:

Oh, caro leitor, aprende o grego, e atira às chamas

esta minha tradução. [apud Rosenzweig, 1995, p. 169].

E numa carta de 1921 a Gershom Scholem, outro importante tradutor do hebraico, Rosenzweig comenta acerca da tradução que fizera da prece judaica para antes da refeição, o Tischdank:

Se acontece de algum convidado judeu poder apenas ler o hebraico [foneticamente, sem entender o que lê], [...] eu não menciono a existência da minha tradução. O hebraico, mesmo sem ser entendido, lhe proporciona mais do que a melhor das traduções (Rosenzweig, apud Glatzer, 102).

A última frase acima é difícil, perigosa mesmo, e talvez seja uma das mais melancólicas e paradoxais vindas da boca (ou da pena...) de um tradutor. Para elucidá- la deveremos aguardar até o Cap. 5 (sec. 4.1, pp. 128-129) quando tivermos analisado o que possa ser uma “língua sagrada”, e como entender, nos tempos atuais, a própria noção de um “sagrado” (Cap. 4, sec. 4, pp. 94-97). Mas Rosenzweig continua:

Na medida em que falamos o alemão não podemos evitar esse desvio [i.e., a tradução para o alemão] que [...] nos faz, a duras penas, retornar do que nos é alheio ao que nos é próprio. Nossa única certeza é de que acabaremos [por

esse desvio] chegando afinal até lá. Um “afinal” que pode, é claro, chegar a

qualquer hora. Caso contrário seria de fato insuportável (id.; vide tb uma outra afirmação de Rosenzweig nesse sentido em Oliveira, 2000, p. 117).

E Rosenzweig, ao que tudo indica, “chegou até lá”. Produziu pouco depois uma inigualada tradução de poemas de Halevi (Galli, 474), e mais tarde com Buber, uma tradução da Bíblia hebraica que é muito apreciada. Como eram essas traduções?

No caso da tradução do Halevi um incentivo de Buber, no momento certo, teve um papel fundamental para que esse trabalho fosse levado a cabo por Rosenzweig (e, a posteriori, para que o próprio trabalho de tradução da Bíblia acontecesse). As circunstâncias em que esse incentivo se deu, estão relatadas em carta de 1922 a Margarete Sussman, e são reveladoras:

[...] e preciso de outros que me digam que algo, finalmente, foi conseguido. No momento crítico [para o Jehuda Halevi] esse ‘outro’ foi Buber. Sem ele o livro jamais chegaria a ser escrito. [...] eu o traduzi [o primeiro poema de Halevi que Rosenzweig traduziu], e vivi logo a experiência que aparentemente vem junto

com traduções como essa: as três mulheres importantes na minha vida, que

por acaso se achavam reunidas à volta daquele novo produto, unanimemente

julgaram-no “terrível” e fizeram pouco de mim. E me aconteceu a mesma

coisa que tem acontecido desde então: eu quase acreditei nelas, mas, só por conta de ter também uma opinião externa, enviei a tradução a Buber, que salvou o poema e o livro que dele nasceu (apud Glatzer, 123, grifos meus, itálico de Rosenzweig).

Em três palavras: um insuportável estranhamento. Considere-se agora este outro trecho, mais longo, do “Posfácio” à tradução de Halevi, que se inicia com um ataque contra os tradutores “germanizantes”, aqueles que evitam a todo custo o estranhamento:

Traduzem como quem não tem nada a dizer. Quem nada tem a dizer, nada exige da língua. E a língua, da qual quem a fala nada exige, entra em torpor,

torna-se tão somente um meio de comunicação do sentido, um Esperanto

qualquer. Quem tem algo a dizer, vai dizê-lo de uma maneira nova. torna-se

um criador da língua. Após tê-lo dito, a língua ganha nova face. O tradutor torna-se o porta-voz da voz estrangeira, a qual se torna audível transpondo

um abismo no espaço e no tempo. Se a voz estrangeira tem algo a dizer, então a língua se torna uma outra língua, diferente da que era até então. É esse o critério da tradução bem sucedida. é totalmente impossível que uma língua

na qual shakespeare, ou Isaías ou dante tenham, de fato, falado, permaneça intocada. Ela sofrerá uma renovação como se uma nova voz, autóctone, surgisse.

Ou maior ainda. Porque o poeta estrangeiro traz para a nova língua não apenas aquilo que ele próprio tem a dizer. Ele carrega também consigo, para a outra

língua, toda a herança do espírito lingüístico universal que está presente em sua língua (Rosenzweig, 1995, p. 171, grifos meus).

Eis aí um “criador da língua”, que não se atenta a uma “língua em torpor”, não quer saber só de um mero “meio de comunicação do sentido”.

Mas Rosenzweig não fica só no grandioso. Detalha, como veremos em mais detalhe no Cap. 5, também os ossos do ofício, o suor da tarefa. Discute acróstico e

rima (id., 174). Diz com todas as letras que o desprezo à rima nas traduções alemãs da poesia de Halevi até então deveu-se “à mais inqualificável preguiça, pura e simples” (id.). Descreve detalhadamente como se formaram “os dois elementos da métrica hebraica, uma espécie de iâmbo de uma sílaba silenciosa e uma sílaba tônica e mais uma sílaba tônica que pode ser aumentada em duas, três [..] e até num maior número”, para concluir que “dessa forma a chamada ‘falta de naturalidade’ dessa métrica hebraica pode ser entendida” (id., 175). E assim

a tarefa do tradutor é a de construir versos em alemão que forcem esse nível de tonicidade e superem a inclinação natural da língua alemã pelo iambo, o trocaico, e em certa extensão o dactílico, e em todos os casos os ritmos anapésticos [...] (id., 176).

Em outras palavras, falar o hebraico em alemão. Traduzir para que fale, e para que se faça ouvir, a “voz estrangeira” do outro.

O tradutor que Rosenzweig advoga, o “criador da língua” que não se atém somente a “um meio de comunicação do sentido”, não teme, portanto, o estranhamento que, p. ex., a atenção a acróstico, rima e métrica da língua de partida trarão ao seu leitor. Pelo contrário, considera essa atenção fundamental e se compraz no estranhamento que ela possa causar.

Ao comentar um aspecto do “novo pensamento” de Rosenzweig—aspecto que discutiremos mais adiante em conexão com Walter Benjamin—, Galli expressa bem o que se passa nessa tradução:

For the speech-thinking method, the belief that any language has its own resources for being stretched and for accommodating alien utterances is the key to translating [...]. The visible, tonal, audible differences evident in content and form between any target language’s present expression and it’s capacity for expression in the face of the source language are the important things to be detected by the listener, the translator. The [...] translator who wishes to speak as the one to whom he listens, [...] forsees, forhears, in his or her own language territory the possibilities for the cultivation of verbal expression. He picks up from what is already realized in the source language that which is about to be unearthed from the target language’s soil. (Galli, 1995, p. 361).

Qual tradução então? Uma tradução que escuta a voz estrangeira—a voz que é outra—antes de falar, e que se constrói num esforço de diálogo entre as línguas.

5. FILosoFIA/tEoLogIA E PRátICA dE tRAduÇÃo: o MACRo, o MEso E o MICRo dA tRAduÇÃo dIALógICA.

Numa das duas únicas referências explícitas à tradução que faz em A Estrela

da Redenção, Rosenzweig, no contexto de sua análise do cristianismo, apresenta-a

como estando associada ao Espírito no milagre de Pentecostes:

O efeito primeiro do Espírito é traduzir, construir a ponte entre homem e homem, entre língua e língua. A Bíblia deve certamente ser o primeiro livro a ser traduzido e [o texto traduzido] deve ser considerado igual [em status] ao texto original. Por toda parte Deus fala com as palavras do homem. E o Espírito faz ver que o tradutor, aquele que ouve e que transmite, sabe-se igual ao que pela primeira vez falou e recebeu a palavra (Rosenzweig, 1970, p. 366).

Assim, é no contexto da comunicação do divino com o humano que a tradução primeira deve se dar, a tradução do relato dos eventos fundadores da Revelação de Deus ao seu povo5. Uma tradução, portanto, que é mandatório que seja feita (vide

Oliveira, 2000, p. 83), e feita de forma tal que alcance o mesmo status do original, já que deve propiciar a quem a lê o mesmo que o original propicia: que “Deus fale com as palavras do homem” de forma a que a Revelação que se deu na história do povo venha a ocorrer também, como evento fundador, na história de vida de cada indivíduo ao longo do tempo.

Tem-se assim, na definição do objetivo a ser alcançado, uma definição

“macro” do que vem a ser a tradução dialógica a que se dedicam Buber e Rosenzweig: traduzir de forma tal que o texto traduzido propicie a Revelação. E, nessa medida,

a tradução de Rosenzweig é inegavelmente uma “aplicação prática” da filosofia de A

Estrela. Mas, nessa mesma medida, essa aplicação dá-se exclusivamente no âmbito

da relação do humano com o divino. A tradução é ademais feita a partir de uma língua morta que, ao menos àquela época, praticamente inexistia como veículo de efetiva comunicação “secular”, inter-humana. E que por isso podia ser tida, em bloco, como uma “língua sagrada”.

O que é uma “língua sagrada”, ou o que seja “o sagrado” na língua, serão objeto de discussão mais adiante, respectivamente nos capítulos 5 e 4. O que de toda forma caracteriza o texto traduzido por Buber e Rosenzweig como sendo, enquanto texto, uma tradução dialógica—e com isso vai aqui uma definição meso—é o fato de tratar- se de um exercício de esticamento do potencial expressivo da língua de chegada

com vistas a transportar para ela um poder expressivo reconhecido pelo tradutor na língua de partida, como visto logo acima, ao final da seção anterior. E nisso a

5 Tem-se aí nesse trecho, portanto, no “tradutor [...] [que] sabe-se igual ao que pela primeira vez

falou e recebeu a palavra”, mais um paralelo entre as reflexões sobre a tradução de Rosenzweig e as de um mestre da tradição tradutória alemã. No caso, o paralelo é com “o tradutor [que] é um profeta entre seu povo” de Goethe. Conf. a epígrafe do Cap. 1 acima.

questão básica é a definição do limite máximo admissível para um tal “esticamento”, o que Rosenzweig chama de “fronteiras de possibilidade lingüística” (Rosenzweig, 1926 in Buber e Rosenzweig, 1994, p. 65).

No entanto, é a partir do aspecto “micro”, o da aplicação das técnicas de

tradução, que tudo isso se dá. É preciso, portanto, que busquemos entender a gênese

das técnicas. Como, e por que, em Buber e Rosenzweig uma filosofia (não relativista) e uma epistemologia (que considera a noção teológica de Revelação como uma categoria válida e fundamental para aquisição do conhecimento) acabam redundando tanto na formulação da técnica, quanto na solução prática dada a cada específico problema de tradução. Como, em outras palavras, a tradução dialógica cujas características reconhecemos como que “de fora para dentro” na seção anterior, acontece, se dá, agora “de dentro para fora”, a partir da filosofia e da teologia dos tradutores Buber- Rosenzweig.

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