Devemos agora considerar em Paul Ricoeur suas reflexões sobre a tradução. Isso será feito de um modo indireto. O texto mais recente de Paul Ricoeur a respeito está no prelo. Ele retoma a argumentação do único texto anterior (1999) sobre esse assunto, texto que é de difícil acesso. Entretanto, um volume recém publicado em homenagem aos 90 anos do autor (d’Allones e Azouvi, 2004), inclui uma excelente contribuição de Marc de Launay (de Launay, 2004), tradutor do alemão e scholar em Rosenzweig. Nesse artigo de de Launay a visão de Ricoeur acerca da tradução, conforme apresentada em seus dois textos, é discutida, e suas conseqüências desenvolvidas.
O fato de que a tradução, essa prática tão rebelde a toda teorização, seja um fenômeno permanente e pervasivo em todas as culturas—embora ela tenha, em cada uma dessas culturas, períodos de maior ou menor visibilidade—o fato, enfim, de que “sempre se traduziu”, leva Ricoeur a favorecer uma “alternativa prática, a alternativa fidelidade versus traição” à “alternativa teórica: traduzível versus intraduzível” (Ricoeur apud de Launay, 86).
E se a linguagem é uma faculdade humana universal “eis aí uma competência universal desmentida por suas performances locais, desmentida por sua efetivação estilhaçada, disseminada, dispersa”. Mas não há nisso nada de enigmático, e só vêm nesse fato um “mistério” aqueles a quem Ricoeur denomina os “metafísicos da tradução” (id.).
Esses “metafísicos” se dividem entre duas posições opostas, e ambas exageradamente radicais: para uns—e aqui se encaixam Benjamin e Rosenzweig—há uma “diversidade contingente, e portanto transitória, entre as línguas”, para outros “a irredutibilidade é permanente” (id.). A realidade trata de desmentir/confirmar ambas as posições, seja, por um lado, pelo fato histórico da interpenetração entre idiomas que acaba resultando numa nova língua, seja, por outro, pelo desbordamento constante dos limites de cada língua em direção aos tecnoletos que ultrapassam as fronteiras da maior parte das assim chamadas “culturas”.
Há nessas duas posições opostas, diz-nos Ricoeur, uma radicalização que falseia
as duas reais tendências que, essas sim, estão permanentemente presentes em toda
tendências presentes em toda língua”, uma das quais é, digamos, “não semântica” é um primeiro ponto de Ricoeur importante para o presente estudo.
Mas, diz-nos mais Ricoeur, é na dinâmica imbricada dessas duas tendências que trabalha a tradução, “traição criativa do original, apropriação igualmente criativa
pela língua de chegada: construção do comparável” (id. 88).
Ademais, para Ricoeur—como para tantos—, o intraduzível é, normalmente, apenas uma designação para o texto original que aquele determinado tradutor não foi capaz de re-escrever na língua de chegada. O impossível para um será talvez, mais tarde, o grande feito de um outro. Ademais, o intraduzível, mesmo o efetivamente intraduzível que não é conseqüência de uma inabilidade específica, (quase) nunca é o inexplicável. Haverá sempre a nota de tradução, que, por mais extensa, poderá (quase) sempre explicar o que não foi possível traduzir, ou seja, re-escrever.
Essas segunda noção de Ricoeur da tradução como uma re-escritura que é
construção de um comparável será importante para o presente trabalho. No nosso caso,
como se verá, a “construção” tem inclusive uma conotação de bastante concretude, como, p. ex, em “construção civil”: cada específica aplicação sub-textual de uma determinada técnica de tradução é como que um building-block da solução tradutória “total”, o texto traduzido. E o “comparável” refere-se a uma comparação que faz corresponder, em nosso caso, a tarefa do tradutor ao ato existencial de comparar vivências. Mas estamos aqui nos adiantando.
Com essa consideração de dois autores, Buber e Ricoeur, cujos conceitos nos auxiliarão a reflexão, encerramos este primeiro capítulo. Nele examinamos em largos traços a vida e a obra de Rosenzweig, e obtivemos uma primeira visão do seu speech
thinking.
No que concerne ao todo da obra, pudemos reconhecer uma dicotomia, ou um certo “desbalanceamento”, que pende em favor de um “teologizado” estudo da comunicação divino-humana.
Isso, como foi visto, não facilita o trabalho de quem, como é aqui o caso, estará mais interessado pelo aspecto inter-humano e “lingüístico” do speech thinking, em especial a prática de tradução que Rosenzweig desenvolveu.
Passemos agora, no capítulo seguinte, a uma primeira consideração da tradução dialógica de Franz Rosenzweig, buscando inclusive entender de que forma ela emana da filosofia.
CAPÍtULO 2
tRAduÇÃo dIALógICA
When we were translating the Bible I laid down the following rules for those who helped me: First: the Holy Scriptures speak of divine words and objects. Second: if a proverb or an expression fits in with the New Testament, use it. Third: pay attention to grammar.
Martin Luther (1532) (trad. André Lefevere, 1977)
1. INtRODUçÃO
No presente capítulo se faz uma primeira aproximação da tradução dialógica de Franz Rosenzweig, que será aprofundada em próximos capítulos.
Inicialmente, a tradição na qual essa prática tradutória se insere e a proximidade de Rosenzweig com a reflexão de alguns dos mestres dessa tradição é apontada (seção 2). A seguir é indicada uma importante coincidência, de tempo e de conteúdo, entre o momento inicial da reflexão tradutória mais madura por parte de Rosenzweig e a primeira formulação sistemática das idéias que redundaram em A Estrela da Redenção (seção 3).
Posteriormente, as características da tradução dialógica são apresentadas numa primeira aproximação (seção 4). O embasamento desse trabalho de tradução num objetivo filosófico-teológico maior é então argumentado (seção 5), e a seguir detalhado a partir das reflexões tradutórias de Buber-Rosenzweig, de forma a que se comece a entender como a filosofia e a teologia vieram a determinar o desenvolvimento das inovadoras técnicas tradutórias que constroem o texto traduzido (seções 6, 7 e 8).
O capítulo se encerra com uma formulação de várias questões que a reflexão tradutória de Rosenzweig suscita, e que deverão ser respondidas nos capítulos seguintes.