Quando o aprendente se comunica numa LE, essa comunicação exolíngue revela a língua que está na interseção da LM e da LE: a “interlíngua”. Conforme os indivíduos e o tipo de intervenção pedagógica, a interlíngua estará mais ou menos distante da língua-alvo. Entretanto, vários professores não dão importância a essa língua provisória dos alunos e censuram seus enunciados. Com essa atitude, eles desencorajam os aprendentes e perdem a oportunidade de conhecer a riqueza da interlíngua, que também é chamada de “sistema aproximativo”, “competência transitória”, “dialeto idiossincrásico”, “sistema intermediário”, “sistema aproximativo de comunicação”, “língua do aprendente ou sistema aproximado” (Cf. BESSE; PORQUIER, 1991, p. 216), “competência intermediária”, “lectes de aprendentes” etc. A variedade dos termos já mostra sua importância nas pesquisas em Linguística e em DDL.
O termo inglês interlanguage e a noção de interlíngua são atribuídos a Selinker (1972 apud CUQ, 2003, p. 140), que considera a interlíngua uma estrutura psicológica latente ativada, na fase de produção, por um aprendente adulto de LE.
Vogel define a interlíngua como “a língua que um aprendente de uma língua estrangeira constrói na medida em que ele entra em contato com elementos da língua-alvo,
50 Texto original : par les moyens langagiers et éventuellement autres [...] mis en oeuvre dans cette situation, et
par le déroulement même de l’interaction construite (CUQ, 2003, p. 98).
51 Grandcolas (idem, p. 72) exemplifica essa afirmação com as saudações, os pedidos de informação sobre os
ausentes e as observações sobre o tempo ou sobre os programas de televisão da véspera.
52 Texto original : un grand nombre des énoncés qui pourraient être pratiqués dans ce cadre peuvent se transférer
sem, contudo, que ela coincida totalmente com essa língua-alvo” (1995, apud PUREN, 1997, p. 71)53. Ele explica que a interlíngua é composta pela LM, pela língua-alvo e, eventualmente, por outras línguas estrangeiras adquiridas anteriormente.
De acordo com Besse e Porquier (idem, p. 216), a interlíngua – ou “gramática interiorizada”, na terminologia desses autores – é “um objeto de pesquisa, de descrição e de análise mais complexo que o objeto delimitado pela análise dos erros”54, pois essa se interessa
pelas produções e às vezes pelos erros de compreensão, enquanto que o estudo das interlínguas não se prende somente às performances. Ele vai além, procurando descrever as gramáticas interiorizadas que se revelam nas atividades linguageiras.
Segundo Vogel (1995, apud PUREN, 1997), é a “complexidade” que define melhor a interlíngua:
1- Ela é diversificada e variada: ela depende das estratégias individuais de aprendizagem, das pressões institucionais e do tipo de tarefa realizada. Para Besse e Porquier, para se identificar as regras subjacentes à gramática interiorizada dos alunos, é preciso levar em conta sua dinâmica e se apoiar nos depoimentos do aprendente, “cuja intuição verbalizada ou comentários explícitos, formulados em termos metalinguísticos, ajudam a precisar ou modificar as hipóteses iniciais de descrição do pesquisador ou do professor” (1991, p. 222).55
2- Ela é heterogênea: ela toma emprestado tanto do sistema da LM e da língua aprendida como, eventualmente do sistema de outras segundas línguas e é constituída por uma variedade de subsistemas relativamente autônomos. De acordo com Besse e Porquier (idem, p. 225), à medida que a interlíngua se aproxima da língua visada, “ela parece poder ser considerada com referência a essa língua-alvo, até mesmo como uma variedade dessa língua- alvo, com a qual partilha, por definição, determinado número de regras”56. Porém, de acordo com os autores, não podemos descrever a interlíngua com referência a uma língua-alvo padrão nem a uma de suas variedades, sob pena de recairmos na problemática da “análise dos erros”. Da mesma forma – segundo eles – é impossível descrever uma interlíngua como o resultado exclusivo da soma de regras da LM e da língua visada ou “considerar que a
53 Texto original: la langue qui se forme chez un apprenant d’une langue étrangère à mesure qu’il est confronté à
des éléments de la langue cible, sans pour autant qu’elle coïncide totalement avec cette langue-cible (VOGEL, 1995 apud PUREN, 1997, p. 71).
54 Texto original: un objet d’investigation, de description et d’analyse plus riche et plus complexe que celui
délimité par l’analyse d’erreurs (BESSE ; PORQUIER, 1991, p. 216).
55 Texto original : dont l’intuition verbalisée ou les commentaires explicites, formulés en termes
métalinguistiques, aident à préciser ou modifier les hypothèses initiales de description du chercheur ou de l’enseignant (BESSE ; PORQUIER, 1991, p. 222).
56 Texto original : elle semble pouvoir être envisagée en référence à cette langue-cible, voire comme une variété
de cette langue-cible, dont elle partage par définition un certain nombre de règles (BESSE ; PORQUIER, 1991, p. 222).
interlíngua se reduziria ao sistema de regras eventualmente comuns às duas línguas, o que explicaria seu caráter supostamente ‘simplificado’” (p. 225)57, como veremos na 5ª característica.
3- Ela é instável: ela só existe na mente do aprendente e depende particularmente de seu grau momentâneo de motivação e de atenção. De acordo com Besse e Porquier, “a variabilidade aparente pode igualmente expressar um estado transitório58, logo dinâmico da
gramática interiorizada: ela é, assim, o traço da instabilidade no tempo da interlíngua” (idem, p. 222)59.
4- Ela é por si só contraditória: os conflitos de hipóteses opostas constituem o próprio motor da aprendizagem. Com suas pesquisas sobre a aquisição de ser ou estar em espanhol, J. Giacobbe e M. Lucas (1980, apud BESSE; PORQUIER, 1991, p. 226) concluíram que os sistemas intermediários construídos pelos aprendentes constituem sistemas hipotéticos, funcionando como filtros que dão um sentido ao material linguístico selecionado pelo aprendente. Assim, tomando como base sistemas previamente estabelecidos, os alunos constroem, por dedução, as hipóteses de seu sistema intermediário.
5- Ela não é um produto que se possa descrever objetivamente do exterior, como o é uma língua constituída, porque ela é um sistema aberto do qual o próprio utilizador é parte integrante. A interlíngua tem, assim, uma coerência interna e uma complexidade progressiva (salvo nos casos de fossilização60 e de regressão). O aluno seleciona, entre os dados linguageiros disponíveis, esquemas e formas que lhe ajudarão a construir sua gramática interiorizada. Nesse processo, “as operações subjacentes podem, com efeito, ser diferentes, mas igualmente tão complexas quanto ou até mais que aquelas supostas pelo professor” (BESSE; PORQUIER, 1991, p. 224)61.
57 Texto original : considérer que l’interlangue se réduirait au système de règles éventuellement communes aux
deux langues, ce qui expliquerait son caractère prétendument “simplifié” (BESSE ; PORQUIER, 1991, p. 225).
58 Corder (1967, apud CUQ 2003, p. 140) denomina “competência transitória” o sistema de regras de uma
determinada língua interiorizada por um locutor-aprendente não nativo dessa língua. O termo competência remete “ao sistema lingüístico interno, individual de um aprendente” (CUQ, idem).
59 Texto original: la variabilité apparente peut également refléter un état transitoire, donc dynamique de la
grammaire intériorisée : elle est alors la trace de l’instabilité dans le temps de l’interlangue (BESSE ; PORQUIER, 1991, p. 222).
60 A interlíngua pode, a qualquer estágio, fossilizar-se. Segundo Springer (1999, p. 50), “o aluno exerce, apesar
de dificuldades reais, um conjunto de controles sobre sua mensagem: retomada, mudança de frase, modificação e autocorreção”. Ele se encontra, portanto, numa dinâmica de comunicação e lança mão de diferentes estratégias “ainda que globalmente ele utilize estratégias de evitamento que poderiam impedir-lhe de melhorar sua interlíngua – fala-se, então, de fossilização” (idem).
61 Texto original: les opérations sousjacentes peuvent en effet être différentes mais également aussi complexes,
Essas características são suscetíveis de dar uma visão global das múltiplas facetas das interlínguas que o aprendente constrói ao longo de suas aquisições em LE. As contribuições mais importantes dos estudos sobre as interlínguas para a DDL residem nestes dois pontos:
1) A noção de “sistema provisório” permite um novo olhar sobre as produções (orais e escritas) dos alunos, ajudando os professores a
enxergar as produções e os erros de aprendentes como representativos e ilustrativos de um sistema ao mesmo tempo estruturado e em via de estruturação e de reestruturação, e [a] ir além dos contatos ou das práticas que se limitam à correção pontual de erros ou a caçar interferências da língua materna (CUQ, idem, p. 140).62
2) Para que o aluno progrida em direção a uma performance63 mais próxima da língua- alvo, passando para uma outra fase de operacionalidade, o ensinante que se apoia nesta noção de interlíngua interpreta, inicialmente, os erros, tentando compreender sua lógica intrínseca. Em seguida, ele planeja atividades mais apropriadas às performances que espera do aprendente. No que se refere à PO, por exemplo, sabe-se bem que, na maior parte do tempo, “o problema não é somente os erros na utilização do código, mas a falta de treino para a gestão complexa do uso da palavra” (SPRINGER, 1999, p. 50)64, como nos mostrou nossa pesquisa de campo (Cf. 3.3.1).