conservação
Paula Monteiro
Divisão do Laboratório José de Figueiredo - DGPC
resumo
No âmbito das Jornadas de Arqueologia 3.0 denominadas “Da investigação ao 3D. Gestão, Inovação e Divulgação em Arqueologia” foi proposto ao Laboratório José de Figueiredo (LJF) a apresentação de um caso de estudo resultante da sua colaboração com o Museu Nacional de Arqueologia (MNA), Lisboa. A premência da intervenção de conservação de uma múmia de falcão, da coleção egípcia do MNA, foi desencadeada pela fragilidade das faixas e a presença de uma substância cristalina e pulverulenta. Neste sentido, mediante a colaboração científica entre o LJF e o Laboratório HERCULES, foram realizadas análises laboratoriais com- plementares, nomeadamente através de micro Espectroscopia de Infravermelho com transformada de Fourier (µ-FTIR), microscopia eletrónica de varrimento acoplada com espectroscopia de raios X por dispersão de energia (SEM-EDS) e por pirólise seguida de cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massa (Py-GC-MS), auxiliares no estudo técnico-material e na intervenção de conser- vação.
palavras-chave: faixas, consolidação, múmia de falcão
aBstraCt
In the context of the Archeology workshop 3.0 entitled “From research to 3D. Management, Innovation and Dissemination in Archeology” the Laboratório José de Figueiredo (LJF) was contacted to present a case study of a collaboration with the Museu Nacional de Arqueologia (MNA), Lisbon, in the conservation treatment of a hawk mummy.
The fragility of the bandages and the presence of a powdery crystalline substance had triggered an emergency conservation project in this animal mummy, from the Egyptian collection of the museum.
The scientific collaboration between the LJF and the Laboratório HERCULES, was helpful in the technical-material study for the conservation intervention, through complementary laboratory analyzes, namely Micro-Fourier Transform infrared spectroscopy (µ-FTIR), Scanning Electron Microscopy - Energy
Fig. 1- Múmia de Falcão, Séc. VII-I a.C., nº invº E 126, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa (José Pessoa, 1993, © DGPC)
Dispersive X-Ray Spectroscopy (SEM-EDS) and Pyrolysis Gas Chromatography Mass Spectrometry (Py-GC/MS).
Keyword: bandages, consolidation, falcon mummy
Introdução
A múmia de falcão, datada dos sé- culos VII-I a. C. – Época Baixa ou perío- do ptolemaico – pertence à coleção do Museu Nacional de Arqueologia, com o nº inventario E 1261 (Fig. 1). É passível de
ser observada na Exposição permanen- te “Antiguidades egípcias” deste museu, onde existem mais cinco múmias de ani- mais. A múmia de falcão, à semelhança da múmia de íbis, é embalsamada e en- faixada e as restantes quatro são múmias de crocodilo estão embalsamadas, mas não enfaixadas2.
No caso da peça em estudo, sabe-se que fora um “Falcão embalsamado e mu- mificado na posição vertical, posição hó- rica, para o distinguir de um outro tipo de mumificação em que o falcão é posto
1 INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS - Antiguidades Egípcias. Lisboa: Instituto Portu- guês de Museus, 1993. vol. I, p. 318-319; DIREÇÃO GERAL DO PATRIMONIO CULTURAL –
MatrizNet [Em linha]. Lisboa: DGPC, 2010. [Consult. 10 Jan. 2017]. Disponível em http://www.
matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=120320; DIREÇÃO GERAL DO PATRIMONIO CULTURAL – MatrizPIX [Em linha]. Lisboa: DGPC, 2008. [Consult. 10 Jan. 2017]. Disponível emhttp://www.matrizpix.dgpc.pt/MatrizPix/Fotografias/Fotogra- fiasConsultar.aspx?TIPOPESQ=2&NUMPAG=1®PAG=50&CRITERIO=m%C3%BAmia&ID FOTO=15112
Sobre a cronologia do Antigo Egipto consultar IKRAM, Salima – Creatures of the Gods: Animal mummies from Ancient Egypt. Anthronotes. [Em linha]. Vol 33, nº 1 (Spring 2012), p. 23-25. [Consult. 29 Mar. 2017]. Disponível em https://repository.si.edu/bitstream/han- dle/10088/22463/anthronotes_33_1_1.pdf?sequence=3&; INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS - Antiguidades Egípcias. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1993. Vol. I, p.33-37. 2 INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS - Antiguidades Egípcias. Lisboa: Instituto Portu- guês de Museus, 1993. Vol. I, p. 318-320. Acresce a este grupo de múmias um vaso de múmia de Ibis, nº de inventário E 304, da época greco-romana.
deitado (…)”3. A mumificação tinha o propósito de preservar o corpo para
a alma poder “habitá-lo” noutra vida, após a morte. Nos rituais de mumi- ficação o corpo era preparado, para prevenir a sua natural decomposição, através da aplicação de substâncias naturais, tão apreciadas pelas suas pro- priedades de preservação4. Há uma verdadeira mestria envolvida na pro-
cura da imortalidade. Diversos foram os animais mumificados ao longo do Antigo Egipto e, apesar, de nas primeiras investigações científicas não se- rem tão valorizados quanto as múmias humanas, foi constatado que os pro- cedimentos eram tão complexos e sofisticados como os empregues nestas5.
Entre aves, mamíferos ou répteis era grande a especificidade de animais mumificados. Segundo Ikram, a maioria das múmias de animais existentes em coleções museológicas integra-se na categoria de múmias votivas6. São
as mais abundantes, usualmente datadas da época baixa e período greco-
3 INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS - Antiguidades Egípcias. Lisboa: Instituto Portu- guês de Museus, 1993. vol. I, p. 318-320.
4 ARAÚJO, Luís Manuel – Dicionário do Antigo Egipto. Lisboa: Editorial Caminho, 2001. p. 594-595, 317-318; BRETTELL, Rhea [et al.] – Organic residue analysis of Egyptian votive mummies and their research potential. Studies and conservation. [Em linha]. Vol. 62, nº 2 (2017), p. 68-82 [Consult. 30 Jun. 2017]. Disponível em http://dx.doi.org/10.1179/204705841 5Y.0000000027
EL-AMINB, Abdel-Rahman – A Review on the Materials Used During the Mummification Pro- cesses in Ancient Egypt. Mediterranean Archaeology and Archaeometry. [Em linha]. Vol 11, nº 2 (2011) p. 129-150 [Consult. 4 Abr 2017]. Disponível em http://maajournal.com/Issues/2011/ pdf/Maksoud.pdf
5 BUCKLEY, Stephen, CLARK, Katherine, EVERSHED, Richard - Complex organic chemi- cal balms of Pharaonic animal mummies. Nature. [Em linha]. Vol. 431 (Set. 2004) p. 294-295 [Consult. 15 Abr. 2016]. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/8342961_ Complex_Organic_Balms_of_Pharaonic_Animal_Mummies; BRETTELL, Rhea [et al.] – Or- ganic residue analysis of Egyptian votive mummies and their research potential. Studies and conservation. [Em linha]. Vol. 62, nº 2 (2017), p. 79 [Consult. 30 Jun. 2017]. Disponível em http://dx.doi.org/10.1179/2047058415Y.0000000027;
6 Segundo Salima Ikram, as múmias de animais existem por diferentes razões, podendo ser identificadas em cinco categorias: animais de estimação; comida; sagrado; votivo e “outro”. IKRAM, Salima – Animal Mummies. In CARDIN, Matt – Mummies around the World: An Ency-
clopedia of Mummies in History, Religion, and Popular Culture: An Encyclopedia of Mummies in History, Religion, and Popular Culture. California: ABC-CLIO, 2014, p. 7-11; BRETTELL, Rhea
[et al.] – Organic residue analysis of Egyptian votive mummies and their research potential. Studies and conservation. [Em linha]. Vol. 62, nº 2 (2017) p. 68-82 [Consult. 30 Jun. 2017]. Disponível em http://dx.doi.org/10.1179/2047058415Y.0000000027
-romano7, seriam oferendas votivas dedicadas aos deuses. Tinham uma va-
riedade de formas e tamanhos, muitas com formatos exteriores que podiam indicam o seu conteúdo.
Também aos deuses, como reflexo da mitologia egípcia, correspondiam animais específicos sendo frequente representações antropozoomorficas. Figuram nas mais variadas técnicas como comprovam os célebres exem- plares: baixos-relevos do Templo de Kom Ombo, Egipto; as pinturas murais do Túmulo da Rainha Nefertari e no Tumulo do Faraó Seti I (KV17), Vale dos Reis, Egipto; escultura de Faraó Amenhotep III e Sobek (J.155) proveniente do túmulo Sobek, Dahamsha, pertencente ao Luxor Museum, Luxor, Egipto. Difundiram-se também nas artes decorativas egípcias, destacamos a título de exemplo dois exemplares do Egyptian Museum, Cairo pertencentes ao Tesouro de Tutankhamun - pendente (nº inv. JE 61884)8 e corpete (nº inv.
JE 62627)9. No caso do falcão, surge associado a Horus, deus do céu e solar,
um dos mais importantes deuses egípcios10. O olho de Hórus – udjat – é
utilizado como símbolo de poder e proteção sendo recorrente a sua repre- sentação em amuletos contra o mau-olhado11.
7 Foram épocas da história egípcia conturbadas pelas invasões de outras potências mun- diais propícias ao ressurgimento e generalização do culto de animais como invocação de divindades. MCKNIGHT, Lidija M. [et al.] - Imaging of Ancient Egyptian Animal Mummies. RadioGraphics. [Em linha]. Vol. 35, nº 5, (2015) p.2118 [Consult. 30 Mai. 2016]. Disponível em http://pubs.rsna.org/journal/radiographics; BRETTELL, Rhea [et al.] – Organic residue analysis of Egyptian votive mummies and their research potential. Studies and conservation. [Em linha]. Vol. 62, nº 2 (2017), p. 68-82 [Consult. 30 Jun. 2017]. Disponível em http://dx.doi.or g/10.1179/2047058415Y.0000000027; IKRAM, Salima – Creatures of the Gods: Animal mum- mies from Ancient Egypt. Anthronotes. [Em linha]. Vol 33, nº 1 (Spring 2012), p.1. [Consult. 29 Mar. 2017]. Disponível em https://repository.si.edu/bitstream/handle/10088/22463/anth- ronotes_33_1_1.pdf?sequence=3&;
8 VAN DER PLAS, Dirk; SALEH, Mohamed (coord.) - The Global Egyptian Museum – [Em linha]. [S.l.]: CULTNAT/CIPEG , 2006. [Consult. 9 Jan. 2017]. Disponível em http://www.glo- balegyptianmuseum.org/record.aspx?id=15087&lan=E
9 VAN DER PLAS, Dirk; SALEH, Mohamed (coord.) - The Global Egyptian Museum – [Em linha]. [S.l.]: CULTNAT/CIPEG , 2006. [Consult. 9 Jan. 2017]. Disponível em http://www.glo- balegyptianmuseum.org/record.aspx?id=15088&lan=E
10 VAN DER PLAS, Dirk; SALEH, Mohamed (coord.) - The Global Egyptian Museum – [Em linha]. [S.l.]: CULTNAT/CIPEG 2006. [Consult. 10 Jan de 2017]. Disponível em http://www. globalegyptianmuseum.org/glossary.aspx?id=192
11 ARAUJO, Luis Manuel – A colecção de Antiguidades Egípcias do Museu Nacional de Ar- queologia e Etnologia. O Arqueólogo Português. Lisboa. S. IV, nº 5 (1987), p. 250-251.