A coleta de dados desse estudo ocorreu no período compreendido entre fevereiro e maio de 2013, após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos. Os (as) colaboradores (as) assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para documentar seu consentimento em relação à participação na pesquisa.
Nós, pesquisadores e pesquisadoras atuantes na Linha e no Grupo de Pesquisa Práticas Sociais e Processos Educativos, assumimos o compromisso de pesquisar “com” as pessoas e não “sobre” elas, assim, buscamos propiciar uma interação entre pesquisadores (as) e colaboradores (as) da pesquisa, de modo que ambos assumam papel de sujeitos ativos na construção do conhecimento que está sendo produzido.
De acordo com Chizzoti (2006), a participação dos sujeitos colaboradores da pesquisa se intensifica quando inicia-se o trabalho de campo, pois é nesta etapa que ocorre a aproximação destes com o (a) pesquisador (a). Entendemos que a pesquisa “com” as pessoas exige além de uma aproximação; é preciso que se instale “um conviver realizado com interação e confiança”; é a partir dessa interação que ocorrem as coletas de informações que darão significados à pesquisa (OLIVEIRA et al, 2009, p.11).
Dentro do trabalho de campo, Minayo (1996) destaca a entrevista como uma das mais importantes técnicas de interação entre pesquisador (a) e sujeitos colaboradores da pesquisa.
Levando em consideração as compreensões acima apresentadas, para realização da coleta dos dados, procuramos criar um vínculo com as famílias colaboradoras da pesquisa e buscamos manter uma postura dialógica de respeito às visões de mundo de cada um (a), cuidando para não tomar como única referência o saber profissional, pois na verdade o que queríamos era compreender os saberes resultantes das vivências das famílias.
No dia 13 de fevereiro de 2013, fomos ao sítio da família II para nos apresentar e também para conhecê-los, falar um pouco sobre a pesquisa do mestrado, fazer o convite e investigar o interesse que a família tinha em participar da mesma. Eu estava acompanhada da psicóloga e da assistente social do CAACCH, que tinham ido até o local para uma visita domiciliar. Quando chegamos, nos apresentamos para a família, esperamos que fizessem o mesmo; contamos que estávamos fazendo uma pesquisa de
mestrado que tinha por objetivos compreender como as famílias de crianças e adolescentes com câncer enfrentavam as incertezas da descoberta, os desafios do tratamento e a busca pela cura de seus filhos ou irmãos e que ensinamentos e aprendizados tinham tirado dessa experiência. Questionamos sobre o interesse deles (as) em participar como colaboradores (as) do estudo, compartilhando suas experiências nas vivências com a doença.4
A família, com exceção do Kaluanã, que de início não se manifestou, disse que se interessava em participar. Em seguida, sua mãe, dona Isabel nos convidou para chegar até um salão de festas que tem no sítio, pediu para que nos sentássemos e então sem que lhe fizéssemos uma única pergunta foi nos contando toda sua experiência, desde o momento em que apareceram os primeiros sinais e sintomas da doença em seu filho até o momento atual. Não tínhamos ido preparadas para coletar os dados naquele momento, no entanto, pedimos autorização da senhora Isabel para irmos anotando tudo o que ela estava dizendo, pois sentimos que eram dados muito relevantes e que talvez, se tivéssemos agendado e combinado uma entrevista, não os teríamos obtido com tamanha riqueza de detalhes.
Fomos anotando tudo o que ela falava, nossa conversa fluía em um tom de diálogo e confiança. No meio dessa conversa, ela contou fatos que não tinha dito na presença do marido e dos filhos e foi então que percebemos que talvez a realização de rodas de conversa poderia não ser a melhor opção.5 Talvez certas falas pudessem ficar reprimidas pelo fato de os (as) colaboradores (as) não sentirem-se a vontade para tocar em certos assuntos na frente dos outros membros da família6.
4 Procuramos explicar os objetivos do estudo a partir de uma linguagem simples, que fosse clara e de fácil compreensão por parte dos (as) colaboradores (as) da pesquisa.
5 Inicialmente, tínhamos pensado em realizar rodas de conversas com os (as) integrantes de cada família colaboradora, porém após primeiro contato com uma das colaboradoras da pesquisa, percebemos que talvez os (as) colaboradores (as) se sentissem mais a vontade para falar longe da presença dos outros membros da família.
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Essa questão de não sentirem-se a vontade para falar algumas coisas na frente dos demais membros da família poderia representar um problema no momento da apresentação de algumas falas na seção de análise dos dados, uma vez que ao final, todos terão acesso aos resultados da pesquisa. Falamos com todos e todas que conversaram conosco e questionamos se autorizavam a divulgação de todas as falas ou se preferiam que algumas delas não fossem expostas, como por exemplo, as que tratam dos desentendimentos conjugais entre os esposos e esposas. De modo geral, os colaboradores e colaboradoras disseram que poderíamos divulgar as falas que quiséssemos até mesmo as que revelam mágoas e desentendimentos com os parceiros; comentaram que até seria bom a divulgação dessas falas, pois gostariam de saber o que os demais membros da família sentiram ao longo da experiência, já que não tinham tido coragem para conversar essas questões entre si.
Conversamos por mais de meia hora, até que a psicóloga e assistente social do CAACCH que me acompanhavam na visita me chamaram para ir embora, agradecemos à Isabel pela conversa e perguntamos se poderíamos estar voltando para conversar mais com ela e com as demais pessoas da família, ela nos passou os telefones para contato e disse que poderíamos ligar para voltar quando quiséssemos.
Ao analisarmos as anotações referentes às falas da Isabel, concluímos que a melhor conduta para tentar responder a questão de pesquisa: “Que processos educativos são desvelados nas vivências de famílias de crianças e adolescentes que, atualmente, estão em fase de acompanhamento ou remissão do câncer?” seria a realização de um diálogo, onde houvesse interação, olho no olho, respeito, empatia e confiança entre a pesquisadora e o (a) colaborador (a) da pesquisa.
Nesse sentido, optamos por coletar os dados a partir de diálogos que seguiram os moldes de entrevistas abertas. As informações coletadas durante a conversa com a mãe de Kaluanã na primeira visita à família II também foram consideradas.
Autores como Chizzotti (2006), Minayo (1996) e Triviños (1987) trazem definições semelhantes sobre entrevistas abertas. Os autores consideram que nas entrevistas abertas o (a) entrevistador (a) introduz o tema e o (a) entrevistado (a) tem liberdade para discorrer sobre o tema sugerido. Este tipo de entrevista caracteriza uma forma de poder explorar mais amplamente uma questão, aí as perguntas são respondidas dentro de uma conversação informal e a interferência do (a) entrevistador (a) deve ser a mínima possível, este (a) deve assumir uma postura de ouvinte e interferir pouco na fala dos (as) participantes.
Para Triviños (1987) as entrevistas abertas são bastante interessantes nas pesquisas de cunho qualitativo, pois elas além de favorecerem a presença do (a) pesquisador (a), privilegiam o papel do (a) entrevistado (a), proporcionando-lhe maior liberdade, espontaneidade e confiança. Compartilhamos dessa ideia de Triviños e consideramos que essa liberdade pode propiciar o surgimento de questões importantes, inesperadas pelo (a) entrevistador (a) e possivelmente enriquecedoras para a pesquisa.
Estabelecemos contato com as famílias I e II por telefone e assim fomos agendando as entrevistas. Ambas preferiram que as conversas acontecessem em suas casas e essa preferência foi respeitada. Na maioria delas, ficamos a sós com o (a) colaborador (a), exceto na entrevista com o José da família I, que preferiu conversar na
presença da esposa. Utilizamos um gravador de áudio para gravar as conversas que posteriormente foram transcritas.
Conforme já dito, os diálogos seguiram os moldes das entrevistas abertas; os (as) colaboradores (as) já conheciam os objetivos da pesquisa, pois os mesmos já tinham sido apresentados em contato anterior, então, apenas iniciamos a conversa com a seguinte questão: “Me conte: como foi para você e como está sendo vivenciar a descoberta, o tratamento e agora esse período de acompanhamento do câncer de seu filho ou irmão”?7
Os (as) colaboradores (as) tiveram liberdade para falar de suas experiências da maneira como achavam melhor. Fomos conduzindo a conversa e interferimos algumas vezes, fazendo alguns questionamentos, interagindo com os (as) colaboradores (as) e nos colocando mais ao final, quando percebíamos que já não tinham mais nada a acrescentar. No decorrer das falas, mantivemos a atenção, procuramos olhar nos olhos de quem estava falando para demonstrar que estávamos ouvindo atentamente o que diziam.
Ao longo do estudo, percebemos que o procedimento que utilizamos para a coleta dos dados favoreceu o aparecimento de respostas espontâneas e colaborou na investigação dos aspectos afetivos e valorativos dos (as) colaboradores (as) da pesquisa. De acordo com Manzini (2004), a investigação desses aspectos é importante, pois, são eles que determinam significados pessoais das atitudes e comportamentos dos sujeitos da pesquisa.