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Nasce o infante, não raro pondo em risco a vida da progenitora. É um ser enfesado, intanguido, com estygmas de deformação, longe de ser tratado com os cuidados de hygiene e eugenia que reclama, torna-se como um cãozinho um espécie de curiosidade, um objeto de luxo [...] atafulham no berço, confinado a uma ama que lhe vai dando o peito para o fazer calar a todo instante, quando resmunga. [...] (Era Nova, Parahyba, 15 de fevereiro de 1923, nº 40).

Tão longe essa mãe está de sentir afeto pelo seu filho, que o deixa aos cuidados de uma nutriz!66 Poderia essa mulher ser preparada pelos médicos higienistas para lançar mão desses conhecimentos na vida do seu rebento? Como foi endossado anteriormente, algumas mulheres estão aptas a desenvolver os cuidados da puericultura. Não só porque querem, mas por ter em devidas condições financeiras e sociais para tal papel. Seria essa mulher a mãe ―capaz‖, que procurava a todo instante a robustez e a

66 Pessoa de hábitos duvidosos, impregnada de vícios, elemento estranho e pernicioso penetrando e

destruindo a intimidade da família. Mulher que se encarregava do aleitamento mercenário. (RAGO, 1985, p.78)

saúde dos seus filhos? Ledo engano! Mas as mulheres das classes mais elevadas, que buscavam no trabalho fora de casa não a subsistência, mas a realização pessoal.

Penso que as mulheres ―capazes‖, são aquelas mulheres pioneiras no campo da educação feminina, que lutavam por uma educação escolar adequada, que contribuísse para uma carreira profissional, que pudesse proporcionar-lhe uma vida pública, de deveres e direitos cívicos, ou seja, que pudessem participar nas reformas politicas, alvejando uma educação ampla, que ―poderia levar as mulheres muito além de serem esposas caridosas ou assistentes dos homens‖. (WATTS, 2013, p.82).

Mas não era bem essa a formação ofertada nas escolas domésticas. O currículo apresentado era especialmente para a formação de esposas devidamente educadas, o que de certo modo dificultava a essas alunas o ingresso no nível de escolarização mais alto, o nível superior. Neste sentido, o professor Abel da Silva, publicou um texto no jornal A

União, que alertava para os perigos, da instrução feminina, que nada valeria as mulheres

na vida prática. Vejamos:

Ademas, tornando ao modo de instrução da mulher, não recebemos a hyppothese paradoxal do igualitarismo entre os dois sexos. O que um pode ser de grande utilidade a outro poderá trazer permuciosos resultados. A mulher criatura dócil, nasceu unicamente para ser a companheira amorosa e dedicada ao homem. O que se faz necessário é dar-se-lhe em educação útil a missão sublime que ella há de cumprir no mundo, que é a de ser esposa e

mãe, perpetuando a espécie por meio do holocausto divino do amor. (A

União, 15 de janeiro de 1921).

Para Abel da Silva estava clara a resistência no desenvolvimento da intelectualização feminina, o que demonstrava que a sociedade paraibana possuía a visão dos tempos passados de uma educação doméstica, que orientava as mulheres a serem boas esposas e mães de família. Associava a mulher à ideia da maternidade como missão divina, para ter uma vida de harmonia e felicidade.

É um erro, dissemos a maneira pela qual se educa o sexo feminino, entre nós; e esta verdade pôde não agradar, porem, assegurando-a ficarmos de bem com a nossa consciência.

A educação segura e profícua é a que vem do lar. Esta faltando a sociedade sofre irremediavelmente.

Qual manancial que vigora e alenta os nossos rebentos de uma nova geração, que vae surgir para todos os misteres da vida?

É a mulher.

Se esta não disposer d‘ uma educação sadia, a sociedade terá de muito perder e a Patria não terá filhos que a engrandeça e a honre.

Isso que ahi temos, dizemos sem rebuço, é a negação completa de bons e proveitosos ensinamentos.

Disse um escriptor de aprimorado cultivo; A educação recae sobre a moral e a instrucção suppoe já outros princípios mais elevados, ideias mais externas,

regras methodisadas para listrar a razão, adornar o entendimento, aperfeiçoar o coração e suavizar os costumes. A mulher é inexgottavel tesouro de bens, que se necessita cuidar e zelar com muito tino, não incuntindo- se-lhe no espirito malfadados preconceitos, que arruínam-lhe os bons sentimentos, dando o reverso da medalha delineada pelo escriptor.

Tudo está dependendo de uma bôa e rumada educação, firmada na sã moral, ensinando-se-lhe, no verdor dos anno, a amar o trabalho do lar e a vaidade, que é um cancro, que não só victima a paciente como faz muitas outras victimas. Alguem nos taxará de enfadonho, mas cumpre-nos responder: Um assumpto grave e de grande interesse não se deve tratar pela rama, convem insistir nos conceitos para se poder obter bom resultado.(O Educador, 30 de janeiro de 1922).

Podemos também destacar a preocupação sobre a educação feminina, em outro periódico paraibano, O Educador. O articulista Francisco Barroso, pregava sua preocupação na educação feminina, colocando sobre a figura da mulher como a responsável pele a educação de seus filhos, e com o futuro da Pátria. Um discurso moralista enfatizava a educação do lar.

Apesar da Parahyba do Norte se vestir com ares da modernidade, ainda eram muitos os personagens, que estimulavam um comportamento moral similar aos tempos passados. As incertezas liberais eram temidas por fragilizarem as células da instituição matrimonial. A ideia de que o casamento seria o único futuro vislumbrado para as mulheres, ainda era vista com bons olhos por parte dos mais conservadores.

Mas o casamento perfeito e as finanças não eram assuntos igualitários para as mulheres. Muitas viviam do trabalho externo assalariado e, nesta condição, eram particularmente as mulheres das camadas mais pobres da população urbana, uma necessidade concreta.

Diante disso, as mudanças comportamentais, em virtude da subsistência, responsabilizava a mulher operária de abandono da sua função maternal, e os riscos que tal procedimento poderia acrescentar para o futuro da nação. O ideário maternalista fazia uma seleção desigual para gerar filhos vigorosos e sadios? O discurso médico nas revistas femininas não se encontrava deslocado do debate desenvolvido no meio acadêmico em relação à mortalidade infantil.

A conferência do Dr. Afranio Peixoto – colaborador da Revista Feminina, em palestra proferida na Faculdade de Medicina, do Rio de Janeiro, para turma de doutorandos de 1923, e reproduzida no Brasil Médico de janeiro de 1924, evidenciava que a amamentação e a mortalidade infantil estavam diretamente relacionadas. E propôs como solução para o aleitamento materno, o aleitamento mercenário e até mesmo o aleitamento artificial, a supervisão médica.

Dr. Afranio estabeleceu, de forma exemplar, o modelo de aliança entre mulheres e médicos: ―A mortalidade infantil [...] não será evitável? Sim, sim, com o aleitamento materno, o aleitamento humano mercenário, mesmo puro e disciplinado, o próprio aleitamento artificial, vigilante, corrigido, adequado. Com a Providência , sob os aspectos da Higiene‖. (Brasil Médico, ano XXXVIII, v, 1, 05 de janeiro de 1924).

A partir dos ensinamentos médicos, as mães passariam a conduzir a alimentação infantil. Os cuidados com a alimentação estavam nos discursos puericultores para a uma educação higiênica, que seria a solução para os problemas do país, na construção de uma nação de filhos sadios e vigorosos. Além de Afranio Peixoto, tal concepção foi expressa pelo médico Belisario Pena(1868-1939), Presidente da I Conferência Nacional de Educação, realizada no Rio de janeiro em 1927.

Durante esse evento o médico afirmou que: ―o problema humano é um problema de higiene‖, e que mais de 90% da população brasileira não teria ―suficientemente educadas a inteligência e a vontade para defender e melhorar incessantemente a própria vida‖ (PENA apud GONDRA, 2000, p. 107).

Se a alimentação estava vinculada ao respaldo da ciência, às mães caberia a decisão de aleitá-los - uma enorme responsabilidade no desempenho de tão árdua tarefa, já que dentro da historiografia nacional e internacional, as mulheres não foram incentivadas a dar o peito, como alimento. Ao menos em centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro. (FILHO, 2005, p. 139), ―assegurou que, pelo menos desde o século XVIII, as mulheres já vinham sendo incitadas a amamentar seus filhos.‖. Isso por acreditarem que a amamentação era vulgar, usava-se o argumento moral, de que amamentar aproximava a mulher dos animais (vaca leiteira). A novidade do século seguinte seria a mudança de abordagem.

Com a justificativa em defesa do aleitamento materno, os médicos de uma maneira geral invocavam o seu caráter ―natural‖, e as substâncias próprias, que o diferenciava dos demais leites, dos animais. Certamente, o leite se constitui no principal alimento, não o único objeto da investigação e das medidas de normatização dos médicos, em difundir suas práticas cientificas na educação familiar.

A proposta dos médicos era de que as mulheres deveriam oferecer aos seus filhos uma alimentação o mais natural possível, livre de gorduras, maus preparos como alimentos com pouco cozimento ou indigestos. Mas, para isso, as mulheres precisavam ter o conhecimento sobre os alimentos, o que as deixavam na dependência das

orientações medicas. Algumas dessas orientações eram publicadas nos impressos. Vejamos:

Estamos distribuindo gratuitamente um atraente livrinho contendo indicações cientificas sobre a conservação da saúde: informações para nutrição e desenvolvimento da criança; sugestões para uma perfeita alimentação dos bebês e várias receitas de cozinha. Aconselhável a todos pelos ensinamentos que contem. Leia-o estude-o com toda atenção. Teremos prazer em remete- lhe o exemplar que nos solicitar. (Revista Vida Doméstica, janeiro de 1926, nº96).

A preocupação com a educação dos filhos através dos ensinamentos médicos se deslocava para uma dimensão de cientificidade passível, a oposição entre o instinto maternal e a técnica da maternidade cientifica. Ou seja, a essa altura os ensinamentos higiênicos correspondiam ao conteúdo propriamente dito: os assuntos organizados em forma de instruções pelos médicos seguiam o mesmo padrão: título, regras higiênicas, exemplos, imagens ilustrando, alimento e sua utilidade. Por fim, o trecho de algum ―verso‖ de teor moral ligado ao assunto trabalhado. Todos os assuntos contidos nos livrinhos estavam voltados diretamente à alimentação, à saúde e à higiene.

Para melhor entendermos, observemos a tabela baixo: Quadro II:

Os temas trabalhados sobre alimentação infantil

Medicina doméstica. Ensinamento às mães. Preparação dos principais alimentos para as crianças.

Alimentação Apresentação do assunto

01 Água/Leite O leite e a água pura são as únicas bebidas que a criança poderá tomar se risco de sua saúde e vida. 02 Aveia/Arroz Alimentos utilizados para o preparo de mingaus,

mas não devem ser ministrados juntos, apenas com o uso do leite artificial, com as devidas medidas prescritas pelo médico.

03 Sucos De frutas sempre bem higienizadas, especialmente de laranja, uvas e cerejas. Todo lactente deve tomar duas colheres de sopa de suco de laranja ao dia. Já os sucos de tomate, lima ou limão

administrados uma vez ao dia, uma hora antes das mamadeiras.

04 Leitelho Mistura do leite com açúcar nutritivo + dextrino- maltose.

05 Legumes/verduras Batata, cenoura, tomate... Excetuando-se a couve e o repolho.

06 Carne Só após o 20º mês de vida. E deve ser bem cozida e administrada junto aos legumes. Para equilibrar proteína, gordura e hidrato de carbono.

07 Ovo Só após o 24º mês, a criança poderá receber uma

gema de ovo.

08 Purê de batata Só a partir do oitavo mês, e seria progressivamente engrossado até o final do primeiro ano de vida. 09

Cuidados com a mamadeira

Lavar vasilhame com água e sabão, seguida de fervura, depois de deixar para escorrer de boca para baixo em um recipiente esmaltado. Depois de limpas deixar com água borica ou bicarbonato até o dia seguinte.

10 Dica Moral ―Mães inteligentes, filhos saldáveis‖. Fonte: Vida doméstica, n. 108, fev/mar de 1927.

As orientações eram também publicadas nos periódicos, além da alimentação do lactente, havia outras receitas destinadas às crianças com mais de 24 meses. O que ficava restrito era o uso de doces e guloseimas. ―Muita coisa que no mundo é doce tem

os seus perigos e às vezes bem mais traiçoeiros do que aquilo que amargo logo se revela‖. (Ibidem, n.143, abril de 1926).

Quanto à posição da mulher educada por excelência, caberia seguir os ensinamentos dos médicos e articulistas, a fim de promoverem uma vida saudável às suas crianças. A resistência dessas mulheres era em conciliar a tradição alimentar e os preceitos da ciência. E nessa força tarefa, os impressos ajudavam com suas publicações, que ressaltavam a importância de certos alimentos que eram indispensáveis ao crescimento da criança.

O rico material encontrado nas páginas dos impressos, revelou as tensões, dualidades, conflitos, diferenças sociais e econômicas, ambiguidades que permearam a construção desse novo papel da mulher, reflexões das contradições e ambivalências presentes nos debates sobre o lugar social da mulher, os esforços em conciliar o papel de mãe e trabalhadora, a preocupação com a saúde dos filhos, com o casamento, com a beleza, com as normas de condutas tecidas e determinadas para as mulheres, ditando moda e padrões e os anseios de enveredar pelos caminhos da aquisição educacional e profissional ganhavam visibilidade, especialmente na maternidade, essa agridoce missão feminina.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quem lida com uma criança é como quem equilibra um mimo leve e frágil que à menor distração, pode cair e quebrar-se. A estatística, cada vez maior, da mortalidade infantil apavora como a de uma guerra sangrenta, e tal calamidade é, principalmente, devida à falta de higiene, ou seja - de conhecimentos indispensáveis à criação do infante e tanto ela se manifesta em palácio como em cabanas - em uns, por excesso, em outros por míngua, dois males que correm paralelos encontrando-se no infinito, que é a morte. (Ramalho Ortigão)

―Quem lida com uma criança é como quem equilibra um mimo leve e frágil que à menor distração, pode cair e quebrar-se”. (Revista Feminina, n.138, nov. 1925).

Deveria ser o pensamento de todas as mães, pais, professores e professoras, governos e Estados. Mas para garantir os direitos na infância, direitos básicos, como saúde e educação, uma luta secular foi travada pelos guerreiros que cediam o espaço de sua casa, para educar as crianças, pelas mães que recusaram seu lócus social para cuidar dos filhos e tornaram- se seu alimento, dando-lhes o ―sangue branco‖ que o faria forte, saudável e para a vida. É nesse cenário que a educação e saúde como as águas de dois rios que correm lado a lado sem se misturar, mas dando-lhes as mãos para fazer circular o saber que aspiravam adentrar nas escolas, incutir nas crianças as normas e prática médicas e pedagógicas, a fim de modelar comportamentos e criar indivíduos, dóceis, polidos e educados.

É prudente que a orientação nacional sobre a importância dos preceitos de higiene serviu de inspiração para vários Estados do país que, de acordo com sua realidade, adaptou aos seus interesses. Essas orientações foram ganhando força à

medida que os ―novos‖ saberes médico-pedagógicos conquistavam seus adeptos, com a

propagação de artigos no início do século XX, que tratavam da temática educação sanitária escolar. Havia a circulação de ideias, que apreciava, desde artigos médicos sobre prevenção de doenças, até a importância da participação do povo nas campanhas sanitárias, nas discussões sobre educação escolar. Os temas vinculados à educação e à saúde eram introduzidos na sociedade com a preocupação de incorporar nas pessoas a ideia que sem educação não podia haver ciência.

Os médicos se ocuparam das questões educativas de seu tempo e se empenharam em salientar que a medicina social preventiva era inconcebível sem a educação. E, opostamente, que a educação era inconcebível sem a incorporação dos avanços da ciência, representada pela medicina, que por sua vez, temia que os ares da modernidade ficassem condensados, e não atingissem patamar ideal devido à falta de educação da população, que em contrapartida impedia o desenvolvimento do país.

Na Paraíba, como apresentei ao longo do texto, esse projeto de saúde e educação ganhou as ênfases e cores com a participação dos discursos de médicos, intelectuais, professores, articulistas que encontraram nos periódicos uma maneira de circular os preceitos de higiene para tornar o ambiente das casas, escolas, ruas um espaço salubre.

É possível encontrar a força dos discursos sobre a higiene nas escolas para as crianças, professores e para as mães nos periódicos em circulação durante as três

primeiras décadas do século XX. Os artigos estavam relacionados como evitar doenças, sobre os cuidados higiênicos do corpo, sobre o uso adequado do material escolar; o ar puro, o ambiente salubre, a importância do sol, alimentação das crianças, educação feminina como prática de maternidade saudável. A relevância com a educação das crianças foi apresentada através das lições da fada da saúde, idealizada pelo médico Renato Kehl. O livro foi exposto, em sua materialidade, como uma fonte didática para os ensinamentos de uma educação de higiene.

Procurei ao longo dessa pesquisa, entender como os discursos médicos abraçados à educação escolar e à maternidade contribuíram na formação do indivíduo saudável, robusto, os desejados frutos de uma nação. Foi quando mergulhei nas ideias que eram vinculadas pelos periódicos e sua força midiática, que informa, induz e constrói opiniões. Observei que mesmo um instrumento de controle tão forte, precisou do amparo da educação, precisou adentrar os muros das escolas, para crianças, para mulheres e mães, na busca pela prevenção da saúde e pelo controle das doenças.

Todo o controle social daqueles que buscaram higienizar, nacionalizar, normatizar os lugares, os objetos e os comportamentos, aqueles indivíduos que estavam à frente da sociedade, interessados em talhar o futuro cidadão brasileiro, foram absorvidos pelo binômio educação e ciência, que fortaleceram os preceitos de higiene, e até hoje esses conceitos precisam se entender, para que os indivíduos possam desfrutar saúde e vida. É bom sempre lembrar que a vida é uma oficina, onde estamos sempre construindo conhecimentos, seja, essa oficina das artes, das ciências, ou seja, essa apenas para higienizar; os corpos, as crianças, as mulheres e homens de uma nação.

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