A Rede de “Ambientalização Curricular dos Estudos Superiores (ACES)” foi constituída em 2002 com o objetivo de apresentar um projeto comum ao Programa ALFA da União Européia sob o título “Programa de Ambientalização Curricular do Ensino Superior: proposta de intervenções e análises do processo” por meio de um contrato firmado com onze universidades, sendo cinco européias e seis latino- americanas.O projeto teve como finalidade elaborar metodologias de análises para avaliar o grau de Ambientalização Curricular dos Estudos Superiores na América Latina e Europa (CIURANA, 2002, p. 17).
A Rede ACES se move no diálogo entre a homogeneidade e heterogeneidade. Está estruturada por um conjunto de instituições com a diversidade de culturas e contextos que se movimentam pelo interesse de avançar no conhecimento dos processos de
Ambientalização Curricular.
As universidades que integraram a Rede ACES tiveram um papel fundamental em compartilhar os conhecimentos, discutir e avaliar as propostas a respeito dos seus programas, estratégias e instrumentos desenvolvidos a respeito da Ambientalização Curricular (CIURANA, 2002, p. 17).
Bau (2002, p. 10) afirma que os objetivos da “Rede ACES” foram:
– Diagnosticar o grau de ambientalização nos diferentes aspectos da vida universitária que intervêm na formação dos/das estudantes, através de um projeto piloto, que será escolhido por cada uma das instituições participantes, com o objetivo de elaborar e/ou definir metodologias quantitativas e qualitativas que possam ser extrapoladas a outros cursos de graduação;
– Realizar intervenções nas práticas profissionais dos/as estudantes envolvidos no projeto piloto, com a finalidade de introduzir mudanças e formar agentes de mudanças em relação a aspectos ambientais, avaliando esse processo;
– Transferir e adaptar os mecanismos de Ambientalização utilizados na unidade piloto a todas as unidades acadêmicas de cada instituição parceira.
Estes objetivos reforçam as ações presentes nas universidades que desenvolveram os trabalhos na Rede ACES, cuja metodologia foi fundamentada nas ações participativas e colaborativas entre os grupos participantes, com a finalidade de democratizar o conhecimento e possibilitar trocas de experiências entre os professores e acadêmicos, o que resultou na organização e difusão do conhecimento referente à Ambientalização Curricular.
No âmbito das discussões da Rede ACES, o termo Ambientalização Curricular ficou assim caracterizado:
La ambientalización curricular es un processo continuo de producción cultural tendiente a la formación de profesionales comprometidos
con la búsqueda plenamente de las mejores relaciones posibles entre la sociedad y la natureza, atendiendo a los valores de la
justicia, la solidaridad y la equidad, aplicando los principios éticos universalmente reconocidos y el respeto a las diversidades (CIURANA; JUNYENT; ARBAT, 2003, p. 21, grifos nossos).
A Ambientalização Curricular abrange o conhecimento, os saberes e as habilidades dos educadores e educandos em busca de integrar as relações do homem para com a sociedade e a natureza, por meio de atitudes éticas relacionadas a valores sociais. A proposta, então, é a da formação de profissionais nas universidades que estejam empenhados com a temática ambiental nos contextos naturais, sociais e culturais. Esse compromisso implica em ter atitudes que visem à integração dos docentes e discentes tanto na teoria como na prática da realidade (CIURANA, 2002).
Na primeira reunião da Rede, realizada na “Technical University Hambureg- Harburg Techology” em Hamburg (Alemanha), no período de 27 de fevereiro a 03 de março de 2002, o termo Ambientalização Curricular foi objeto de discussão e definição pelas diferentes instituições participantes do Projeto. Segundo a UNESP, o termo Ambientalização Curricular é compreendido como:
A incorporação pelos cursos de graduação e de pós-graduação das Unidades Universitárias de diferentes dimensões que são hoje trazidas pelo movimento ambientalista e por outros agentes sociais e que estão diretamente relacionados com a temática ambiental (REDE ACES; UNESP 2003, p. 29).
A idéia da Ambientalização Curricular representa a incorporação de temas ambientais no currículo no ensino superior, devem envolver questões como a globalização, o desequilíbrio ecológico, o desenvolvimento sustentável, a complexidade, a interdisciplinaridade, a flexibilidade, a sensibilidade e o questionamento em torno dos contextos sociais e econômicos mostrando diferenças sociais entre eles (REDE ACES; UNESP, 2003).
Na segunda reunião da Rede ACES, realizada em 2003 na Universidade Nacional de Cuyo (Mendonça – Argentina) as universidades participantes elaboraram dez características constitutivas de um currículo ambientalizado. Assim, as discussões entre as instituições resultou em um diagrama19 entendido com um
marco teórico constituído “como um espaço de diálogo entre teoria, pensamento e ação constituindo-se assim, em um enfoque coerente, sólido e completo que orienta
19
Oliveira Júnior et al (2003, p. 43) afirmam “compreender o diagrama como um instrumento significa entendê-lo como um elemento mediador entre a realidade e o grupo de pesquisa que facilita a coleta de informação como objetivo de criar o conhecimento. Nesse ponto de vista, o diagrama adquire uma perspectiva operativa que favorece sua aplicação à realidade estudada e a possibilidade de facilitar a elaboração de conclusões”.
o trabalho a ser realizado” (OLIVEIRA JÚNIOR et al. 2003, p. 43), conforme se pode observar na Figura 3:
Figura 3 – Características de um estudo ambientalizado - Rede ACES
Fonte: REDE ACES, 2003, p 41.
As características foram definidas e caracterizadas pelas equipes, que necessitaram de uma significação para avaliar o grau de Ambientalização Curricular com aplicações nas intervenções educativas das instituições envolvidas. As linhas descontínuas e a sua forma circular permitiram ter uma percepção de conjunto sobre
a diversidade de situações em diferentes diálogos, sem uma hierarquia prévia referente à Ambientalização Curricular.
As discussões para a composição de um modelo do diagrama em forma circular em linhas descontínuas teve como objetivo a inter- relação, promovendo um diálogo entre os diferentes enfoques propostos, conforme afirma Oliveira Júnior et al. (2003, p. 43):
A forma circular nos permite pensar sobre os diferentes elementos sem hierarquia prévia, e sim a partir uma relevância igualitária. As linhas descontínuas permitem a expressão visual da permeabilidade e facilitam a percepção de um rico conjunto que pode ser produzido a partir das especificidades de cada característica.
As definições das dez características de Ambientalização Curricular pelas equipes participantes do projeto da Rede ACES tiveram como critério a escolha das práticas curriculares relacionadas aos aspectos culturais das instituições envolvidas. Desse modo, o diagrama teve como um princípio básico o diálogo como forma de evitar o reducionismo e permitir o desenvolvimento do conhecimento ambiental. Este compromisso permitiu que houvesse as relações contínuas entre o saber cultural de cada instituição (OLIVEIRA JÚNIOR et al. 2003, p. 43).
Na proposta estabelecida pela Rede ACES, as características tiveram um significado fundamental no sentido de “outorgar as atribuições que deveria ter um currículo para que seja considerado ‘ambientalizado’” (OLIVEIRA JÚNIOR et al. 2003, p. 42). Desse modo, as instituições compreenderam como estas características devem nortear a prática da organização curricular na temática ambiental, e identificaram os aspectos culturais das práticas curriculares presentes nos conteúdos, nas metodologias e nas práticas sociais trabalhadas nas diferentes universidades participantes do projeto.
Para a equipe de pesquisadores da UNESP20 campus de Rio Claro, a
característica por “Compromisso para a transformação das relações sociedade-
20 Os sentidos atribuídos pela equipe de Rio Claro- UNESP às dez características de Ambientalização
Curricular estão publicadas no terceiro volume editado pela Rede ACES: CARVALHO, Luiz Marcelo. CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro; SANTANA, Luiz Carlos Santana. O processo de Ambientalização Curricular da Unesp- Campus de Rio Claro: diagnóstico e perspectivas. In: CIURANA, Anna Maria Geli de, JUNYENT, Mercê; SÁNCHEZ, Sara (eds). Ambientalización Curricular de los Estúdios Superiores. v. 3- Processos de diagnósticos de la Ambientalización Curricular de los estudios Universitarios. Girona: Universitat de Girona, Sevei, 2003, p. 131- 165.
natureza” entendeu-se o “considerar as possibilidades de transformações entre sociedade e natureza tendo como referência as relações dialéticas que se estabelecem entre estas transformações e as ocorridas nas relações sociais” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 45). Esta característica identifica os campos da ação e do pensamento humano com o objetivo de modificar e melhorar as condições de nossa existência em sociedade. As questões sociais e as relativas à natureza apresentam- se pelas concepções, valores, e práticas individuais e coletivas que correspondem e implicam em melhorar as condições de vida.
A “Complexidade” é caracterizada pela equipe como “assumir o paradigma da complexidade como concepção de mundo e princípio norteador da ação” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 46) entendida como a busca para compreender melhor o mundo, demonstrado pela superação do pensamento reducionista e linear, compreendido pelo pensamento complexo e integrador dos conhecimentos.
Quando se considera a “Ordem disciplinar: flexibilidade e permeabilidade” entendem a “abertura do currículo para interações entre cursos, disciplinas e profissionais de diversas áreas do conhecimento incorporando temáticas e procedimentos diversificados relativos ao meio ambiente” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 47). Ela representa a abertura da incorporação de conteúdos relativos à temática ambiental no currículo.
Por “Contextualização (local-global-local/global-local-global)” entendem a “incorporação de problemáticas locais e globais no tratamento dos problemas referentes à relação sociedade-natureza” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 48) evidenciada pela valorização dos entornos espaciais, locais e temporais.
A característica “Considerar o sujeito na construção do conhecimento” significa para a equipe, “levar em conta o sujeito - como indivíduo e como grupo – na definição e no desenvolvimento de conteúdos, nas metodologias adotadas e nos projetos desenvolvidos” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 49). Entende-se, ainda, a construção de um ambiente de trabalho que possibilite o convívio entre as diferenças de alunos, professores e diretores que atuam nos cursos envolvidos com a temática ambiental.
A característica “Considerar os aspectos cognitivos e de ação das pessoas afetivos, éticos e estéticos” diz respeito à intencionalidade de trabalhar as ações nas suas dimensões éticas e estéticas (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 50) e corresponde ao desenvolvimento integral dos alunos, levando em conta os valores
no contexto histórico, social e cultural que vise compartilhar os diversos saberes e as práticas educativas.
A “Coerência e reconstrução entre teoria e prática” é a construção do conhecimento envolvendo os paradigmas nos contextos reflexivos da temática ambiental manifestada “no âmbito institucional, no das organizações estudantis e no da prática docente” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 50).
A característica “Orientação prospectiva de cenários alternativos (que se respeitem as gerações futuras)” é compreendida pelos pesquisadores de Rio Claro como a possibilidade de:
Promover a formação de profissionais críticos, abertos para novas experiências e para propostas alternativas de gestão das relações sociedade- natureza, comprometidos com a construção de um “novo mundo” e com as futuras gerações (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 50).
A construção do conhecimento refere-se ao compromisso no trabalho educativo para a formação, envolvendo as relações entre o homem, a sociedade e a natureza.
Por “Adequação metodológica” compreende-se a “Coerência e articulação entre conteúdos e metodologias, valorizando propostas metodológicas participativas” (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 52) que ocorre pela articulação entre as práticas educacionais e os pressupostos teóricos que passam a ser o fundamento teórico- reflexivo que o curso adota, observando as metodologias adequadas para a organização dos conteúdos curriculares que possibilitam o desenvolvimento dos saberes ambientais.
E, finalmente, a característica “Gerar espaços de reflexão e participação
democrática” leva em conta os espaços da reflexão e da participação democrática
na questão da autonomia e no desenvolvimento do conhecimento mais democrático e mais participativo na formação das contradições sociais presentes na relação sociedade-natureza (REDE ACES; UNESP, 2003, p. 52).
Em uma síntese não conclusiva, esta seção teve a intenção de destacar como a temática ambiental no Ensino Superior foi sendo inserida por meio das conferências ambientais, bem como os seus reflexos no Brasil. A análise a respeito do currículo na perspectiva da identidade, bem como a caracterização da
Ambientalização Curricular foram apresentadas nesta seção com a finalidade de compreender a temática ambiental no Ensino Superior.
Assim, na próxima seção serão analisados os Projetos pedagógicos dos currículos dos Cursos de graduação da UNIR, campus de Porto Velho – RO em relação à inserção da temática ambiental nesses cursos, ou seja, o processo de Ambientalização Curricular nesta Universidade.
3 AMBIENTALIZAÇÃO CURRICULAR NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE