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4.3   H VA  GJØR  BARNA  DERSOM  DE  SER  BARN  SOM  STENGES  UTE  FRA  LEK  I  BARNEHAGEN ?

4.3.2   Drøfting

A presente tese objetivou analisar a expansão da classe trabalhadora consumidora, optando por não a classificar enquanto Nova Classe Média, dada a heterogeneidade de sua composição.

Uma das nossas inquietações foi o fato de que a expansão da classe trabalhadora consumidora se deu apenas na segunda década de implementação do Plano Real, que data do ano de 1994.

No período em que ocorre a estabilização da moeda, existem avanços no que O’Donnel denominou accountability horizontal, ou seja,

a existência de agências estatais que tem o direito e o poder legal e que estão de fato dispostas e capacitadas para realizar ações, que vão desde a supervisão de rotina a sanções legais ou até o impeachment contra ações ou emissões de outros agentes ou agências do Estado que possam ser qualificadas como delituosas (O’DONNEL, 1998, p. 40, grifos nossos).

Um importante processo em que essa ampliação do accountability se deu é denominado como ordenamento fiscal, majoritariamente realizado no Governo Fernando Henrique Cardoso, incorporando na administração pública a temperança fiscal, através de legislações como a de Responsabilidade Fiscal (lei 101/2000).

De fato, outros elementos foram introduzidos, como as agências reguladoras, à luz de um programa de desestatização, menos profundo do que em outros países latino-americanos, como a Argentina, mas obviamente corroborando com a agenda neoliberal (PALERMO, 1998).

Apesar das restrições aos gastos imoderados, mais impostas do que negociadas com os entes subnacionais, por intermédio da renegociação das dívidas dos estados com o Governo Federal (ABRUCIO, 2002), os Gastos Sociais foram ampliados significativamente em relação ao Produto Interno Bruto (POCHMANN, 2012).

Uma das razões foi a efetivação dos direitos previdenciários consagrados na Constituição Federal de 1988, mas também ocorreu maior ênfase no Ensino

132 Fundamental, financiamento da pequena produção agrícola e transferências de renda, embora essas iniciativas possuíssem menor escala em relação aos governos seguintes, de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Entretanto, observou-se que o Governo Fernando Henrique Cardoso não foi amistoso à geração de emprego e renda, limitando o processo de ascensão social e o postergando para o período seguinte.

Ao adotar uma política refratária ao emprego e de valorização do salário- mínimo menos agressiva do que o de seu sucessor, o Governo FHC não logrou a queda das desigualdades tal como essa se apresentou nos anos 2004-2011. De fato, Soares (2010) observou que, já nos anos FHC, em “1999, antes de a desigualdade começar sua queda, o mercado de trabalho já tinha reduzido o coeficiente de Gini em quase 0,4 ponto de Gini (x100)”, limitado pelo desempenho da previdência no mesmo período.

Além disso, conforme aponta Pochmann, entre 1994 e 2004, as rendas de propriedade (como juros, aluguéis e outros) aumentaram, ao passo em que os salários perderam participação no PIB.

Baixos resultados do ponto de vista do crescimento econômico, com alto desemprego e após uma crise no abastecimento de energia elétrica (em 2001), garantiram que o sucessor de Fernando Henrique Cardoso não fosse um integrante de sua equipe ou grupo político, mas da sua oposição, que se apresenta como contrária às políticas neoliberais que resultassem em desestatização, desindustrialização, perda de empregos (dada a abertura comercial) e dependência do financiamento externo (com capital especulativo).

Durante os anos Lula, vencedor nas eleições gerais de 2002, sucessor do governo FHC, ocorre a manutenção de marcos importantes no processo de estabilização, corroborando o que afirma Loureiro:

com a internacionalização dos mercados e a desregulamentação dos fluxos de capitais, começa-se a observar uma tendência à homogeneização da política macroeconômica entre governos com diferentes orientações ideológicas, realçando-se, como fatores fundamentais das políticas monetárias e fiscais, a mobilidade internacional dos capitais e o regime cambial [...]até os anos 70, as variações das políticas macroeconômicas nestes

133 países estavam relacionadas com a coloração partidária do governo e o grau de institucionalização de suas estruturas corporativas. Mas, a rápida convergência dessas políticas, nos anos 80, tem a ver com a internacionalização da economia (LOUREIRO, 2001, p. 76-77)

Contudo, graças a mudanças no panorama internacional e ao ganho de escala de algumas políticas sociais, ocorre uma expansão do mercado consumidor com queda do desemprego, levando à emergência de uma classe trabalhadora consumidora.

Essa ascensão contempla o outro lado da moeda no aperfeiçoamento dos mecanismos de accountability, promovendo uma sociedade mais plural e refletindo um Estado mais responsivo em relação à massa de trabalhadores historicamente esquecida.

Há uma recomposição do valor do salário-mínimo, remontando aos anos de ditadura civil-militar, uma maior geração de empregos das últimas quatro décadas (POCHMANN, 2012), e a já pronunciada ampliação de escala de políticas sociais, como o financiamento agrícola, a transferência de renda com condicionalidades, dentre outas medidas.

Em que pese existir uma mudança importante, dado o fato de que em nenhum momento da história brasileira foi documentada uma combinação de crescimento econômico com diminuição de desigualdades, tampouco já se registrou um período tão longo de institucionalidades democráticas, a ascensão social não foi considerada nessa tese como uma mudança de classes sociais, pois não ocorre mudança no perfil ocupacional e não se verifica ampliação do tempo livre.

De todo modo, ocorre uma diminuição das despesas relativas dos alimentos, aceleração das transformações sociais, incluindo maior escolaridade, maior acesso a bens de consumo e acesso aos serviços, não apenas ofertados pelo setor público, mas também pelo setor privado.

Essa ascensão, foi denominada na tese como “ascensão horizontal”, sinalizando que não ocorre mudança de classe mas há mudança no bem-estar das famílias e há mais condições objetivas para que estas permaneçam

134 diminuindo o número de integrantes e expandindo a escolaridade, seja pela oferta pública ou privada.

As políticas sociais, acreditamos, se desenvolveram em um processo incremental, não significando mera continuidade ou continuísmo das agendas de outros governos, implicando em uma policy learning e a um path dependence. A reversão ou revisão da trajetória passa a ter alto custo para um governante, a depender da profundidade de tais iniciativas.

A concepção institucionalista aqui apresentada leva em consideração, ainda, que o incrementalismo social verificado após a promulgação da Constituição Federal de 1988, esteve calcado no presidencialismo de coalizão e na responsabilidade fiscal, se constituindo em um complexo sistema, envolvendo ainda a realidade federativa brasileira.

Os resultados foram de expansão da oferta de bens cívicos. Consideramos o acesso regulado aos bens cívicos uma característica dos países em desenvolvimento, dada a escassez em sua oferta, com a definição de quem merece ou não ter acesso.

Obviamente, nesse sentido, a ampliação da oferta dos bens cívicos converge para um quadro de maior responsividade do Estado brasileiro.

Os possuidores de tais bens veem a sua participação social e o reconhecimento assegurados, não por simplesmente possuí-los, pois há uma perspectiva relacional, de reconhecimento e inserção desses indivíduos. Ultrapassa a mera oferta de serviços públicos, mas também inclui o tempo livre, o consumo e a forma como as trocas simbólicas se dão no contexto social, no sentido de promover a igualdade de oportunidades.

Obviamente, o Estado possui papel central na oferta de alguns bens cívicos, como a saúde, a educação e a segurança pública; também o desenvolvimento do transporte, incentivos públicos à sua utilização, além da comunicação e desenvolvimento do mercado.

Os bens cívicos operam como dispositivos importantes para promover a igualdade e o aprofundamento de uma sociedade reflexiva.

135 A inserção social verificada no período analisado, 2001-2011, foi denominada como inserção dependente, dado o fato de ainda não ter se configurado um aumento da ocupação de postos de trabalhos mais qualificados e reflexivos.

Consideramos que se faz necessário aperfeiçoar o nosso entendimento sobre a correlação entre bens cívicos e inserção social, no sentido de se indagar sobre o processo de promoção de grandes contingentes humanos para o patamar de cidadão, mais participativos, capazes de exercer o controle efetivo das ações públicas e a responsabilização de burocratas e lideranças políticas.

Quando tal quadro se fizer realidade, estaremos diante de um país de classe média e plural na construção da agenda e das políticas públicas, dada a ampliação da autonomia dos indivíduos.

Teremos, então, de lidar com outros problemas sociais, outras situações que trarão inquietação de pesquisadores, governos e da sociedade. Mas, então, enfim, teremos superado as nossas características mais marcantes, pois provavelmente deixaremos no passado a violenta desigualdade e a marginalização social.

136

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