• No results found

O cálculo do Índice Municipal de Vulnerabilidade da Agricultura Familiar permitiu além de hierarquizar os municípios cearenses, conhecer em quais pontos a agricultura familiar no estado precisa ser mais apoiada.

O Ceará tem um IMVAF médio de 0,662. Esse valor pode ser considerado intermediário, se for levado em consideração o critério de classificação do grau de vulnerabilidade, resultante da análise de agrupamento. Provavelmente, esse resultado seja um reflexo da maior articulação do governo em prol da ascensão da Agricultura Familiar como categoria produtiva. Ao comparar esse valor do IMVAF médio do Ceará (0,662) como o do Maciço de Baturité (0,632), conclui-se que os valores não são discrepantes. No entanto, essas estatísticas não podem ser consideradas tão animadoras, uma vez que o índice possui uma curta escala de variação (de 0 a 1), o que evidencia que tais valores não são pequenos.

Como resultado da Análise de agrupamento, se teve a formação de três clusters, o que permitiu agrupar os municípios, segundo seus respectivos IMVAF e assim propor uma classificação para os mesmos. Os municípios com IMVAF, relativamente, menor, ou seja, possivelmente, em melhor situação, foram agrupados no primeiro cluster, totalizando, portanto, 22 municípios (11,96%).

Já os municípios com um IMVAF intermediário foram agrupados no segundo cluster, sendo que nesse cluster foi identificada a maior parte dos municípios cearenses, num total de 96 municípios (52,17%). Por último, os municípios que obtiveram um IMVAF, relativamente, maior, foram reunidos no terceiro cluster, sendo em número, 66 municípios (35,87%).

Através da identificação do intervalo de variação de cada cluster formado, foi possível construir um mapa temático do Ceará, o qual permitiu visualizar com mais facilidade as regiões onde se concentrava os municípios com menor, intermediário e maior IMVAF. Dessa forma pode-se inferir que os municípios com menor IMVAF se encontram em maior número no Território rural do Vale do Jaguaribe e Litoral Leste.

Quanto aos municípios com maior IMVAF, os mesmos se localizam, em predominância, no Território Rural de Sobral, Litoral Oeste e, em relação aos do Sertão de Inhamus, somente os que fazem divisa com os territórios supracitados (Sobral e Litoral Oeste).

Ao particularizar o Território Rural do Maciço de Baturité, pode concluir que dos treze municípios que compõe o Território, apenas Pacoti está inserido no cluster formado pelos municípios com menor IMVAF. No entanto, sete municípios (Pacoti, Baturité, Aratuba, Barreira, Capistrano, Ocara e Palmácia) possuem um IMVAF abaixo do Índice médio do Território (< 0,632). Assim como no Estado do Ceará, a maior parte dos municípios do Maciço de Baturité (76,92%) obteve um IMVAF considerado intermediário (conforme critério de classificação da Análise de Agrupamento). Os maiores IMVAF foi percebido em Guaramiranga e Acarape.

Objetivando traçar um comparativo entre os municípios do Território Rural Maciço de Baturité e os demais municípios cearenses, optou-se por fazer uma comparação territorial do IMVAF. Assim sendo, agrupou-se os municípios em seus respectivos Territórios Rurais para observar o IMVF médio por Território. Os resultados corroboram com a formação dos clusters, uma vez que os Territórios com menor IMVAF foi o Vale do Jaguaribe (0,559) e o Litoral Leste (0,601). Dentre os 13 Territórios Rurais do Estado do Ceará, o Maciço de Baturité (0,632) ficou na quarta posição, enquanto o Litoral extremo oeste (0,757) obteve o maior IMVAF.

Dessa forma, pode-se inferir que a realidade da agricultura familiar dos municípios do Maciço de Baturité comparada a dos outros municípios cearenses, considerando os indicadores selecionados, não é muito discrepante.

No entanto, não basta apenas conhecer tais valores (IMVAF) é preciso saber quais fatores (dentre os selecionados para a análise) teve maior impacto nesses resultados e para alcançar tal objetivo, utilizou-se a Análise discriminante. Dessa forma, se pode concluir que todas as variáveis selecionadas para a construção do Índice foram significativas para diferenciar os grupos, e conseqüentemente, a situação dos municípios que compõe os mesmos.

Os indicadores que apontam maior tendência a melhor descriminar os grupos é a proporção de estabelecimentos que não utilizam tração animal ou mecânica e a proxy da comercialização. No entanto, percebe-se que as médias de alguns indicadores, em especial aqueles que têm um menor poder discriminante dos grupos, são altas, em todos os clusters, ou seja, uma vez tais indicadores não diferenciando bem os grupos e possuindo altas médias, evidencia que os mesmos são deficientes em todos os municípios.

Nesse caso, destacam-se três: o controle de pragas ou doenças, prática que muitos agricultores não faz, o rendimento médio do estabelecimento, no caso os valores são muito baixos e, por fim, a questão da escolaridade, a qual tem deixado a desejar, uma vez que

grande parte dos estabelecimentos agropecuários de agricultura familiar no Ceará são dirigidos por produtores que não sabem lê nem escrever.

É imprescindível frisar que, embora tenha sido citado apenas esses três indicadores como os de pior situação em todos os grupos, isto é, mesmo no grupo dos municípios com menor IMVAF, os demais indicadores também são considerados preocupantes, principalmente nos municípios com maior IMVAF.

A pesquisa de campo foi fundamental para que a realidade desses agricultores, a qual era apenas ouvida, fosse melhor percebida face a face. Pode-se dizer que os números aqui calculados, em alguns casos, até superestima a dificuldade que muitos agricultores enfrentam. No Maciço de Baturité, Território Rural visitado, as carências apontadas, neste estudo, pelo cálculo do índice, podem não só serem confirmadas, mas também acrescidas de outras.

Em todos os municípios pesquisados na região, três fatores foram recorrentemente citados como aqueles que mais inviabilizariam o desenvolvimento da agricultura familiar nessas localidades: água, terra e crédito. Parece até ilusório que municípios com certo grau de infra-estrutura, relativamente próximos da capital do estado, tenham pessoas sem água para beber, por isso a agricultura familiar deve ser valorizada como um todo, pois os problemas inerentes a diversos agricultores são multifacetados. Logo, é preciso criar estratégias que confira aos mesmos, reais condições de conviver com os riscos e dificuldades inerentes a essa categoria produtiva.

A vulnerabilidade é uma condição, portanto é passível de ser transformada. Os riscos intrínsecos a agricultura familiar como categoria produtiva são inevitáveis, porém é preciso intervir nas condições de vulnerabilidade a qual a mesma se encontra, para que esses agricultores possam reagir positivamente às ameaças externas.