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A jornada do experimento “piloto” foi planejada e realizada por entendermos ser um procedimento necessário na obtenção do “feedback” para a elaboração da proposta definitiva.

O projeto foi idealizado tendo como enfoque os objetivos gerais da tese e das Diretrizes dos Parâmetros Curriculares Nacionais que norteiam o ensino de Geografia para o primeiro ciclo fundamental, o qual apresenta como bloco temático intitulado de “Estudo da Paisagem Local” e, como subitem, “O lugar e a paisagem”. Segundo os PCN’s, “trata das relações mais individualizadas dos alunos com o lugar em que vivem”, cujas principais afinidades estão relacionadas com:

- conhecimento das relações entre as pessoas e o lugar: as condições de vida, as histórias, as relações afetivas e de identidade com o lugar onde vivem;

- produção de mapas ou roteiros simples, considerando características da linguagem cartográfica como as relações de distância e direção e o sistema de cores e legendas;

- organização, com auxílio do professor, de suas pesquisas e das conquistas de seus conhecimentos em obras individuais ou coletivas: textos, fotos, desenhos, dramatizações, exposições, entre outras. (BRASIL, PCN’s 1998, p. 16)

Diante das relações temáticas conceituais elencadas nos PCN’s e com base nos objetivos do estudo do espaço em que os alunos vivem, foi desenvolvido o trabalho de campo. Após a definição do bairro, da escola e do caminho a ser trilhado, foram discutidos o tema e os objetivos do trabalho e verificado, junto à turma, o que já conheciam a respeito dos lugares a serem visitados e os conceitos geográficos a serem discutidos nas paradas técnicas.

Nesse sentido, foi aplicada uma avaliação preliminar que constou de perguntas sobre orientação e movimentos das marés. Esse procedimento permitiu a verificação de aprendizagem dos educandos após a jornada, com aplicação de uma avaliação final.

Para a execução da tarefa, foi escolhido o Bairro de São Benedito, área situada na porção sudeste da Zona Urbana da Cidade de São José de Ribamar. A escolha do bairro deu- se por se tratar do local onde a escola, locus da pesquisa, está localizada e por apresentar as condições necessárias para se fazer uma análise dos conceitos geográficos como, por exemplo, orientação geográfica, igarapé, porto, praia, maré, vento, baía, entre outros conceitos concernentes à observação da paisagem litorânea, uma vez que a escola está localizada próxima ao igarapé do Vieira, um dos elementos da paisagem que serviu de panorama nas discussões sobre o lugar vivido.

Antes do dia marcado para o início da 1ª “Jornada Geográfica Litorânea”, foi enviado aos pais um pedido de autorização, com a data e o percurso da jornada. Esse procedimento foi

realizado no sentido de informar sobre as atividades que seus filhos desenvolveriam fora da escola e, em último lugar, resguardar a escola de possíveis saídas de alunos fora do horário de aula, daqueles que não fizessem parte da equipe da pesquisa escolar daquele dia.

A 1ª “Jornada Geográfica Litorânea” foi realizada por terra em um percurso aproximado de 2,0 km, em um trecho compreendido entre a escola locus do estudo e a estátua de São José de Ribamar, padroeiro da cidade e do estado do Maranhão, com início no dia 22 de outubro de 2010 e término no dia 03 de dezembro do mesmo ano.

O trabalho de campo foi definido e realizado em equipes com grupos de cinco alunos, com saídas da escola nas sextas-feiras às 8h e retorno previsto para às 10h e 30min, acompanhados do pesquisador e da professora de Geografia efetiva da escola, Celene de Jesus Ferreira Costa. A escolha da sequência dos participantes obedeceu à ordem alfabética do diário de classe, no sentido de contemplar todos os alunos, sem distinção de gênero.

O caminho trilhado apresenta uma topografia relativamente plana, com exceção do platô onde está localizada a Estátua de São José. O itinerário seguido apresenta um predomínio de habitações residenciais, exceto a orla da praia onde o predomínio é de bares e restaurantes. Foram encontradas no percurso quatro igrejas, treze casas comerciais de gêneros alimentícios, vinte e oito bares/restaurantes, uma lanchonete, um terminal de vans, três escolas, três oficinas mecânicas, quatro estaleiros, duas barbearias, duas fábricas de gelo e dois hotéis.

A “Jornada Geográfica Litorânea” (Figura 37) teve início na Escola Municipal José Ribamar Moraes Silva e seguiu pelas ruas 28 de Julho, Salustiano Diniz, Cajueiro, porto do Cajueiro, travessa Bom Jesus, margem direita do igarapé do Vieira até o Porto do mesmo nome. Na sequência, a jornada seguiu pela Prainha, Praia de Banho e Estátua de São José, final do percurso.

Figura 37 - Trilha da 1ª Jornada Geográfica Litorânea - “piloto” Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2009 Adaptado por FONSÊCA, Alexandre Vítor de Lima, 2010

Optou-se pelas saídas ao campo de estudo às 6ª feiras em função dos horários vagos da professora Celene de Jesus Ferreira Costa em outras séries. Desta forma não causaria déficit em sua carga horária estabelecida pelo sistema educacional do município, visto que era a única professora a ministrar aulas de Geografia na escola.

Cada aluno portava um kit24 com uma câmera fotográfica digital que tinha como objetivo fotografar, ao longo do percurso, os elementos da paisagem que mais aguçavam sua percepção. Nas paradas técnicas, desenhavam a mão livre o que mais lhes chamava a atenção. (Figura 38)

Durante o percurso, houve a necessidade de quatro paradas técnicas, previamente estabelecidas, que serviram de cenário para explicação e discussão sobre a realidade observada, coleta de dados para a confecção de um mapa temático da área, com a intenção de registrar, durante o trajeto, os elementos observados da paisagem, tais como: vegetação, casas

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O kit foi composto por uma câmera digital, um crachá de identificação do aluno, um boné branco com a identificação da jornada, uma prancheta de mão com folhas de papel para desenho, um lápis e uma borracha.

Figura 38 - Desenho de um barco

comerciais, estaleiros e serviços públicos existentes ao longo do percurso, entre outros elementos que fazem parte do panorama.

A primeira parada técnica ocorreu no Porto do Cajueiro (Figura 39) após uma caminhada de aproximadamente 20 minutos da escola. Nesse ponto, foram observadas as embarcações dos pescadores, bem como as condições físicas e sociais do local.

O lugar é caracterizado pela presença de lixo, uma vez que a área do porto se localiza no fim da rua do Cajueiro e coincide com o término de um canal de escoamento pluvial do bairro. A parada serviu como ponto de observação para as objetivas das câmeras dos educandos. Também aproveitamos o momento para discussão do conceito de porto e sua relação socioeconômica.

Durante a parada, as lentes das câmeras se voltaram para os detalhes das canoas dos pescadores e os objetos do entorno (comércios, praça, porto, veículos e estaleiro). Em

Figura 39 - Porto do Cajueiro Fonte: Arquivo do autor, 2010

seguida, a equipe fez uma pausa na caminhada junto a uma franja de mangue, resquícios da vegetação primária em processo de recuperação.

A segunda parada aconteceu no Porto do Vieira (Figura 40), cujo igarapé de acesso tem a mesma denominação. Nesse local, foram discutidos os movimentos de chegada e saída das embarcações, embarque e desembarque de mercadorias, entre elas o pescado.

A parada foi no sentido de provocar uma discussão sobre os problemas socioambientais ao longo do igarapé do Vieira, destacando a importância do manguezal enquanto berçário e criadouro de espécies animais e como proteção da força das ondas junto à praia. Aproveitando a parada, o foco da discussão foi a configuração topográfica do local. Quando da baixa-mar, deslumbra-se um extraordinário vale, permitindo um amplo campo de visão, cenário perfeito para exploração do conceito de igarapé.

A terceira parada foi realizada na Praia de Banho (Figura 41), local que, em função dos aspectos físicos, apresenta boas condições para análise e discussão de vários conceitos geográficos complementares, entre eles destaca-se praia, estirâncio e declividade. As

Figura 40 - Porto do Vieira Fonte: Arquivo do autor, 2010

alterações do espaço físico do local com a presença dos estabelecimentos residenciais e comerciais ao longo da faixa de praia também foram discutidos, visto que a ação antrópica também tem contribuído para a alteração do ambiente marinho.

O cenário serviu de inspiração para as lentes das equipes que por lá passaram como registro das tarefas do estudo do meio.

A última parada foi junto à Estátua de São José de Ribamar (Figura 42), um dos símbolos religiosos da cidade. Esse local se constituía em uma antiga falésia. Há duas décadas foi construída uma avenida no entorno de sua base com muro de proteção, passeio, bares, restaurantes e um quebra-mar, com o intuito de evitar o assoreamento do canal do igarapé do Vieira, única via de acesso ao porto do mesmo nome.

O platô onde foi construída a Estátua de São José, em função da altitude, oferece uma ampla visualização e, portanto, proporciona uma observação privilegiada de toda a baía de São José, com destaque para a configuração física da interface continente/oceano e

Figura 41 - Praia de Banho Fonte: Arquivo do autor, 2010

visualização dos movimentos das embarcações na referida baía. Esse momento foi aproveitado para as fotos panorâmicas e discussão do conceito de baía, com observações sobre orientação das embarcações e aprofundamento das discussões que dizem respeito aos problemas socioambientais relacionados às alterações físicas do espaço urbano, em consequência, dentre outras questões, da especulação imobiliária.

Ao longo do percurso, os alunos marcaram no mapa de apoio os estabelecimentos comerciais, os portos, os estaleiros, assim como os serviços públicos (educação, saúde, segurança, sindicato, associação comunitária, colônia de pescadores e mercado municipal), para posterior elaboração de um mapa temático do percurso.

A passagem pelo trecho das praias somente foi possível em função da dinâmica da maré que se encontrava na vazante durante todos os períodos de deslocamento das equipes para o estudo de campo.

Figura 42 - Estátua de São José de Ribamar Fonte: Arquivo do autor, 2010