Primeiramente, foram apresentados os resultados das análises laboratoriais obtidos para as todos os eventos de captura das onças-pintadas das três áreas de estudo (captura e posterior recaptura). Em seguida, os diagnósticos foram apresentados levando em consideração a espécie e a área preservada amostrada. Para a elaboração das tabelas e análises estatísticas, os resultados dos testes das onças-pintadas recapturadas foram interpretados em paralelo (o animal que apresentou pelo menos um resultado positivo na captura ou recaptura foi considerado positivo), evitando a pseudorreplicação e garantindo a independência dos dados (PATERSON; LELLO, 2003).
Para a interpretação de diferentes títulos de anticorpos diagnosticados nas onças- pintadas recapturadas, apenas as mudanças geométricas quádruplas ou superiores foram consideradas significativas (THRUSFIELD, 2004).
O monitoramento das onças-pintadas e os diagnósticos laboratoriais permitiram a elaboração de mapas temáticos e caracterização da distribuição espacial dos patógenos nas áreas de estudo. A propriedade com pelo menos um animal diagnosticado positivo para determinado patógeno foi considerada foco da infecção.
4.8.1 Análises estatísticas
Para comparar os diagnósticos obtidos para as diferentes espécies amostradas e áreas de estudo, e testar o efeito do sexo e idade nos diagnósticos das onças-pintadas utilizou-se um Modelo Linear Generalizado (MLG) com distribuição de erro binomial e função de ligação logit, que corresponde a uma regressão logística. O MLG é um modelo estatístico utilizado para analisar a associação de dados independentes que não seguem obrigatoriamente a distribuição Normal e variáveis dependentes (PATERSON; LELLO, 2003). Os modelos foram implementados utilizando o programa computacional R, versão 2.10.1 (R. Development Core Team, 2009).
4.8.1.1 Efeito da área de estudo e espécie amostrada na ocorrência dos patógenos selecionados
Cada patógeno pesquisado foi analisado com um modelo separado. Para cada indivíduo i
amostrado, as análises realizadas permitiram a obtenção de um resultado (Ri) negativo ou
positivo (0 ou 1) para o diagnóstico de cada patógeno. Esse resultado foi modelado como uma variável randômica de Bernoulli com a probabilidade p de ser positivo, sendo que, a probabilidade da ocorrência do patógeno pode ser influenciada pelas variáveis independentes
categóricas: espécie (ei, onça-pintada, bovino, cão e gato doméstico) ou área de estudo (bi,
Parque Nacional das Emas, Pantanal e Parque Estadual do Cantão). Não há interação entre espécie e área de estudo. Para modelar a probabilidade p como uma função linear das variáveis independentes, p é transformada, através da função de ligação Logit. Assim, o modelo completo é:
Ri ~ Benoulli (pi)
Logit (pi) = α + β1 (ei) + β2 (bi)
pi = 1/1 + exp (Logit [pi])
Onde, Ri = resultado (0 ou 1); pi = probabilidade do indivíduo i ser positivo para o
diagnóstico do patógeno; e = espécie; b = área de estudo; α = intercepto; β1 = coeficiente que
representa o efeito da espécie e na probabilidade do indivíduo ser positivo; β2 = coeficiente que
representa o efeito da área de estudo b na probabilidade do indivíduo ser positivo.
Para cada modelo aplicado foi apresentado uma tabela com as estimativas dos coeficientes, juntamente com seu erro padrão (SE), intervalo de confiança de 95% (IC95) e valor de p. Coeficientes com valores de p < 0,05 foram considerados ter um efeito estatisticamente significativos na probabilidade do indivíduo ser positivo.
4.8.1.2 Efeito do sexo e idade na ocorrência de patógenos nas onças-pintadas
Para pesquisar o efeito da idade na ocorrência dos patógenos nas onças-pintadas, indivíduos filhotes, jovens e subadultos foram agrupados em um único grupo (onças jovens) e comparados aos animais adultos (>2 anos), independente da área de estudo em que foram capturadas. Novamente cada patógeno pesquisado foi analisado separadamente com um
modelo similar ao anterior. Desta vez, a probabilidade p do indivíduo i ser positivo para um
patógeno foi modelada em função do sexo (si, fêmea e macho) e da idade (ai, jovem e adulto).
Ri ~ Benoulli (pi)
Logit (pi) = α + β1[si] + β2[ai]
pi=1/1+ exp (Logit [pi])
Onde, R = resultado (0 ou 1); p = probabilidade do indivíduo ser positivo para o
diagnóstico do patógeno; s = sexo; a = idade; α = intercepto; β1 = coeficiente que representa o
efeito do sexo s na probabilidade do indivíduo ser positivo; β2 = coeficiente que representa o
efeito da idade a na probabilidade do indivíduo ser positivo.
Para cada modelo aplicado foi apresentado uma tabela com as estimativas dos coeficientes, juntamente com seu erro padrão (SE), intervalo de confiança de 95% (IC95) e valor de p. Coeficientes com valores de p < 0,05 foram considerados ter um efeito estatisticamente significativos na probabilidade do indivíduo ser positivo.
5
RESULTADOS
São descritos a seguir os resultados encontrados no presente estudo.
5.1 CAPTURASDEONÇAS-PINTADAS
Durante o período de estudo foram realizadas 30 campanhas para captura de onças- pintadas utilizando cães rastreadores no Parque Nacional das Emas, Pantanal e Parque Estadual do Cantão. No total de 141 dias de esforço foram obtidos 44 eventos de captura e sucesso de captura de 31,2% (Tabela 1).
Através das armadilhas do tipo gaiolas, no PNE, um indivíduo, previamente capturado em 2000 foi recapturado em 2004 durante uma campanha para captura de carnívoros de médio porte. Em 2007, realizou-se um esforço de 170 armadilhas-noites, sem nenhum evento de captura. Entre agosto e dezembro de 2008, acumulou-se um esforço de 2.296 armadilhas-noites, sem sucesso de captura. Embora durante esse último esforço, as onças não tenham sido capturadas, elas foram registradas através de armadilhas fotográficas instaladas em frente às gaiolas nas estradas do PNE (Figuras 32 e 33).
No PEC, através das armadilhas do tipo gaiolas, durante o ano de 2006, realizou-se um esforço de 189 armadilhas-noites, sem sucesso de captura.
As figuras 34 a 36 ilustram os locais de captura e recaptura dos felinos nas áreas de estudo.
Tabela 1 – Esforços amostrais para captura de onças-pintadas utilizando cães rastreadores: número de campanhas, dias de esforço, número de eventos e sucesso de captura no Parque Nacional das Emas (PNE), Pantanal (PAN) e Parque Estadual do Cantão (PEC) durante o período de fevereiro de 2000 a setembro de 2009 Eventos de captura Área amostrada N° Campanhas Dias de
esforço Captura Recaptura
Sucesso de captura (%) PNE 6 37 5 3 21,6 PAN 22 90 22 11 36,7 PEC 2 14 3 0 21,4 Total 30 141 30 14 31,2
Figura 34 – Localização das capturas e recapturas das onças-pintadas no Parque Nacional das Emas
Figura 32 – Fêmea e filhote de onça pintada registrados através de armadilha fotográfica em frente à gaiola no PNE
Figura 33 – Onça-pintada fotografada em frente à gaiola, durante deslocamento pelo PNE © In st it u to O n ça -P in ta d a © In st it u to O n ça -P in ta d a
Figura 35 – Localização das capturas e recapturas das onças-pintadas no Pantanal