É importante entender que “a organização territorial traduz-se em fluxos de informação, conhecimento e decisões que engendram, por sua vez, fluxos de produtos, dinheiro, pessoas e energia, por meio de redes” (ALBAGLI, 2004, p. 40).
Torna-se necessário, então, entender rede social, o que Marques (1999) considera como:
O campo, presente em determinado momento, estruturado por vínculos entre indivíduos, grupos e organizações construídos ao longo do tempo. Esses vínculos têm diversas naturezas, e podem ter sido construídos intencionalmente, embora a sua maioria tenha origem em relações herdadas de outros contextos (p. 46).
Acompanhando esta definição, este autor afirma que “redes são, portanto, a estrutura do campo no interior do qual estão imersos os atores sociais e políticos relevantes em cada situação concreta” (MARQUES, 1999, p. 46).
Para Raffestin (1993), “uma rede é um sistema de linhas que desenham tramas. Uma rede pode ser abstrata ou concreta, visível ou invisível” (p.156). Assim sendo, as redes são criadas por atores que agem e tentam manter relações, assegurando funções, influência, controle, interdição, permissão, distanciamento ou aproximação (RAFFESTIN, 1993).
O autor acima menciona ainda que “a rede é por definição móvel, no quadro espaço- temporal. Ela depende dos atores que geram e controlam os pontos da rede, ou melhor, da posição relativa que cada um deles ocupa em relação aos fluxos que circulam ou que são comunicados na rede ou nas redes” (RAFFESTIN, 1993, p. 207).
De acordo com essas considerações, entende-se, então, por redes sociais, uma comunidade, na qual os atores são considerados como os pontos da rede, ligados uns aos outros pelas relações que estabelecem a partir de objetivos comuns.
Tomando como base um conjunto de atores definidos a partir de suas posições de poder, notam-se determinados padrões de vínculos entre estes atores (individualmente ou de forma coletiva) constituindo as redes que alimentam uma determinada espacialidade, neste caso a da Ilha do Atalaia.
Assim, hoje se encontra neste espaço um conjunto de situações sociais que, na medida em que vê esse território como espaço estratégico para a articulação política e econômica de atores sociais dominantes, intencionam atrair uma população de fora do município, através da venda de loteamentos com elementos cada vez mais atrativos.
Exemplos dessa realidade, na Ilha do Atalaia, podem ser vistos nas residências e nos conjuntos residenciais, cujos padrões são elevados, sofisticados e com qualidade adequada para atender determinada demanda, impulsionando, cada vez mais, a atividade de segunda residência, a qual apresenta atores que podem pagar por estes empreendimentos.
Deste modo, a existência de redes de atores mais fortes economicamente define os elementos, objetos e ações na Ilha do Atalaia, os quais torna, de forma gradativa e intensa, mais viável a transformação do espaço em mercadoria.
Existem, então, no espaço da Ilha ações contínuas e consecutivas entre atores diversos, realizadas a partir de regras formais e informais que surgem em torno de temas ou decisões nos quais determinados atores têm interesse comuns como é o caso do uso do espaço como valor de troca, como exemplo, tem-se um uso que atende ao mercado imobiliário, cujas estratégias estão direta ou indiretamente vinculadas aos proprietários fundiários e às políticas locais.
Diante dessas considerações, entende-se que as políticas de reordenamento na Ilha do Atalaia devem analisar cautelosamente a realidade observada no município, onde as “tramas desenhadas” pelas relações entre atores que defendem que o uso do espaço pela população de segunda residência é a melhor forma de promover o desenvolvimento turístico e econômico de Salinópolis, uma vez que se necessita considerar também o ponto de vista da população local, assim como o uso coletivo desse espaço.
É possível afirmar que é muito complexo tentar desfazer as estratégias e as ideologias dominantes das redes sociais que primam por dar continuidade ao tipo de uso existente hoje na Ilha do Atalaia (em que o espaço é visto como elemento fundamental para atender ao capital), já que estas buscam impor seus interesses, mostrando que “toda rede é uma imagem do poder, ou , mais exatamente do poder do ou dos atores dominantes” (RAFFESTIN, 1993, p. 157). Assim,
as direções do processo de reestruturação do espaço são definidas pelos agentes hegemônicos da produção social do espaço, mas concorrem para essa conformação os demais agentes locais que estabelecem correlações de forças e redes de ação com vistas à apropriação e o controle do espaço. Isso é facilitado pela transformação do espaço social em espaço abstrato, ou seja, do espaço precipuamente valor de uso em espaço mercadoria (DA TRINDADE JÚNIOR, 1998, p. 48).
Para Mendes e Pereira (2005), a Ilha do Atalaia como espaço socialmente produzido representa uma estratégia do capitalismo, através dos agentes produtores do espaço com poder de decisão e capital, como o Estado, os promotores imobiliários, os proprietários fundiários e os proprietários dos meios de produção, “onde a grande massa apresenta-se excluída” (p. 43).
Percebe-se, então, que a organização do território traduz os tipos de relaçães estabelecidas entre os diferentes atores (locais e externos) e entre os diversos subespaços que
o compõem, podendo caracterizar-se por variados níveis de hierarquia, dominação, reciprocidade e complementaridade (ALBAGLI, 2004).
Neste sentido, um dos maiores desafios é intervir no processo de uso e ocupação do solo impulsionado pelo mercado imobiliário e de veraneio, uma vez que as políticas públicas do município, incentivam a ocupação dos espaços da Ilha do Atalaia, sem levar em consideração o direito público de usufruto, estabelecendo, assim, relações pautadas nas exigências do capital.
Na Ilha do Atalaia, nota-se, então, que há muitos atores sociais cujos interesses são compatíveis com as regras do mercado e, a fim de atender tais interesses, desenvolvem conexões (redes) entre si ou com outros que intencionam a permanência de suas ações, o que permite a configuração do espaço como condição de reprodução das relações de poder, tornando cada vez mais difícil e complexa a “quebra” dessas conexões.