3.3 Arbeidsopplegg
3.3.5 Dokumentasjon og bruk av teknisk utstyr
Pelos meios convencionais, que demandam tempo considerável para a negociação de direitos e o transporte de cópias de exibição, teria sido impossível achar uma alternativa para Pirated Copy dentro do prazo. Felizmente, eu ainda podia contar com os canais
não-convencionais – e assim, pude encontrar uma solução nas duas partes de Steal this Film (The League of Noble Peers, 2006-2007). Esse par de documentários suecos
também lida com o tema da pirataria cinematográfica. Além da coincidência temática, os dois reunidos possuem uma duração similar à de Pirated Copy, de modo que poderiam ocupar perfeitamente o espaço do longa chinês na mostra. Entretanto, essas não foram as únicas razões que fizeram de Steal this Film o substituto ideal de última hora. Mais importante foi a sua disponibilidade.
Tendo sido produzido por ativistas anticopyright, Steal this Film pode ser facilmente encontrado na Internet, e sua distribuição e exibição desautorizada é até mesmo encorajada pelo site oficial. Conforme a página de dúvidas frequentes (FAQ) sobre o filme:
P. Eu quero exibir [Steal this Film] (1 ou 2) no meu festival: vocês podem me enviar um DVD / Fita Beta / Laserdisc / VHS / disco 12"...
R. Nós realmente preferimos que não. Não é que não respeitemos o seu festival, e IRÍAMOS adorar se você exibisse o filme, e não é que a gente se ache especial, e nós realmente apreciamos sua atenção. É que nós não temos um escritório, não temos um videocassete Beta deck, e você PODE simplesmente baixar o filme do nosso site e ele ESTÁ em qualidade HD e sério, já não está na HORA de você aprender a usar Bittorrent?(THE LEAGUE OF NOBLE PEERS, 2007).
A resposta revela algumas mudanças provocadas nas condições de distribuição do filme pelas redes digitais: em primeiro lugar, os produtores não precisam mais possuir uma pesada infraestrutura para disseminar seus lançamentos, uma vez que eles podem contar com a atividade (e os equipamentos) do próprio público. Além disso, ela sugere que o modo de distribuição de Steal this Film é parte de um projeto pedagógico maior. O trabalho propõe uma forma de interação que vai além da mera espectação passiva. O engajamento do público com a obra não é definido por suas condições de consumo, mas de acesso.
Nesse sentido, podemos dizer que Steal this Film não é um filme pra ser assistido no cinema, nem simplesmente um filme para ser visto no computador: é um filme para ser
baixado. Seu principal modo de consumo envolve a obtenção do arquivo por meio da
Internet – e não de um servidor central, mas através de transferência peer-to-peer. Por mais simples que possa parecer, essa atividade coloca o público em contato com a infraestrutura do meio, abrindo os processos de circulação de filmes. Nessa operação, os espectadores se tornam particularmente responsáveis pela distribuição do filme: em primeiro lugar, quando se tornam servidores (chamados “seeders”) do seu arquivo de dados em redes p2p; depois, quando voluntariamente assumem o papel de colaboradores, traduzindo as legendas de Steal this Film (já para mais de vinte idiomas diferentes) e fazendo doações aos realizadores. Assim, o próprio público expande o alcance do filme a audiências internacionais, e se torna uma fonte de financiamento para os futuros projetos dos produtores.
Dado o modo como Steal this Film se aproveita de diferentes formas de apropriação pela audiência, pode parecer contraditório que o filme tenha sido lançado segundo uma licença copyright convencional, que restringe o acesso público ao trabalho e torna ilegal até mesmo copiá-lo e distribuí-lo sem autorização prévia (por exemplo, na Internet). Na verdade, essa aparente contradição é um ponto-chave do tipo de interação sociotécnica
que a obra visa a promover. A razão para tanto também está explicada no FAQ, já na primeira resposta:
P. Por que seu filme tem copyright?
R. Para que você possa roubá-lo. Claro que há mais a dizer sobre isso, mas estamos certo que você pode perceber sozinho. (ibid.)
Logo, a restrição de cópia se faz condição essencial para que a provocação do título do trabalho seja possível: roube esse filme. É essa provocação que chama a atenção para o aparentemente simples processo de baixar o arquivo como uma operação que desafia os parâmetros de autorização tradicionais da rede de criação cinematográfica. Desse modo,
Steal this Film faz a sua primeira declaração antes mesmo da primeira cena. Para assisti-
lo, a audiência é obrigada a desrespeitar a lei, se envolvendo com pirataria de uma maneira muito mais intensa do que se simplesmente estivesse ouvindo a opinião de alguns especialistas sobre o tema. Como o FAQ do filme sugere, esse dilema legal deveria suscitar uma reflexão crítica.
Por definir sua própria circulação de acordo com as dinâmicas de distribuição próprias do compartilhamento de arquivos na Internet, Steal this Film pôde ser facilmente incluído na programação de Distâncias Negadas. Os realizadores responderam prontamente aos meus emails, não colocando qualquer dificuldade contratual para o Instituto Itaú Cultural. Além disso, legendas do filme em português, feitas pela própria audiência, já estavam disponíveis, liberando a produção da mostra dessa árdua tarefa. Em verdade, Steal this Film parece uma obra tão adequada para Distâncias Negadas que alguém poderia ter me perguntado por que ele não foi a minha primeira escolha, ao invés do inacessível Pirated Copy.
A razão de evitar Steal this Film em detrimento de Pirated Copy ficaria clara tão logo o filme fosse exibido. Em uma sala de cinema tradicional, em que se encontra privado de dispositivos online com os quais “provocar” a audiência, Steal this Film perde grande parte do seu apelo. Trata-se de um documentário bastante convencional, que discute a pirataria cinematográfica a partir do debate corrente sobre copyright. Ainda que toque em aspectos econômicos, políticos e técnicos da questão, ele se limita a ouvir as autoridades sobre o tópico. Os possíveis efeitos da pirataria na vida do público e na experiência do meio, tão bem ilustrados pela etnografia ficcional de Pirated Copy, são
deixados de lado. Em outras palavras, ainda que ele se disponha a promover formas radicais de interação com as tecnologias do cinema, no arranjo expositivo possibilitado por uma sala de projeção convencional, Steal this Film parece uma obra mais conservadora que um longa-metragem melodramático como Pirated Copy.