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Quando residimos por muito tempo em determinado lugar, podemos conhecê-lo intimamente, porém a sua imagem pode não ser nítida, a menos que possamos também vê-lo de fora e pensemos em nossa experiência. (TUAN, 1983, p. 20-21)

A intenção é buscar de forma clara, entender e reconhecer, a partir das memórias, o significado de alguns lugares para um determinado grupo de pessoas, avaliando o poder de comunicação que esses espaços emitem sobre esse determinado grupo, que vive e faz uso do mesmo.

A base dessa leitura será a dissertação de Giannina Picado Maykall, apresentada no ano de 2004, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de Brasília – FAU – UnB, com o tema: “Um olhar sobre o Espaço Urbano como Símbolo”. Tal pesquisa trata das relações entre as configurações urbanas e os simbolismos, que as coletividades sociais interpretam a partir delas, objetivando a investigação da questão simbólica dos lugares.

No que toca às questões de legitimidade, a companhia será de Kevin Lynch, com seu livro “A Imagem da Cidade” (1977), Henri-Pierre Jeudy, com o livro” “Espelho das Cidades” (2005) e Maria Elaine Kohlsdorf, com seu livro: “A apreensão da Forma da Cidade” (1996).

De início, considero impossível entender a relação entre o homem e o espaço por ele habitado, sem antes buscar a percepção do significado que esse espaço significa para o

mesmo, considerando que essa é a força que torna legitimo esse espaço e que o coloca em um patamar de destaque aos olhos daquele que dele faz uso.

Para Holanda, pode-se considerar como símbolo tudo o que, seja por sua forma, seja por sua natureza, evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente (2010).

Se pensarmos nos espaços que nos deparamos em nosso cotidiano, percebemos que alguns comparecem a partir de um forte apelo emocional, ou seja, tem significado especial para nós, nos transmite algo que justifica sua presença em nossa mente, em nosso coração, enquanto outros nada significam, passam despercebidos em nossa vida.

Nesse sentido, o espaço é elevado a categoria de lugar,quando ele guarda para nós um certo significado, mesmo que esse significado seja abstrato, oculto e inexplicável. (MAYKALL, 2004).

O Geógrafo Yi Fu Tuan trata essa questão sob a ótica da psicologia, colocando em sua análise sobre o conceito de lugar a afetividade produzida pela humanidade em relação ao mesmo.

Tuan (1983) destaca que enquanto o materialismo histórico entende o lugar como uma expressão geográfica da singularidade. A corrente humanista percebe o lugar como uma porção do espaço em relação ao qual se desenvolvem afetos, que surgem a partir da experiência individual ou coletiva de grupos sociais. Para o geógrafo, “o lugar é uma área que foi apropriada afetivamente, transformando um espaço indiferente em lugar, o que por sua vez implica na relação com o tempo de significado deste espaço em lugar. O lugar é um mundo de significado organizado” (TUAN, 1983, p.198).

Nesse contexto, percebe-se que Lugar difere de espaço por sua condição de valor para quem dele faz uso. É com o tempo que ocorre essa conversão, é com o tempo que construímos uma relação humana. Assim, o lugar é o espaço que se torna familiar às pessoas e consiste no espaço vivido da experiência. Como parte do espaço, o lugar é ocupado por sociedades que ali habitam e estabelecem laços tanto no âmbito afetivo, como também nas relações de sobrevivência. “Lugar é uma mistura singular de vistas, sons e cheiros, uma harmonia ímpar de ritmos naturais e artificiais [...] Sentir um lugar é registrar pelos nossos músculos e ossos” (TUAN, 1983, p. 203).

A condição básica de análise desses conceitos é a comparação, o contraste. Assim, não se pode passar pela análise de um determinado lugar sem considerar a identificação de

segmentos e tipos sociais, as formas de vivência, interação e sociabilidade nesse referido lugar.

“Compreender como um mero espaço torna-se lugar intensamente humano, tem relação direta com a percepção dos interesses humanísticos, como natureza da experiência, a qualidade de ligação emocional dos objetos físicos as funções dos conceitos e símbolos na criação de identidade do lugar” (TUAN, 1982 apud HOLZER,1999).

A ligação emocional com o espaço, que identifica o lugar, está relacionada ao conceito de Topofilia,31 “o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico. Difuso

como conceito, vivido e concreto como experiência pessoal”. (TUAN, 1993).

Assim, pode-se pensar em lugar como algo em constante processo de construção, aberto, em movimento, que se reconstrói a cada dia, de acordo com a memória, a afetividade e a própria imaginação humana.

Se repassar esses conceitos para o lugar no espaço público, perceber-se que esses adquiriram status mediante percepção de seus usuários, cidadãos que depositaram no mesmo uma carga afetiva, um olhar diferenciado, perceberam algumas das materialidades que tornaram aquele espaço em lugar.

É de extrema importância o real entendimento desse conceito, pois, a partir dessa descoberta, é possível a percepção dos símbolos coletivos e de seus significados em um determinado lugar, reconhecidamente legitimo para um determinado grupo de pessoas, para uma determinada comunidade. E, se a cultura baseia-se em símbolos e esses, por sua vez, precisam ter significados, a compreensão dos símbolos é necessária à compreensão da própria sociedade.

No ritmo acelerado das transformações vividas pela cidade, não se pode deixar de perceber a representação que cada pessoa faz dela, não se pode deixar de considerar a multiplicação dos signos por toda a cidade, é a partir dessa leitura que a cidade se reinventa, que cada cidadão a percebe e a legitima como lugar.

Na visão de Kevin Lynch (1997), de alguma forma cada cidadão, cada integrante de uma cidade mantém com esta vastas associações, impregnadas de lembranças e significados, e é essa relação que forma em nossa mente a imagem dessa cidade.

No que se refere à categoria de legitimidade e identidade, a simbolização tem início com a apreensão do significante.

Em seu livro “A apreensão da Forma da Cidade”, Maria Elaine Kohlsdorf destaca as qualidades configurativas na forma dos lugares, considerando que essas contribuem para a construção de símbolos coletivos, e a consequente garantia de sua identidade. Assim, considera que a intensidade da decodificação da imagem desse lugar depende da sua legibilidade. (KOHLSDORF, 1996).