Como argumentado no Capítulo 4, essa pesquisa tem como objeto principal o planejamento urbano, a arquitetura e o urbanismo. Em função das peculiaridades percebidas inicialmente no universo de usos dos espaços públicos nas superquadras, fez-se necessário buscar respaldo nas ciências sociais, por meio de teorias estudadas por Weber e Geertz, como já justificado anteriormente.
Nesse contexto, um dos grandes desafios desta pesquisa foi exercitar esse olhar a partir de outras esferas de ciência, que muito contribuíram para o aprimoramento do olhar do arquiteto e urbanista, assim, para facilitar o entendimento do processo que levou a aplicação do método, com o objetivo de uma análise compreensiva, foram necessários três recortes:
1º Recorte: Fez-se uso do princípio metodológico do “tipo ideal”, de acordo com os princípios estabelecidos por Weber;
2º Recorte: Fez-se uso da teoria da “descrição densa” sugerida por Geertz;
3º Recorte: Chamado de “conclusões parciais”, trata-se do momento em que serão
respondidas algumas perguntas, que ajudarão em um diagnóstico do objeto estudado, no caso, a tipologia de uso em questão.
1º Recorte: Identificação do uso a partir do princípio metodológico do “tipo ideal”: “a Superquadra de Lúcio Costa em relação à identificação de uma realidade”
Compreensão do espaço a partir do princípio metodológico que estabeleceu um “tipo ideal”, uma espécie de guia para identificar as relações do espaço real com as intenções de seu traçado inicial, proposto por Lúcio Costa, com referência no relatório do Plano Piloto de Brasília, que previa para a área residencial um lugar onde, de forma pacífica, o homem pudesse viver e conviver com o outro. Assim, de acordo com Costa: “[...] nas superquadras restringem-se apenas à obrigatoriedade dos pilotis e ao gabarito de seis pavimentos, ficando, portanto, as crianças que brincam ao alcance da voz, o que contribui para humanizar essas áreas residenciais [...]” (apud BUCHMANN, 2002, p.108).
Relembrando um pouco do princípio metodológico descrito no capítulo anterior, fez- se uso dos princípios de Weber e, a partir deste, adotou-se como guia para a pesquisa de campo um “tipo ideal”, que remonta à possibilidade de uma superquadra dotada de espaço para convivência, com áreas sombreadas propícias ao passeio, áreas verdes e acolhedoras, propícias ao encontro e socialização.
Um lugar com uso reconhecido pela comunidade local, onde se evidencia liberdade de circulação, onde a visibilidade é contínua, o edificado integra-se ao bucólico, criando o que Costa (1995) chamou de “direito de ir e vir”. A adoção desses princípios favoreceria o “ar de bairro”, outra escala em que fosse possível o homem dialogar com o espaço.
2º Recorte: O uso a partir da teoria da “descrição densa”
A compreensão, o encontro com o sentido da realidade identificada.
Com a identificação da existência da tipologia de uso, a partir do “tipo ideal”, partiu- se para a observação sistemática e apreensão da realidade desse uso, buscando compreender as ações que definiram ou não o uso do espaço.
Para a compreensão do uso, foi necessário visitar as superquadras estabelecidas na amostragem, permanecendo no local por um dia inteiro, o que ocorreu em dois momentos: em um dia da semana e no final de semana, sempre no período das 6h às 20h.
Após essa vivência no espaço, buscou-se um contato com a liderança local, identificada na pessoa do Conselheiro Comunitário e/ou Prefeito da quadra, quando da existência. O contato com moradores e usuários da superquadra ocorreu de forma espontânea, por meio de encontros casuais, o que é normal quando se passa dois dias inteiros a observar um espaço. A compreensão apresentada a seguir é uma média dos encontros, do pesquisador com o lugar, do pesquisador com a liderança local (quando for o caso), do pesquisador com os atores que vivem e fazem uso do espaço (quando ocorrer de forma espontânea).
3º Recorte:
Conclusões Parciais – Diagnóstico da Tipologia
Para as conclusões parciais, estruturaram-se algumas perguntas que serão respondidas com o diagnóstico do objeto estudado. A estruturação das perguntas teve como base a fundamentação teórica às intenções de Lúcio Costa em relação à superquadra de Brasília, objeto estudado; e as críticas surgidas em relação ao movimento moderno, a Brasília e à superquadra, como, por exemplo, as proferidas por Jane Jacobs (2000), Holston (1993), Sennett (2002) e outros que contribuíram com a avaliação geral do objeto aqui pesquisado.
Estruturação dos questionamentos que serão respondidos com o Diagnóstico (conclusões parciais):
1. A tipologia de uso estudada atende aos princípios estabelecidos por Lúcio Costa para o Projeto de Brasília? A origem da superquadra foi explorada nos capítulos inicias desta dissertação (Capítulo 2.3).
2. Na tipologia de uso analisada, a partir de sua observação, ficou evidenciada a presença do homem no espaço ou prevalecem as visões críticas de Jane Jacobs, com seu livro “Morte e Vida das Grandes Cidades” (2000) e Holston, através de seu livro “A cidade modernista: uma crítica a Brasília e sua utopia” (1993), entre outras? E, considerando que se deu a presença do homem no espaço, será que a configuração urbana do mesmo favoreceu a sua valorização, enquanto signo, significado para os usuários, como colocou Umberto Eco? E, essa identificação fez surgir o homem de Brasília que um dia foi questionado por Clarice Lispector?
3. Será que na tipologia de uso estudada o fator econômico, social e as questões de segurança/insegurança contribuíram para uma individualização e um consequente declínio do espaço público, como pensou Sennett?