4.2 Qualitative results
4.2.1 Do they see the gap?
Dos sete realizadores divulgados como responsáveis pela ação, seis foram entrevistados. Com exceção de Emílio Moreno, com quem tive outros contatos iniciais e
uma conversa informal no primeiro semestre de 2011 para tirar as primeiras dúvidas que já surgiam e assim direcionar também questões como a definição de abordagens teóricas mais específicas, era a primeira vez que conversava diretamente com os outros cinco usuários.
Apesar de não estar realizando uma etnografia virtual no sentido literal e metodológico do conceito, mas usei o espaço virtual, on-line, como palco também de ocorrência da pesquisa, na medida em que iniciei os contatos com os sujeitos da ação também recorrendo à mediação do site de rede social Twitter, onde, ao citar em meu perfil o perfil dos sete realizadores (um a um), pedia o contato do e-mail de cada um deles.
Depois enviei e-mails para cada um dos sujeitos e, para cada caso, fiz a negociação para resolvermos questões de horário e local para realização dos encontros face a face. Somente um dos participantes alegou total falta de tempo para poder contribuir com a pesquisa, concordando, porém, em responder ao questionário por e- mail. Apesar dele ser um informante-chave para a pesquisa, depois de uma conversa junto à orientadora, optei por realizar a entrevista através de e-mail com o sétimo “tuiteiro” caso sentisse/observasse que as seis entrevistas anteriores não corresponderam ou foram suficientes para a análise da ação. Não foi o caso. Com as seis entrevistas em mãos, após suas descrições, considerei o material coletado, junto a matérias publicadas na época, e a existência do próprio mapa ainda on-line, como suficientes.
Todos os seis informantes permitiram a divulgação de seus perfis, assim como a publicação das suas falas diretamente associadas a cada participante. As entrevistas duraram, em média, cerca de 30 a 40 minutos. Um fato interessante é que, ao ir ao encontro de cada entrevistado, percebi que os locais de entrevistas eram quase sempre em lugares bem distintos, distantes do qual eu me encontrava e que costumo frequentar, o que me fez, em alguns momentos, também “redescobrir” Fortaleza e alguns de seus bairros, espaços nesses trajetos.
Assim, optei por também demonstrar em imagem os trajetos construídos para a realização das entrevistas, afinal, se a ação levada a cabo pelos seis entrevistados era uma expressão também da relação entre o virtual e o urbano, nada melhor que dar essa mesma dimensão e dinâmica ao relato da pesquisa. As imagens com meus trajetos de deslocamentos ao longo da cidade para encontrar os entrevistados, sujeitos com os quais tive o primeiro contato pela web, foi então a forma que encontrei para mostrar o prolongamento territorial e físico da investigação cujo início está claramente ancorado
no plano virtual, ainda com a observação das formas de apropriação dos sites de redes sociais pelos sujeitos, mesmo antes da ação #BuracosFortalezater sido eleita como objeto de análise. A idéia de construir esse percurso por meio de imagens surgiu logo após a última entrevista realizada com Mário Aragão, na qual ele emite opinião sobre a espacialização de dados.
Nesse momento, trago o relato dos perfis e dos trajetos cuja hierarquia de exposição segue a ordem em que as entrevistas foram realizadas.
Emílio Moreno:
Emilio Moreno da Silva Neto é jornalista, 35 anos, mora no Bairro Luciano Cavalcante. Trabalha como consultor para um portal de notícias sobre economia, empreendedorismo, gestão de negócios voltado para a região Nordeste. Profissionalmente, teve passagens por emissoras de TV, e prestou serviços de assessorias de comunicação para sindicatos e também durante campanhas políticas. Tem um blog pessoal, o Liberdade Digital35, em que posta notícias sobre a cidade de Fortaleza, tecnologias, mídia e outros temas.
A entrevista com Emílio ocorreu cerca de um ano depois do nosso primeiro encontro para falar sobre a ação (que aconteceu em um shopping da cidade). Desta vez, nossa conversa se deu em um café no bairro São João do Tauape. A sugestão do lugar foi minha. A idéia de fazer a entrevista no café surgiu dos próprios tweets de Emílio, que sempre relatava em seu perfil suas freqüentes idas ao estabelecimento36.
O jornalista confirmou quase que imediato sua ida. A entrevista durou 43’13” (quarenta e três minutos e treze segundos), como foi a primeira, segui o roteiro quase que na íntegra com poucas modificações durante a conversa. Mesmo após dois anos
35 www.liberdadedigital.com.br
36 A referida cafeteria pode ser considerada um point entre os “tuiteiros” da cidade, local em que se
reúnem quando querem se relacionar fora da rede. Além disso, o fato do lugar oferecer conexão wi-fi gratuita é outro atrativo para os freqüentadores que, assim, podem se manter conectados sempre.
desde a realização da ação, alguns detalhes ainda estavam bem vivos na memória do entrevistado. Neste momento, destaco fatos como o início e a repercussão da ação como os de mais destaque em sua fala.
Natanael Pantoja:
Natanael da Silva Pantoja é formado em Sistemas de Informação, tem 26 anos e há um ano mora em São Paulo. A entrevista foi realizada durante uma rápida passagem de Natanael por Fortaleza a trabalho. Natanael chegou a cursar um mestrado na Universidade Federal do Ceará, mas desistiu do curso para dar prioridade aos compromissos profissionais. Em São Paulo trabalha com desenvolvimento de softwares. Tem um blog pessoal37 que trata especificamente de tecnologia falando sobre
37 www.natanelpantoja.com
Figura 02: Trajeto Entrevista Emílio Moreno Montese – São João do Tauape
aplicativos e técnicas de gestão, embora revele não atualizar mais regularmente o site. Natanael é também sócio e gerencia o Clube das Corridas38, site de rede social que reúne amantes e praticantes de corridas de todo o Brasil.
A conversa com Natanael durou 40’12’’ (quarenta minutos e doze segundos). Mesmo morando em São Paulo, ele faz diversas visitas a Fortaleza durante o ano, principalmente, a trabalho. A entrevista aconteceu na Universidade de Fortaleza (UNIFOR), que fica no bairro Edson Queiroz, em um intervalo do trabalho do próprio Natanael. Como afirma, ele trabalhou mais na “repercussão” da ação, pois tuitava e mapeava os buracos quase que constantemente. A entrevista mostrou-se bastante interessante para começar a observar como cada realizador acabou assumindo um espaço/função dentro da ação.
Christiano Milfont:
38 www.clubedascorridas.com.br
Figura 04: Trajeto Entrevista Natanael Pantoja Montese - Unifor
Christiano Martins Milfont de Almeida, 33 anos, reside em Fortaleza e atualmente mora no bairro Henrique Jorge. Christiano também possui um blog39 onde posta conteúdo sobre sistemas de informação, Java e sistemas PHP. Está se formando em Ciências da Computação e trabalha atualmente em uma empresa da área no setor de desenvolvimento de softwares. Além disso, Christiano tem uma consultoria própria, empresa que leciona cursos na área de JAVA e outros.
A entrevista com Milfont foi marcada inicialmente na empresa onde atualmente trabalha, que fica localizada no bairro Luciano Cavalcante. Ao chegar lá, por impossibilidade de um local mais adequado para a conversa, já que ela seria gravada, ele sugeriu irmos então à sede de sua consultoria, que fica no bairro Dionísio Torres, onde por fim, a entrevista aconteceu.
A conversa foi a mais longa das entrevistas, 51’36’’ (cinqüenta e um minutos e trinta e seis segundos) e Milfont, mesmo ocupado, disponibilizou-se durante cerca de duas horas (devido aos trajetos) para que a conversa acontecesse. Seu relato veio cercado de opiniões fortes sobre plataformas virtuais, apropriações na rede e, por vezes, usava em suas falas termos bem específicos da área de estudos acadêmicos.
39 http://www.milfont.org
Figura 06: Trajeto Entrevista Christiano Milfont Trecho 01: Montese – Luciano Cavalcante Trecho 02: Luciano Cavalcante – Dionísio Torres Figura 05: Perfil Christiano Milfont - Twitter
Rafael Carneiro:
Rafael Carneiro Viana Batista, 28 anos, mora em Fortaleza, no bairro São João do Tauape. Está concluindo o curso de Sistemas da Informação, apesar de trabalhar há anos na área. Já atuou em bancos públicos, empresas privadas, instituições na área de tecnologia e hoje atua como analista de sistemas em uma empresa na área têxtil.
Rafael também possui um blog pessoal em que fala de tecnologias40, do qual confessa não atualizar com freqüência e, outro em parceria com a noiva que trata de casamentos41, este sim atualizado semanalmente e hoje tocado quase como um negócio pelos dois. Por meio da página, o casal realiza eventos, reuniões e encontros.
A conversa com Rafael foi marcada em seu atual local de trabalho, durante o horário do almoço. O trajeto mais próximo do meu local de saída, o bairro Montese. Devido a alguns problemas de última hora que envolvia normas da empresa, a entrevista acabou sendo realizada em uma loja de conveniência de um posto de abastecimento ao lado da empresa, o que deu à conversa um tom bem descontraído e até divertido.
Rafael, com seu humor tímido, concedeu um relato conciso da ação, mas que foi muito importante, pois o entrevistado é um dos realizadores que menos deu ênfase à questão da repercussão, não a desconsiderando como relevante, mas entendendo que o todo da ação foi que a motivou e formatou sua abrangência. A entrevista durou 27’48 (vinte e sete minutos e quarenta e oito segundos).
40www.rafaelcarneiro.com/
41www.casamento2ponto0.com
Rafael Galdino:
Rafael Robson Galdino do Valle tem 28 anos, mora em Fortaleza no bairro Aldeota. Galdino é graduando na área de Análise de Sistemas, mas trabalha atualmente como analista de markteing em uma consultoria local da cidade. Passou por empresas públicas e privadas. Rafael também possui um blog pessoal sobre marketing em mídias sociais, marketing digitais, estratégias mercadológicas em sites de redes sociais42 e confessa não o atualizar mais com freqüência.
Atualmente, a atenção de Galdino se volta para seu mais novo projeto, uma agência de marketing digital que está tocando junto a outros dois sócios, a Quartel
42 www.rafaelgaldino.com/
Figura 08: Entrevista Rafael Carneiro Trajeto Montese - Itaperi
Digital43, que se dedica a estratégias de marketing e publicidade nas mídias sociais. A entrevista também foi marcada em um de seus intervalos para almoço. Marcamos em um restaurante na Avenida Beira-Mar. O relato de Galdino foi um dos que deu mais ênfase à ação como uma estratégia criativa, e inclusive, com potencial para outras explorações, muito também por seu perfil ligado hoje às ações de marketing em plataformas virtuais.
A entrevista durou 28’28’’ (vinte e oito minutos e vinte e oito segundos). Um detalhe curioso deste relato: ambos chegamos atrasados, cerca de 30 minutos, no local combinado devido a um grande engarrafamento que aconteceu no dia na avenida principal que dava acesso ao restaurante. Em um dado momento, ao ligar para Rafael para informar do atraso, este relatou: “estou na mesma avenida que você, não saí do lugar, se duvidar já passamos até um pelo outro...”.
43www.quarteldigital.com.br
Figura 10: Trajeto entrevista Rafael Galdino Montese - Beira Mar
Mário Aragão:
Mário César Alves Aragão, 33 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda e está praticamente formado no curso de Ciências da Computação, “só falta o TCC”, revelou. Profissionalmente, já passou por empresas públicas, jornais, empresas privadas e atualmente trabalha como gestor do IPECE – Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará, onde monitora sistemas.
Mário trabalha diretamente com espacialização de dados e geolocalização. Possui um blog pessoal44 que inicialmente começou tratando de tecnologias. Hoje ,ele se dá a liberdade de falar de tudo um pouco, até de postar piadas. Mário diz estar mudando um pouco de fase e saindo dessa obrigatoriedade de ter que postar somente sobre um assunto, fazendo do blog um espaço de impressões pessoais.
A conversa com Mário foi a mais difícil de ser articulada, chegou a ser desmarcada por duas vezes pelo próprio por questões imprevistas de trabalho. A entrevista aconteceu, então, na sede do IPECE, no bairro Cambeba, onde está localizado o Centro Administrativo do Governo do Estado do Ceará. Também por conta do pouco tempo disponível da parte do entrevistado, a conversa com ele foi a mais curta – 22’48’’ (vinte e dois minutos e quarenta e oito segundos) – porém, ao término do relato, a sensação era de que o “quebra-cabeça” tinha se fechado.
Mário com suas poucas palavras conseguiu revelar informações preciosas como, por exemplo, uma das principais motivações para o início da ação, além de ter ajudado a entender basicamente a origem da prática apropriativa #BuracosFortaleza. Foi sem dúvidas, uma das entrevistas mais esclarecedoras e, curiosamente, a última a ser realizada.
44 www.marioaragao.com