Os processos de territorialidade e as questões a ele vinculadas são fundamentais ao homem. Criar um território é, além de dominar movimentos que se dão no interior de suas fronteiras, também se apropriar, nas dimensões física e simbólica, dos vários elementos da vida. “Toda territorialização é uma significação do território (político, econômico, simbólico, subjetivo) e toda desterritorialização, re-significação, formas de combate à inscrição da vida em um “terroir”, linhas de fuga” (Lemos, 2006b).
André Lemos (2006b) igualmente argumenta que o ciberespaço é essencialmente desterritorializante, mas que o processo de desterritorialização vem sempre acompanhado de novas reterritorializações. Para o autor, esses processos são instaurados quando o espaço-tempo e o movimento de desencaixe passam por dinâmicas de restrição.
A compressão do espaço-tempo institui o “tempo real” e a possibilidade de acesso a informações em todos os espaços do globo. O desencaixe nos permite vivenciar processos globais não enraizados na nossa tradição cultural. As mídias eletrônicas criam assim processos desterritorializantes em níveis político, econômico, social, cultural e subjetivo. (LEMOS, 2006b)
O termo território surge com dois sentidos, material e simbólico. Sua etimologia nasce tão próximo de terra-torium (com um sentido de dominação jmurídico/política da terra) quanto de térreo-territor, sentido mais próximo de terror, do medo, especialmente para aqueles que com esta dominação ficam impedidos de
usufruir, utilizar a terra, impedidos de entrar no território. Nessa perspectiva, território tem a ver com poder, tanto no sentido político, mais concreto, de dominação quanto ao poder no sentido simbólico, de apropriação (Haesbaert, 2001).
Nessa lógica, Haesbaert (2001) entende que todo território é um espaço dotado de significações e de funcionalidades, pois ao mesmo tempo é utilizado para realizar funções, como também para “produzir significados”. Para os atores estas dimensões surgem de forma integrada, onde uma não se sobressai sobre a outra, surgem com intensidades quase iguais.
Lemos (2006b) entende que o movimento territorializante da sociedade moderna se desenvolveu ao lado de eventos desterritorializantes, produzidos pelas revoluções sociais, pela flexibilidade das fronteiras, e pelas mídias de massa. Um desses eventos, mais recentes, é a própria cibercultura que para o autor, é a cultura da desterritorialização, já que nos apresenta diversos problemas de fronteira e novas formas de desterritorializações, entre elas a informacional.
A desterritorialização informacional afeta a política, a economia, o sujeito, os vínculos identitários, o corpo, a arte. A internet é, efetivamente, máquina desterritorializante sob os aspectos político (acesso e ação além de fronteiras), econômico (circulação financeira mundial), cultural (consumo de bens simbólicos mundiais) e subjetivo (influência global na formação do sujeito). Estão em marcha processos de desencaixe e de compressão espaço-tempo na cibercultura. (LEMOS, 2006b).
Ainda para o autor, a cibercultura proporciona a criação de linhas de fuga e desterritorializações, assim como reterritorializações. Nesse sentido, Haesbaert (2001) propõe, mais do que a perda ou desaparecimento dos territórios, discutir a complexidade dos processos de reterritorialização que hoje se apresenta. Para o autor, os indivíduos estaruam construindo hoje territórios muito mais múltiplos, vivendo o que ele entende por multiterritorialidade.
A multiterritorialidade seria a experiência de vivenciar vários territórios ao mesmo tempo e de, a partir daí, desenvolver uma territorialização, de fato, múltipla. Pensando “que o processo de territorialização parte do nível individual ou de pequenos grupos, toda relação social implica uma interação territorial, um entrecruzamento de diferentes territorialidades” (Haesbaert, 2004 apud Haesbaert, 2001).
Baseado em Yves Lacoste, Haesbaert entende que os indivíduos vivem atualmente em uma espacialidade diferenciada composta por uma diversidade de representações espaciais que se referem à nossa mobilidade mais restrita, aquela do nosso cotidiano; às configurações espaciais que não são as mesmas das redes das quais pertencemos e às representações espaciais de maior amplitude, que abrangem o globo no seu conjunto. “O desenvolvimento desse processo de espacialidade diferencial se traduz por essa proliferação de representações espaciais, pela multiplicação das preocupações concernentes ao espaço” (Lacoste, 1988 apud Haesbaert, 2001).
Essa dificuldade de apreender globalmente esses espaços, segundo Haesbaert (2001), está ligada também a experiência espacial contemporânea, associada diretamente a descontinuidade dos espaços e dos territórios, organizados hoje muito mais em rede, do que em áreas. Seria, então, o processo de compressão espaço-tempo e desencaixe que Lemos (2006b) cita em seu artigo e que pode também ser analisado como fenômeno que contribui ainda mais para esse movimento de reterritorialização ou de formação de territórios múltiplos que só ganha ainda mais força com a cibercultura, e posso pensar, mais especificamente com os sites de redes sociais?
Ora se entendo que cada ator carrega em si um processo de multiterritorialidades e que este mesmo ator vem se agrupando com outros em rede, essa experiência de formação de territórios cada vez mais múltiplos torna-se mais ampla. A apropriação dos sites de redes sociais proporciona, não só a troca de informações instantânea, mas o cruzamento de multiterritorialidades distantes e diversas e a atuação dessas multiterritorialidades em rede numa escala de amplitudes incompreensíveis; a vivência do cidadão na cidade e agora mediada por estas ferramentas e por essas apropriações também permite ainda mais a ampliação deste movimento. Estaria aí também um dos elementos que cercam o movimento de apropriação dos sites de redes sociais? Isto é, uma tentativa de compreensão por parte dos atores dessas espacialidades, dessa cidade? Ou sentir-se e fazer parte desse processo de espacialidade diferencial e ao mesmo tão amplo? Apropriar-se dos sites de redes sociais, pode também ser entendido como uma alternativa desses atores de desfazer-se dessa confusão e retomar seus fios, tecendo suas próprias redes ou novas redes na cidade que hoje funciona na lógica de redes?
O próximo capítulo tenta responder a essas e às outras questões lançadas durante este trabalho através das falas dos realizadores da acão #BuracosFortaleza, voltando a abordagem teórica até aqui traçada especificamente para este caso.
4 UM PASSARINHO ME CONTOU: ITINERÁRIOS, PERCURSOS E