As lembranças docentes estão também enraizadas em suas experiências discentes. Essas, vividas no encontro com a forma e cultura escolar, bem como a partir de seus encontros diários entre antigos professores e colegas de sala. Escutar narrativas permitiu-nos tocar tais prolongamentos das histórias dos homens.
Em diálogo com Halbwachs (2004, p.72) entendemos serem os quadros coletivos de memórias, formados de correntes de pensamentos e experiências do passado. Tais aspectos atravessam datas, nomes e fórmulas, os quais buscam homogeneizar e esvaziar a história da vida cotidiana. É do autor também a compreensão de que a história não se restringe ao passado ou o que dele nos resta, como parte amputada do presente. Ele nos diz existir uma história viva que não se entrega e que luta pela perenidade, enraíza-se e renova-se pelas experiências cotidianas. Elas estão presentes em correntes antigas ligadas ao nosso presente, é apenas em aparência que desapareceram.
O autor nos alerta para uma compreensão cuidadosa sobre a relação entre os quadros sociais da memória e o pensamento dominante de uma época.
Seria preciso mostrar, por outro lado, que os quadros coletivos da memória não são constituídos pela combinação de lembranças individuais, que não são muito menos formas vazias onde as lembranças, vindas de alhures, viriam se inserir, e que eles são ao contrário precisamente os instrumentos cuja memória coletiva se serve para recompor uma imagem do passado que tem relação com cada época com os pensamentos dominantes da sociedade.[...] Não seria suficiente com efeito mostrar que os indivíduos, quando eles se lembram, utilizam sempre quadros sociais. É do ponto de vista do grupo, ou dos grupos que seria necessário considerar. Os dois problemas, aliás, não somente são solidários, mas são apenas um. Podemos dizer que o indivíduo se lembra se colocando do ponto de vista do grupo, e que a memória do grupo se realiza e se manifesta nas memórias individuais. (1994, p. VIII) 3
3 Do original: « Il fallait monter, d’autre part, quel les cadres colletifs de la mémoire ne sont pas constitués après
coup par combinasion de souvenir individuels, qu’ils ne sont pas non plus de simples formes vides où les souvenirs, venus d’ailleurs, viendraient s’insérer, et qu’ils sont au contraire précisément les instruments dont la mémoire collective se sert pour recomposer une image du passé que s’accorde à chaque époque avec les pensées dominantes de la société [...] Les deux problèmes d’ailleurs non seulement sont solidaires, mais n’en font qu’un. On peut dire aussi bien que l’individu se souvient en se plaçant au point de vue du groupe, et que la mémoire du groupe se réalise et se manifeste dans les mémoires individuelles ». AVANT-PROPOT, VIII. 1984.
Os discursos hegemônicos estão presentes entre as diferentes classes sociais e profissionais. Não é diferente entre os professores e alunos. No entanto, podemos dizer que as narrativas mostram-nos também a presença dos discursos daqueles que por muitos anos, dentro de suas salas de aula, estiveram subordinados às normas escolares e ao poder de muitos docentes, bem como puderam experimentar relações de alteridade com seus antigos mestres e ex-colegas de sala de aula. Há também, e nossa pesquisa registrou, um quadro de lembranças que revelam experiências de não sujeição dos narradores aos discursos hegemônicos.
Nossa atenção sobre a vida presente conduziu-nos a olhar com sutileza como o cotidiano dos professores se enreda por antigas experiências, e, partimos em busca de suas lembranças. A partir destas considerações construímos junto das teorias sobre memória, experiência e docência, nossa problematização e investigação.
Memória e experiências estão imbricadas. Uma originando e sustentando a outra. Nesta condição de interdependência, construímos um diálogo entre Maurice Halbwachs e Walter Benjamim. Estes dois pensadores foram contemporâneos na primeira metade do século XX. Compartilham sutis análises sobre a vida cotidiana.
Ao analisar vida moderna, Benjamim observa uma alteração brusca nas condições sociais que noutros tempos, permitia-nos conhecer e aprender sobre o mundo por meio de experiências. Nesse sentido apontará uma “pobreza de experiência”. Mas para além de um simples fatalismo, encontramos em suas reflexões a presença de uma construção teórica que aguça- nos olhar para a vitalidade de antigas, sutis e potentes experiências entrelaçadas ou enraizadas nos cotidianos dos homens. São finas e sensíveis experiências que encontramos ao escutarmos as narrativas docentes, assemelhando-se aos traços das mãos do oleiro sobre o barro.
Prosseguindo com Halbwachs, em realidade, jamais estamos sós. O autor concebe o homem como ser que se forma, que sente e se reconhece a partir de suas relações sociais. O mesmo autor continua sua análise dizendo-nos que tudo advém do mundo exterior, contrariando as teses em que o homem se forma, sente e conhece o mundo partindo de seu ser interno, indiferentemente do mundo que o cerca.
O mundo exterior existe em integração permanente a um mundo sensível, que podemos chamar de particular, individual. Desta relação entre exterioridade e interioridade, Halbwachs (1974, p.164) nos diz
Las formas de sensibilidad que pudiéramos llamar superiores, los sentimentos y las pasiones parecen exigir una elaboración más personal y más prolongada que las emociones o el placer y el dolor elementales. Ahora bien, existe sin duda alguna una lógica de los sentimentos, lógica cuasiinconsciente, que hace, como decía Stendhal a propósito del amor, que todas nuestras imagionaciones cristalicen en cierto modo alrededor de la representación de la persona amada o detestada, del objeto deseado o temido. Pero esta labor mental no puede llevarse a cabo sin que en ella se mezclen numerosas ideas, juicios, razonamientos. Así pues, estos estados afectivos se hallan inmersos en corrientes de pensamiento que llegan a nuestro espíritu desde fuera, que se encuentran en nosotros porque están en los demás.
Encontramos a cada narrativa, idéias, juízos e correntes de pensamentos ligando narrador à sociedade da qual fez e ainda faz parte. A afetividade está nesta trama entre o sujeito que fala e os grupos com os quais ainda compartilha a vida.
Há no conjunto das memórias individuais uma dupla dimensão, quais sejam a coletiva e a de segredo particular/íntima. Crianças, jovens e adultos formam-se em relações sociais e muitos casos em segredo. Buscamos aqui, também, um encontro com os processos de subjetivação dos nossos sujeitos de pesquisa.
Pollak (1989) chama atenção para o fato de que os homens quando narram suas memórias do vivido, há no conjunto das mesmas, algumas que são muito íntimas: aquelas que são envergonhadas, reprimidas e silenciadas. Isto nos leva a pensar numa dupla condição do sujeito: o público e o particular. São experiências que se assentaram na vida dos sujeitos e os acompanham até hoje, como cadinhos4 da vida.
O autor cita as Experiências dificilmente dizíveis de Freddy Raphael para se referir ao que denomina memórias envergonhadas: são memórias de desertores, evadidos e recrutados a força que lutam pelo reconhecimento de uma situação valorizada das vítimas, da recusa e da resistência passiva. São memórias subterrâneas dos recrutados na luta contra a memória daqueles que tentaram construir um mito a fim de eliminar o estigma da vergonha. Estas últimas são memórias da memória oficial, e que conduziram as vítimas da história ao silêncio e à renegação de si mesmas.
As três memórias – envergonhada, subterrânea e oficial, podem ser encontradas em outros quadros sociais, não se restringindo à grande experiência vivida por populações inteiras diante
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1. [Do lat. catinu.] S. m. crisol: "A arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a mistura dos ingredientes que são o pó da experiência." (Adolfo Casais Monteiro, De Pés Fincados na Terra, p. 132.) 2. Fig. Lugar onde as coisas se misturam, se fundem. Dicionário de língua portuguesa Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 2004.
de uma guerra entre nações, crises econômicas, catástrofes, fome, entre outras. Podemos encontrá-las em outros quadros sociais – família, igreja, nação, forças armadas, e também dentro da instituição escola, vividas pelos sujeitos docentes e discentes nos anos em que compartilharam a mesma sala de aula.
Sabemos que as circunstâncias em que os sujeitos são convocados a contar sobre suas vidas, interferem e conduzem cada um a trazer à tona ou não certas lembranças. Não aparecem em nossa investigação com docentes, histórias que tenham o peso de guerras, genocídios, catástrofes e crises sociais. Entretanto, em muitas narrativas dos professores os quais ouvimos, encontramos uma intimidade que ainda não havia sido revelada em suas casas, aos seus pais, filhos.
Buscamos instituir a confiança e o cuidado necessário a quem vai entrar na vida de outra pessoa ao realizar nosso trabalho de pesquisa. Isto constituiu a condição essencial para que o narrador pudesse contar-nos sobre suas experiências e singularidades. As sim, as condições e circunstâncias presentes no nosso trabalho de pesquisa para que as narrativas emergissem, diferem daquelas citadas por Pollak. Tais circunstâncias de pesquisa, associadas ao conteúdo das experiências dos docentes que entrevistamos, ofereceram outras condições de escolha para o narrador se expressar.
Não estamos investigando as memórias para dizer de outra escola e docência e discencia, buscando enfrentar um suposto conflito entre memória oficial ou clandestina, mas investigamos memória para entender como as experiências lembradas reverberam na docência do presente.
Buscamos entender a docência e suas relações com os alunos, com a materialidade, com as normas, valores, etc. Não buscamos falar de uma escola enquadrada, de uma memória enquadrada que sufoca os professores e que os obriga a ser quem não são. As lembranças dos nossos narradores nos aproximam dos processos sociais, históricos, políticos e culturais que os mesmos vivenciaram na condição de discentes. Vivências que duraram longos anos, experimentando na pele o ofício da docência e de relacionamentos com antigos colegas de classe.
Pollak ainda fala de outras características das memórias pessoais. Estas se constituiriam também via relações que homens estabelecem por meio dos sentidos – cheiro, cor, ruído,
sabor e textura. Desta forma, encontramos nas narrativas experiências sensoriais dos recordadores.
Outro aspecto que julgamos importante é a referência que o autor faz às memórias impostas. Estas têm a função de garantir uma perenidade do tecido social e das estruturas institucionais de uma sociedade. Sabemos que a instituição escola carrega consigo formas e cultura, impostas aos sujeitos professores e alunos.