Regressões múltiplas padrão foram utilizadas para identificar o impacto dos valores pessoais e da percepção de valores organizacionais (variáveis independentes) sobre os comportamentos de saúde (variável dependente). Como não houve correlação com os dados demográficos, eles não foram inseridos nas regressões. O primeiro modelo testado procurou verificar se os valores pessoais predizem os comportamentos de saúde. No segundo, foi testado se o acréscimo dos valores organizacionais contribuiria para o modelo de predição. Pode-se observar que o modelo 1 não explica os comportamentos de saúde (significância >0.5), e que o modelo 2, que engloba como valores independentes os valores pessoais (VP) e os
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valores organizacionais (VOR), explica 11,8% da variação das respostas dos sujeitos na ECS (significância =0,000). Os modelos testados estão na Tabela 12, a seguir:
Tabela 12
Sumário de regressão dos modelos 1 e 2
Modelo R R2
R2
ajustado Estimativa de erro Alterações estatísticas 1 0,191ª 0,036 0,017 0,692
R2
mudança mudança F Df1 Df2 Significância 0,036 1,897 4 20 1,112 2 0,401
b,
d 0,161 0,118 0,655 0,125 4,834 6 195 0,000
a. Preditores (VI): auto-promoção, abertura a mudança, conservadorismo, auto-transcendência
b. Preditores (VI): autopromoção, abertura a mudança, conservadorismo, auto-transcendência, hierarquia, harmonia, autonomia, domínio, conservação, igualitarismo.
c. Variável dependente: ECS d. p<0,01
Nota-se que apenas o modelo 2 foi significativo. Os resultados obtidos no modelo 1 podem ter ocorrido devido ao acaso. Desse modo, as variáveis de valores pessoais, sozinhas, não predisseram a variável dependente (VD) ECS, ratificando os resultados das correlações. Assim, optou-se por realizar nova regressão apenas com os valores organizacionais. Os resultados dessa regressão foram significativos, predizendo quase 10% da variação dos comportamentos de saúde medidos pela ECS, como pode ser observado na Tabela 13.
Tabela 13
Sumário do Modelo de Regressão Valores Organizacionais X ECS
Modelo R R2 R2
ajustado Estimativa de erro Alterações estatísticas 1 0,354ª c 0,125 0,099 0,663
R2
mudança mudança F Df1 Df2 Significância
0,125 4,739 6 199 0,00
a. Preditores (Constante - VO): Harmonia, Conservação, Hierarquia, Autonomia, Domínio, Igualitarismo b. Variável Dependente: F1- ECS
c. p<0,01
Foi verificada alta multicolinearidade entre os fatores dos valores organizacionais; assim, procedeu-se à regressão apenas com os dois fatores de valores organizacionais que apresentaram as correlações mais altas com os comportamentos de saúde autonomia e conservação. O modelo com apenas esses dois fatores explica 10% da variância dos comportamentos de saúde (R=0,327, R2=0,107, R2 ajustado = 0,100). A Tabela 14 apresenta os coeficientes dessa regressão.
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Tabela 14
Coeficientes da regressão dos valores organizacionais autonomia e conservação sobre comportamentos de saúde Coeficientes não-padronizados Coeficientes padronizados t Sig. B Erro-padrão Beta (Constante) 1,422 0,195 7,308 0,000 Autonomia 0,156 0,055 0,258 2,842 0,005 Conservação 0,061 0,064 0,086 0,947 0,345
Dos valores organizacionais, autonomia se destacou como o maior preditor dos comportamentos de saúde da amostra pesquisada. Os valores de conservadorismo não apresentaram influência significativa nos comportamentos de saúde. Os resultados apontam que, quando os funcionários percebem que a organização valoriza mais a autonomia, mais eles apresentam comportamentos de saúde.
Das unidades pesquisadas, a unidade de ensino e a unidade administrativa 2 apresentaram maior prioridade ao valor autonomia e também a melhor média de comportamentos de saúde. A autonomia, neste contexto organizacional, pode indicar várias possibilidades de certa independência dos seus membros: autonomia para se engajarem em atividades promotoras de saúde (como a prática regular de atividade física), inclusive no horário do expediente; autonomia na por meio da autogestão de suas tarefas, compromissos e prazos, de modo a conciliar o comportamento de saúde às exigências de prontificação dos trabalhos; autonomia por não ceder a pressões veladas de grupos de referência no sentido de não interromper as tarefas, ou abrir mão da atividade física com o intuito de promover uma imagem equivocada de alto comprometimento organizacional, trabalhando além do horário ou sem interrupções; ou até autonomia para se engajar em comportamentos de saúde mesmo que outros membros não estejam engajados. Entretanto, essas hipóteses precisariam ser testadas, considerando as normas sociais da instituição.
Tamayo (2001) identificou correlação positiva entre a prática regular de atividade física e o valor de realização (e o eixo autopromoção), e verificou influência da atividade física no autoconceito (TAMAYO et al, 2001). Bandura aponta a auto- eficácia como condição importante para os comportamentos de saúde. No entanto,
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este estudo não identificou a influência dos valores pessoais nos comportamentos de saúde, mas é possível que a autonomia organizacional interfira positivamente no autoconceito e na auto-eficácia, à medida que a organização estaria valorizando e reconhecendo iniciativas. Estudos que investiguem a relação entre autonomia, no nível organizacional, e autoconceito e auto-eficácia, no nível pessoal, poderão contribuir para maior compreensão da interação dessas variáveis nos comportamentos de saúde.
A discussão da influência dos valores organizacionais nos comportamentos de saúde elencados fica limitada pelo fato de que, a maioria dos estudos encontrados sobre comportamentos de saúde nas organizações enfocaram a saúde psicológica/psicossomática (TAMAYO, 2004), e a prevalência de doenças e o estilo de vida adotado (CHOR, 1998; BARROS; NAHAS, 2001; MARTINEZ; LATORRE, 2005; MATOS et al, 2004; MCLELLAN et al, 2007; NAHAS, 2001; NASCIMENTO; MENDES, 2002; PITANGA, 2002;SANTOS, 2008; SEROUR, 2007), indicando para a possível influência de aspectos estruturais, grupais, organizacionais e culturais que afetam os comportamentos, sem, contudo, investigá-los no âmbito da saúde física.
Tamayo defendeu que a relação entre a cultura da organização, onde o trabalhador está imerso, e a saúde, é inevitável. A cultura organizacional é um fato determinante na saúde do trabalhador (TAMAYO, 2004, p. 14). Tamayo se interessou pela influência da cultura organizacional nos distúrbios psicossomáticos. Essa pesquisa não só confirma a influência da cultura organizacional na saúde dos trabalhadores, mas também indica sua influência nos comportamentos promotores de saúde física e preventivos para as doenças crônicas não transmissíveis elencadas neste estudo.
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6 - Conclusão
O objetivo geral da pesquisa foi identificar o impacto dos valores pessoais e da percepção dos valores organizacionais nos comportamentos de saúde preventivos para doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes mellitus tipo 2. Como objetivos específicos, descrever os valores pessoais, os valores organizacionais, a freqüência dos comportamentos de saúde dos funcionários de quatro unidades organizacionais de uma instituição e validar a escala de comportamentos de saúde.
A prioridade dos valores pessoais encontrada foi benevolência, conformidade e segurança, demonstrando a importância da harmonia e estabilidade das relações para esses funcionários. Com relação aos valores organizacionais, hierarquia e conservadorismo são percebidos como prioritários para a organização.
A Escala de Comportamentos de Saúde ECS - unifatorial, foi validada. Com relação à frequência dos comportamentos de saúde dos funcionários das quatro unidades organizacionais pesquisadas, a média geral foi de 2,28 em uma escala de 5 pontos (0-nunca; 1-poucas vezes; 2-algumas vezes; 3-muitas vezes; 4-sempre), com resultado um pouco melhor para a organização de ensino (2,47), provavelmente por sua função socializadora através do exemplo, uma vez que os alunos não participaram da pesquisa. O resultado entre 2 e 3 indica que existe preocupação em realizar os comportamentos de saúde, mas eles ainda não são freqüentes.
Não houve correlação entre os valores pessoais e os comportamentos de saúde. Assim, as hipóteses 1,2,3,4,5, e 6, relativa à influência de alguns tipos de valores pessoais nos comportamentos de saúde, não foram corroboradas. Mas houve correlações positivas e significativas de todos os valores organizacionais com os comportamentos de saúde.
Para Schwartz (2005b), a relação entre os valores pessoais e o comportamento pode ser reduzida ou obstruída pela pressão normativa exercida por grupos relevantes, para que os indivíduos se comportem de determinada maneira, funcionando como um obstáculo externo para a emissão dos comportamentos que expressem os valores priorizados individualmente. Na amostra pesquisada, foi observado que o grupo é mais importante que o indivíduo, tanto nas prioridades
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axiológicas pessoais (benevolência, conformidade e segurança) como nas prioridades axiológicas organizacionais percebidas (conservadorismo e hierarquia).
As prioridades organizacionais percebidas e, provavelmente, as influências grupais devem apresentar mais influência nos comportamentos pesquisados. Estudos anteriores feitos com estudantes revelaram que grupos de referência cujas normas estimulavam a prática de atividade física influenciavam a intenção de adotar comportamentos saudáveis (ROS, 2006 a, p. 92-93), o que pode indicar a necessidade de realizar mais estudos que verifiquem a influência de grupos e de valores como conformidade (no nível pessoal) e conservadorismo (no nível organizacional) nos comportamentos de saúde.
Com relação aos valores organizacionais, a hipótese 7 foi confirmada, ou seja, os valores organizacionais hierarquia e conservadorismo são percebidos como prioritários na organização pesquisada. Já as hipóteses 8, 9 e 10, que pressupunham a influência dos valores organizacionais hierarquia, conservadorismo e domínio nos comportamentos de saúde foi apenas parcialmente corroborada, uma vez que todos os valores organizacionais percebidos apresentaram correlações significativas com os comportamentos de saúde. Nesta pesquisa, o valor organizacional autonomia foi o que apresentou maior impacto nos comportamentos de saúde, significando que quanto mais os funcionários percebem que a instituição valoriza, por exemplo, a realização de metas individuais (e não as grupais) compatíveis com a organização e a autogestão, mais os funcionários apresentam comportamentos de saúde. No entanto, tendo em vista que os valores hierarquia e conservadorismo são percebidos como prioritários na organização pesquisada, estratégias como a comunicação e apoio efetivos e consistentes, enfatizando o cumprimento às normas vigentes com vistas à adesão dos seus membros aos comportamentos de saúde (como a prática regular de atividade física e a alimentação balanceada) podem ser igualmente importantes como estratégia de promoção de saúde.
Na revisão de literatura de saúde foi trazido o dilema da prevenção/promoção da saúde física como comportamento individual ou construção coletiva (OLIVEIRA, 2005; CZERESNIA, 1999; PALMA et al, 2007; BANDURA, 2004). Esta pesquisa apontou para a influência do nível organizacional nos comportamentos de saúde dos seus membros, pelo menos com relação aos valores, ratificando, em princípio, os
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defensores da maior influência dos fatores sócio-cognitivos nos comportamentos de saúde.
Os resultados ratificam também as proposições de Schwartz (2005b), no sentido de que a valorização do coletivo restringe a expressão de comportamentos de interesses individuais, e de Tamayo (2004), chamando atenção para a significativa influência dos valores organizacionais nos comportamentos de saúde dos membros de uma organização. Confirma, também, a importante influência do ambiente de trabalho na promoção da saúde física (WHO, 2008a).
Algumas limitações desta pesquisa devem ser pontuadas. A pesquisa abrangeu quatro unidades organizacionais significativas tanto com relação ao número de funcionários como institucionalmente, considerando o tipo de atividade que realizam. No entanto as quatro unidades se situam em uma mesma cidade, e a instituição como um todo possui em torno de 350 unidades espalhadas em todo o país. Também não foram pesquisados os funcionários da área de logística e de outros tipos de operatividade realizadas na instituição. A extensão da pesquisa de modo a atender unidades em outros locais do país e que realizam outras atividades poderá trazer mais informações, principalmente para apropria instituição, sobre os valores no impacto dos comportamentos de saúde.
A pesquisadora, apesar de ser membro da instituição, não pertence a nenhuma das unidades pesquisadas. Essa situação facilitou a aceitação das unidades em participar desta pesquisa.
Quanto à coleta de dados, a quantidade de instrumentos e itens de resposta inicialmente desestimulou seu preenchimento, apesar de ter sido alto o retorno de cadernos respondidos. A utilização de outros tipos de abordagem (qualitativa, por exemplo) também poderá ampliar o conhecimento sobre o assunto.
Finalmente, na Escala de Comportamentos poderá ser testada a inclusão ou a exclusão de itens, de modo a ratificar ou retificar os resultados encontrados, lembrando que os itens enfocaram a prevenção de doenças crônicas não- transmissíveis.
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Como sugestão, estudos posteriores poderão trazer informações significativas sobre a influência dos fatores organizacionais (valores, normas, estilos de gestão, práticas, rotina, estrutura, apoio gerencial, grupos de referência) e pessoais (autoconceito, auto-eficácia, auto-estima) nos comportamentos de saúde dos membros das organizações.
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