• No results found

A organização dos espaços influencia diretamente na forma como as crianças se relacionam na Emei. A organização do espaço pelas professoras indica, tanto o grau de intervenção do adulto quanto pode mostrar o grau de liberdade de decisão e de organização concedida às crianças (NIGITO, 2004).

O olhar para os espaços da sala, especificamente para a organização, disposição das e distribuição das crianças nas mesas, revelou um espaço resultante das ideias, das

opções, dos saberes das professoras que os planejavam. Revelou-se como um espaço escolarizante e adultocêntrico, centrado nas necessidades e interesses das professoras e marcado por discriminações e preconceitos sobre as habilidades e competências de meninas e meninos. Revelou-se como “um espaço generificado” (WENETZ, 2005) para a garantia a linearidade sexo-gênero, prejudicando o convívio e novas formas de relações.

Dessa forma a forma como “o espaço, também educa” meninas e meninos de forma bastante diferenciadas, foi possível perceber que “o espaço transmite a pedagogia utilizada” (MALAGUZZI apud FARIA, 2000, p. 60).

Assim, a organização do espaço físico da Emei transmite uma determinada imagem de menina e de menino. Por meio de diferentes e contraditórias, mas intencionais, formas de distribuir trata de estabelecer os lugares para as crianças:

Eles não têm lugar fixo para sentar. Então eles sentam de três na mesa, mas não podem sentar três meninos nem três meninas. Ou sentam dois meninos e uma menina ou sentam duas meninas e um menino, Isso com o objetivo da disciplina, flui melhor e também para a interação deles para não ficar clube da Luluzinha e do Bolinha. No início eles querem sentar com os amigos, então eu trabalho que todos são amigos, “eu não vou sentar todo dia com o mesmo amigo”. Primeiro entram as meninas na sala de aula e elas sentam pra não entrar todo mundo junto na porta ficar aquela bagunça confusão. Até pela questão do cavalheirismo, entram as meninas e elas sentam. Só que elas já sabem que não podem sentar três meninas, elas sabem a regra. Depois entram os meninos e sentam. Às vezes coincide de não ter outro lugar aí eu interfiro e troco. Não pode ser sempre os mesmos amigos. Até acontece de ter alguns que sempre tentam sentar juntos.

(Professora Sara)

Eu costumo colocar os mais levados, com duas meninas, sempre dois meninos e duas meninas. Mas sempre tem um grupinho que procura sentar juntos, aí eu tenho que afastar se não eu não consigo trabalhar. (Professora Neuza).

Eu organizo, sempre separo duas meninas e dois meninos, sempre colocando os mais quietos com os mais levados, principalmente quando eles estão muito agitados. A maioria aceita é um ou outro caso que insiste em trocar de mesa, mas é exceção. (Professora Rosa)

Eu coloco no lugar porque me facilita saber onde eles estão, e eu uso o critério de colocar duas meninas e dois meninos, pra que eles possam se conhecer, se entrosar, e as meninas... É não adianta negar isso, elas colocam ordem na casa. As meninas sempre são exemplos de comportamento das atividades... (Professora Miriam)

Apesar da intenção de algumas professoras de favorecer a interação, essas formas de organização acabam privando as crianças da possibilidade de poderem mudar

de lugar, possibilidade esta, que poderia favorecer “novas amizades, trocas de experiências e a convivência com as diferenças” (GODOI, 2000, p. 72).

Os critérios para organização do uso do tempo e do espaço na pré-escola acabam por reforçar a separação entre meninas e meninos, ao estabelecer dinâmicas de atividades baseadas em disputa de dois grupos (meninas e meninos). Assim, ao invés de proporcionar vivências que possibilitassem a integração, acabavam por rivalizá-las ainda mais, pois por vezes incentivavam comparações e sentimentos competitivos.

Para Prado (2006), a “negação da possibilidade de modificar esta situação de segregação” reafirma a condição de “subordinação e incapacidade de estabelecer múltiplas relações” de meninas e meninos:

Através da tentativa exaustiva de controle e de domínio das atividades [e dos corpos] das crianças, profissionais docentes e não docentes buscam definir um tempo, um espaço, um início, um fim, ditar os companheiros e objetos para e nas relações entre as crianças, não havendo assim, possibilidades de reflexão sobre as atitudes e desejos demonstrados pelas crianças. (PRADO, 2006, p. 10)

As experiências italianas mostram os relacionamentos como fundamentais na estratégia de organização de um sistema educacional para crianças de 0 a 6 anos. Assim, buscam uma pedagogia com um tipo de organização que favoreça uma educação baseada em relacionamentos. Para Loris Malaguzzi:

A organização de um grupo de trabalho menor [como é o caso da organização das crianças nas mesas] é muito mais que um simples instrumento funcional: é um contexto cultural que contém em si uma vitalidade e uma infinita rede de possibilidades. Nas escolas para crianças pequenas, o trabalho em grupos pequenos é muito desejado pelas crianças e encoraja processos de mudança e de desenvolvimento. A interação entre crianças é uma experiência fundamental durante os primeiros anos de vida. A interação é uma exigência, um desejo, uma necessidade vital que cada criança carrega dentro de si. (1993, p.11-12 apud DAHLBERG; MOSS; PENCE, 2003, p. 21).

As diferenças e expectativas de comportamento entre meninas e meninos eram utilizadas como critério na distribuição nas mesas. Tinha o objetivo de facilitar a condução da turma e a manutenção da disciplina, em detrimento das possibilidades de interação e favorecimento das amizades. Assim, como também identificou a pesquisa de Daniela Auad (2006), com crianças da primeira etapa do Ensino Fundamental, “o fato de as meninas serem consideradas as quietinhas e os meninos serem vistos como os bagunceiros é usado na hora de decidir quem vai sentar com quem e em quais lugares da sala.” A autora também relata que:

A regra de organização por sexo tinha o objetivo de manter a disciplina o resultado disso, segundo as professoras, era meninos “estabilizados”, ou seja, sem tanta possibilidade de dispersão, e meninas convertidas em “auxiliares pedagógicas”. Tal “mistura” de meninas e meninos, segundo as mestras, garantiria o bom andamento da disciplina na sala de aula (AUAD, 2006, p. 31).

Quando Foucault fala da arte das distribuições, ele se refere às técnicas que repartem os indivíduos no espaço, fixando-lhes um lugar e, ao mesmo tempo, prevendo suas possíveis circulações e permutas. Desse modo, as identidades são estabelecidas especialmente a partir do lugar que se ocupa — uma individualidade estabelecida a partir de vinculações muito precisas com o espaço que deve ocupar.

As regras para essa distribuição faziam com que cada um tivesse seu lugar específico, o que também facilitava o conhecimento e a análise de seus ocupantes. Esse é o “princípio das localizações funcionais” (FOUCAULT, 1977), ou seja, a questão de os corpos serem distribuídos só para que se tornem melhor vigiados e analisados, mas também tendo em vista a eficiência no cumprimento das funções que lhes são atribuídas. A privação do movimento corporal “como um dos propósitos organizadores da Pedagogia” aponta que “no caso das crianças, a privação do movimento e a impossibilidade de se expressarem através dos gestos, dos ritmos e das linguagens corporais já esquecidas por nós, adultos, constitui grave violência. Por sorte, elas resistem...” (SAYÃO, 2008, s/p).

5.1.4. “Os meninos são uns fominhas de bola”: uso da quadra

Ao me deparar com o espaço da quadra da Emei, foi possível ler suas mensagens e significados e refletir sobre a organização dos espaços na educação de meninos e meninas e sobretudo, em relação as expectativas voltadas para seus corpos. Quais as escolhas são contempladas por seus idealizadores? Quais as crianças e os adultos que usam este espaço? Todos os que utilizam esse espaço estão à vontade e envolvidos?

Ao longo das observações de e das entrevistas, pude perceber que o uso da quadra era quase exclusivamente dos meninos, que a ocupavam com jogos de futebol. Foi possível perceber também uma intenção de uso diferenciado do espaço da quadra desde a concepção. O espaço onde foi construída era um gramado do parque, a área foi reformada para o uso principalmente dos meninos: “foi pedido para pintar colocar as

traves porque os meninos gostavam de jogar bola”.