Um dos eixos centrais do posicionamento temático da Casa da Matriz é a música rock- and-roll. Toda a sua programação musical gira em torno do rock-and-roll e de algumas das suas principais vertentes como, por exemplo, indie-rock, pop-rock e reggae. Além disso, suas festas são comandadas por DJ´s considerados referências em cada uma dessas vertentes. Assim, a Casa da Matriz é reconhecida pelas tribos urbanas organizadas em torno de cada um desses estilos musicais como um local adequado para construir e expressar suas respectivas identidades culturais.
É importante destacar que o estilo musical rock-and-roll parece desempenhar um papel mais relevante na construção da identidade das tribos urbanas que freqüentam a Casa da Matriz do que o seu ambiente físico propriamente dito. Tal ambiente parece desempenhar muito mais o papel de suporte físico para a realização dos encontros das tribos urbanas do que o de objeto principal na construção da sua identidade.
... se a festa Maldita fosse em outro lugar... não ia ser a mesma coisa não... mas eu ia atrás da festa, é o som que eu curto... (G., 20 anos, estudante).
De fato, a programação musical e os DJ´s parecem atuar como os elementos fundamentais na transmissão de significados associados à construção do posicionamento temático ligado ao rock-and-roll.
a gente se sente? Eu me sinto menos anfitrião do que o DJ que tá lá, na verdade né... eu não sou...esse cara é que dá a cara da festa, esse cara é que vai tocar a musica que a galera que tá lá que quer ouvir, que conhece, que interage na internet, que... é o cara que conhece música de verdade, eu tô ali justamente prá propiciar o serviço, ou seja, abrir a casa, botar o ar condicionado funcionando, botar o segurança... (L., 33 anos, sócio).
O porquê é exatamente isso, eles querem ouvir um rock que não toca. Não é um rock farofa, que cai pro pop, que toca nessas boates mais de moda, entendeu? (M., 25 anos, publicitária).
A festa A Maldita pode, da mesma forma, ser caracterizada como uma festa cujo eixo temático gravita em torno do hip-hop e do indie-rock (rock independente). Os seus DJ´s construíram sólida reputação no cenário musical alternativo e funcionam como referências para os membros da tribo organizada em torno da paixão por esse estilo musical.
... tem a Maldita, que é a festa mais antiga, deve ser uma das festas mais antigas da cidade, que ela começou também na UFRJ, com os mesmos fundadores da Loud, os DJ´s Zé e Gordinho; é só de Indie rock... é uma festa assim... (M., 25 anos, publicitária).
Sempre uma proposta de tocar as coisas que não tocam em muitas festas... era essa a idéia. No inicio a festa não era nem tão direcionada
ao hip-hop como ela é hoje. Era eu, o Gordinho e tinham mais quatro DJ´s que eram amigos nossos que faziam um negocio bem... como é que eu posso dizer?... bem só entre amigos mesmo, acabou virando um negocio mais sério mesmo depois de um tempo. Como ficou mais depois só eu e o Gordinho que tocamos a festa adiante, e virou nossa profissão na verdade, acabamos direcionando mais prá essa historia de rock alternativo, hip-hop... (Z., 32 anos, DJ).
A referência à inexistência de qualquer tipo de ambição comercial na fase inicial da história da festa A Maldita contribui para reforçar a autenticidade do seu posicionamento e o papel do DJ´s na manutenção do mesmo. Esse papel acaba contribuindo de forma decisiva para a construção e legitimação da sua reputação.
É... eles (os DJ´s) são essa referência prá uma galera que tá descobrindo o indie-rock assim...“pô, o Zé tocou na pista, o que que é aquilo?”, e eles fazem um trabalho de relacionamento com o público pelo orkut que é muito forte... (M., 25 anos, publicitária).
... não dá pra deixar de falar dos djs, excepcionais. podemos curtir um ou outro tipo de som, mas o “cast” é muito bom. (G. 20 anos, estudante).
Fica claro, desse modo, que a preservação da autenticidade da festa A Maldita e da Casa da Matriz acaba contribuindo decisivamente para a delimitação do seu ambiente físico de serviços como um espaço preservado para a ocupação pelas tribos que o
freqüentam. É possível, inclusive, afirmar que a festa parece ter passado por um processo semelhante ao de uma sacralização por meio de um ritual de purificação comandado pelos DJ´s, transformando-se em objeto cultuado pelos membros da tribo urbana.
Na verdade tá... se a pessoa tá inserida no contexto de alguma forma, ele acaba conseguindo curtir a festa, claro... porque a gente hoje em dia é meio radical mesmo... não é a intenção ser radical, mas a gente não... o rock tá filtrando mais o publico, isso faz de certa forma, a gente chega perto de autoral, de certa forma. A gente toca o que quer tocar, o que a gente ta acostumado a tocar, e tocar prá poucas pessoas que estão nessa pilha... (Z., 32 anos, DJ).
O curioso, é que, se existe uma "panelinha" quanto aos freqüentadores, é pelos Dj´s, amizades feitas, ou seja, eu adoro me sentir em casa naquela sauna, e claro, vou pelas músicas, quem me conhece sabe que danço a noite toda... E Matriz são os Dj´s, com isso quero dizer que não atrairia, como já ouvi e prefiro não me extender nisso também, "pessoas com estilos nada a ver com o da casa". (A., 24 anos designer).
De fato, a manutenção de uma postura rigorosa do DJ´s no que diz respeito à fidelidade ao estilo musical característico da festa A Maldita funciona como uma garantia da preservação da sua integridade perante os freqüentadores membros da tribo urbana. Tal postura acaba contribuindo para desestimular a presença de indivíduos sem identificação com o estilo musical que eventualmente venham a freqüentar a
festa.
Eu achei a música muito desanimada... não é muito legal pra dançar. Fiquei nervoso com aquela gente parada prestando atenção do DJ. (E., 26 anos, estudante).
Não é o tipo de festa que eu iria de novo. Senti falta de música mais dançante pra ficar na pista. Não deu vontade de dançar. (R., 23 anos, estudante).
... eu particularmente não gosto, é uma festa que eu não consigo dançar, eu não conheço as musicas... (M., 25 anos, publicitária).
De fato, a atitude dos freqüentadores e dos DJ´s da Casa da Matriz e da Festa A Maldita apresenta características semelhantes às descritas por Kozinets (2002), Belk e Costa (1998) e Shouten e McAlexander (1995) no que diz respeito à preocupação demonstrada por eles com a preservação da integridade da programação musical do estabelecimento e da festa. Nesse sentido, a tribo de freqüentadores pode ser caracterizada como sendo de resistência e emancipação ao mainstream da indústria fonográfica.
Tal posicionamento não ocorre sem o surgimento de atritos. Assim, como foi verificado por Shouten e McAlexander (1995), os freqüentadores da Casa da Matriz e da Festa A Maldita demonstram certo ressentimento em relação aos seus gestores. Algumas atitudes como, por exemplo, a realização de festas na Casa da Matriz e a
abertura de novos estabelecimentos dedicados a outros estilos musicais são percebidas como uma espécie de profanação do seu ambiente físico.
Tem um cara que arrancou um cartaz que tinha lá dentro promovendo um show de chorinho ou samba, sei lá, que ia acontecer em outra casa do grupo. (L, 24 anos, estudante).
Eu soube dessa coisa. Ele disse que estavam corrompendo o espírito da Maldita, que agora só queriam saber de dinheiro e tal... (G, 20 anos, estudante)
... a galera de segunda e de sábado, de quartas também, de quinta mais ou menos, odeia sexta feira na Matriz... odeia Brazooka, odeia o Janot... quer dizer, isso não é falado, mas é uma coisa assim... odeia o publico... (M. 25 anos, publicitária).
“... aquele pessoal... que não sabe nada de música fica ouvindo aquelas porcarias”. Porque eles têm uma certa implicância com musica brasileira, MPB, o negocio deles é rock, rock, rock.... (M. 25 anos, publicitária).
Assim, é possível perceber um claro problema a ser enfrentado pela Casa da Matriz no que diz respeito à busca por um maior equilíbrio entre o seu posicionamento temático e o posicionamento específico de cada festa que acontece em suas dependências na medida em que o seu ambiente físico de serviços é utilizado por diferentes tribos
urbanas. Embora tal utilização aconteça em diferentes momentos, ela acaba se transformando em potencial fonte de conflito em função da existência de “rastros”, resultantes das práticas de apropriação baseadas em demarcação de território que serão discutidas posteriormente, deixados no ambiente físico por cada uma delas.