A segunda tricotomia, divisão mais importante dos signos, segundo Peirce, trata a relação do signo para com seu objeto, frente ao fato de o signo ter algum caráter em si mesmo, ou manter alguma relação existencial com este objeto, ou em sua relação com um interpretante (PEIRCE, 2003, p.52). Portanto, é a tricotomia que fala das relações
semânticas entre o signo e o seu objeto, cujos três elementos são: o ícone, o índice e o símbolo.
Se o signo possui uma propriedade monádica (qualidade, primeiridade), então pode-se dizer que ele é um ícone do objeto. Visto que a propriedade monádica é não-relacional, a única relação possível que o ícone pode ter com o objeto, considerando essa propriedade, é a de ser idêntico a ele (SANTAELLA, 2000, p.109).
Dessa forma, um ícone pode ser definido como um signo que tem alguma semelhança com o objeto representado; ele se refere ao objeto por ele denotado apenas em virtude de seus caracteres próprios, que existem independentemente da existência real do objeto. Qualquer coisa, seja uma qualidade, um existente individual, ou uma lei é ícone de qualquer coisa, na medida em que for semelhante a essa coisa e utilizado como signo seu (PEIRCE, 2003, p. 52).
Se o signo, na sua relação com o objeto, aparece na forma de pura qualidade, ele só pode ser um ícone, já que a qualidade só possui capacidade de apresentação – e não, efetivamente, de representação. E, sem o representar, a qualidade não pode funcionar como signo; daí que o ícone seja algo sempre algo que se dá à contemplação. Conforme colocado por Santaella:
“Uma pintura, chamada abstrata, por exemplo, desconsiderando o fato de que é um quadro que está lá, o que já faria dela um existente singular e não uma pura qualidade, mas considerando-a apenas no seu caráter qualitativo (cores, luminosidade, volumes, texturas, formas...) só pode ser um ícone. E isto porque esse conjunto de qualidades inseparáveis, que lá se apresentam in totum, não representa, de fato, nenhuma outra coisa. O objeto do ícone, portanto, é sempre uma simples possibilidade, isto é, possibilidade do efeito de impressão que ele está apto a produzir ao excitar nosso sentido. Daí que, quanto mais alguma coisa a nós
se apresenta na proeminência do seu caráter qualitativo, mais ela tenderá a esgarçar e a roçar nossos sentidos” (2004, p.64).
Os ícones possuem alto poder sugestivo, basicamente pelo fato de não representarem nada, mas sim apresentarem formas e sentimentos, sejam eles visuais, táteis, sonoros... daí a reação habitual do indivíduo, diante da falta de precisão representativa do ícone, de tentar estabelecer relações de semelhança, sempre considerando-o “parecido” com algo. A partir daí, pode-se citar como exemplos de ícone: a fotografia de uma pessoa; um desenho de uma casa, uma nuvem que sugere a forma de um rosto ou, até mesmo, um diagrama.
No nível da secundidade, está o índice. Ele pode ser definido como um signo que se refere ao objeto denotado em virtude de ser diretamente afetado por este objeto; trata- se de um signo que funciona como tal por indicar uma outra coisa, existencial, com a qual ele está factualmente ligado. Conforme dito por Peirce, o índice “não pode se um qualissigno, uma vez que as qualidades são o que são independentemente de qualquer outra coisa. Na medida em que o índice é afetado pelo objeto, tem ele necessariamente alguma qualidade em comum com o objeto, e é com respeito a estas qualidades que ele se refere ao objeto” (2003, p.52). Dessa forma, o índice envolve uma espécie de ícone, de tipo especial, que não é a mera semelhança com seu objeto, mas sim a sua efetiva modificação pelo objeto.
O índice é o tipo sígnico de exemplificação mais facilmente compreensível, visto que tudo o que existe é índice ou pode funcionar como tal; para tanto, basta que haja a constatação da relação com o objeto do qual o índice faz parte e com o qual está conectado em termos existenciais. Coelho Netto fornece alguns exemplos simples e precisos: fumaça é signo indicial de fogo, um campo molhado é índice de que choveu,
uma seta colocada num cruzamento é índice do caminho a seguir; são índices ainda, um pronome demonstrativo, uma impressão digital, um número ordinal (2003, p.58).
Uma outra razão simples para o fácil entendimento da noção de índice nos leva à questão da codificação na comunicação humana. Viver é se interrelacionar com o ambiente e o outro, por meio de um processo contínuo de codificação e descodificação de mensagens. Nesse sentido, Sebeok apresentou o poder exercido pelos índices sobre a existência dos homens e dos animais:
“A sobrevivência de todas as espécies e de cada membro individual de todas as espécies, depende da decifração correta dos signos indexicais... os seguidores de trilhas de cavalos ou outros animais, o profeta e o adivinho, o detetive, o historiador da arte, o médico, o psicanalista e os cientistas modernos são, cada um a seu modo, leitores ávidos e intérpretes de metonímias naturais do Livro da Natureza – do mesmo modo que nós temos a experiência dos signos em nossa vida cotidiana, embora talvez de modo menos concentrado e menos especializado” (1991, p.49)
A terceira classificação da segunda tricotomia é o símbolo, signo que se refere ao objeto denotado em virtude de uma associação de idéias gerais produzida por uma convenção, ou seja, uma lei ou um tipo geral. Tal associação de idéias opera no sentido de fazer com que o símbolo seja interpretado como se referindo àquele objeto (PEIRCE, 2003, p. 52).
Do mesmo modo que o legi-signo da primeira tricotomia, o símbolo, analogamente, atua por meio de uma réplica; não apenas ele é geral, mas também é seu objeto denotado. Entretanto, visto que o que é geral deve existir também nos casos determinados, então o símbolo também é afetado por esses casos, o que nos leva à conclusão de que, no símbolo, também há uma espécie de índice. (COELHO NETTO, 2003, p.58). Ainda assim, a afetação sofrida pelo símbolo não é o que justifica a sua
existência, uma vez que o mesmo possui caráter arbitrário, conforme colocado por Peirce. Como exemplos de símbolos, podemos mencionar: o branco, como a cor da paz; a estrela de David, como símbolo do judaísmo; qualquer uma das palavras de um idioma.
Na discussão sobre o ícone, vimos que ele é um signo, onde a virtude está na sua mera existência presente, em conexão com uma outra, que tem por função atrair a atenção de algum intérprete para a existência de tal conexão. O ícone possui, dentro de si, um caráter significativo, independentemente da existência do seu objeto, podendo este ser criado no momento da interpretação quando, então, o ícone adquire a função de signo. Se o objeto não existisse, o índice perderia o caráter – independente da existência do interpretante – que faz dele um signo.
Por outro lado, a virtude do símbolo não está na sua existência, mas, sim, na generalidade da lei, regra, hábito ou lei trazidas consigo. Sua função, pois, dependerá de qual é a convenção responsável pela determinação do seu interpretante. O símbolo pode ser visto, em si mesmo, como um processo de mediação para o desenvolvimento do interpretante; ele constitui um signo pelo fato de que será usado e interpretado como tal. A sua razão de ser signo encontra-se, portanto, no interpretante e seu caráter, na generalidade (SANTAELLA, 2000, p. 132).
O exemplo das palavras de um idioma como símbolo é bastante pertinente no sentido de conceitualizá-lo como um tipo geral. Se tomarmos uma palavra qualquer da língua portuguesa, por exemplo, carro, veremos que ela, em si, possui caráter geral. O objeto designado pela palavra carro não é necessariamente o meu carro, ou o carro que eu vi num anúncio, mas sim todo e qualquer carro. Dessa forma, temos que o objeto de uma
palavra não é algo provido de existência real; pelo contrário, trata-se de uma idéia abstrata, com base em uma convenção pertencente ao comum lingüistico existente na mente dos membros de um grupo. É nesse ponto que entra o interpretante, dando forma ao signo: por meio do processo de mediação, o carro no seu caráter geral assume a identidade de um carro específico, particular.