5 Oppsummering og diskusjon
5.2 Diskusjon
Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, na seção intitulada Critica da Dialética e da Filosofia Hegelianas em Geral, Marx critica Hegel no que ele chama de limites da filosofia hegeliana, que não submete à critica o trabalho alienado. Segundo ele, o ponto de partida de Hegel é o mesmo da moderna Economia Política. Assim sendo, concebe o trabalho como a essência confirmativa do homem. Considera apenas o lado positivo do trabalho não o seu aspecto negativo. O único trabalho que Hegel entende e reconhece é o trabalho intelectual abstrato (MARX, 2010, p. 124).
No capítulo final da Fenomenologia do Espírito, de Hegel, intitulado O Saber Humano, o homem é equivalente à autoconsciência3. Por conseguinte, toda a alienação se reduz à alienação da autoconsciência, ou seja, o homem é olhado como um ser não objetivo,
espiritualista. Consequentemente, a alienação da vida humana nada mais é do que a alienação da autoconsciência. Assim sendo, a superação da alienação dá-se também na esfera da consciência. Isto porque, como foi expresso, o único trabalho que Hegel entende e reconhece é o trabalho intelectual abstrato. Para Marx, trabalho é atividade prática; diz respeito à práxis4 humana, é trabalho como dimensão histórico-social. É condição de possibilidade da sociabilidade.
Na leitura critica de Hegel, Marx aduz não somente elementos negativos, mas alguns elementos positivos, senão vejamos: O primeiro deles é a afirmação da autocriação do homem. Marx nos apresenta o grande mérito de Hegel, quando diz: “A grandeza da Fenomenologia hegeliana e do seu resultado final - dialética, a negatividade enquanto princípio motor e gerador – é que Hegel toma, por um lado, a autoprodução do homem como
processo”. (2010, p. 123). Esta afirmação é para Marx absolutamente fundamental para a sua
concepção do homem. Se não depende de ninguém para existir como ser humano, o homem identifica-se com a sua história, e é a sua história. Por isso, a natureza humana não é algo fixo definitivo, é também histórica, isto é, mutável.
O segundo aspecto da concepção extraordinária de Hegel consiste em aprender a natureza do trabalho e conceber o homem objetivo (verdadeiro, porque homem real), como resultado do seu trabalho. Marx assegura-nos, contudo, que o homem pode se afirmar como ser genérico – isto é, ser natural e humano - só na medida em que de fato põe em ação todas as suas forças genéricas, pois “O que é possível apenas mediante a ação conjunta dos homens, somente enquanto resultados da história –, comportando-se diante delas como frente
a objetos, o que, por sua vez, só em princípio é possível na forma do estranhamento”.
(IDEM, IBIDEM, p.123).
Nesta passagem, é assegurado o fato de que o homem só se manifesta como ser humano à medida que exterioriza e objetiva os seus poderes específicos no trabalho material, o qual, porém, só é possível como trabalho social, pois o homem precisa de outros para _______________________
3 A questão principal é que o objeto da consciência nada mais é do que a consciência-de-si, ou que o objeto é somente a consciência-de-si objetivada, a consciência-de-si como objeto. (MARX, 2010, p.124).
4 Com esta palavra (que é a transcrição da palavra grega que significa ação), a terminologia marxista designa o conjunto de relações de produção e trabalho, que constituem a estrutura social, e a ação transformadora que a revolução deve exercer sobre tais relações. Marx dizia que é preciso explicar a formação das ideias a partir da "práxis material", e que, por conseguinte, formas e produtos da consciência só podem ser eliminados por meio da "inversão prática das relações sociais existentes", e não por meio da "crítica intelectual” (MARX, 1984, p. 34).
produzir. Ao tratar, porém as próprias forças objetivadas como objeto, isto é, algo alheio e estranho, o homem torna possível à alienação.
Portanto, extraem-se desta passagem duas ideias: primeiro, a produção é essencial para que o homem se afirme como ser humano. Segundo, enquanto produz em relação a outros homens, escapa-lhe o controle do objeto produzido, trabalha em condições alienadas.
Seguindo estas considerações de Marx, podemos entender que, apesar de trabalhar em condições alienadas, o homem não depende de ninguém, pois ele se cria. “O que se chama história mundial é apenas a criação do homem através do trabalho humano, a emergência da natureza para o homem, ele possui já a prova evidente e irrefutável da sua autocriação, das suas próprias origens”. (2010, p. 114).
Enfim, o terceiro aspecto positivo da contribuição de Hegel, expresso na Fenomenologia, é que Hegel concebe a autocriação do homem como processo e a objetivação como perda do objeto, como alienação e abolição da alienação.
Assim sendo, esta concepção hegeliana da alienação da vida humana, como alienação da autoconsciência, é limitada e parcial, segundo Marx, pois falta a relação entre o homem e o seu mundo objetivo material; relação esta que nasce da práxis real do homem. Marx tem uma posição crítica baseada da contradição capital-trabalho assalariado. Ele parte do conceito e da estrutura dialética do processo de alienação e procura desvincular a alienação da atividade da consciência para ancorá-la à atividade material prática do homem.
A crítica realizada por Marx em 1844 destacou um caráter monarquista em Hegel, que buscava a conciliação do real com o racional, implicando que uma realidade contraditória havia sido concebida como momento suprassumido, porque o Estado5 já aparecia com o papel da realidade em ato que sabe e se reconhece algo possivelmente já acabado e incorporado na figura do príncipe - embora isso fosse para Hegel a verdade se manifestando (no sentido da categoria de conceito, ou seja, nesse caso, a realidade em conformidade com a mais desenvolvida racionalidade).
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5 - Hegel vivia sob o reinado de Frederico Guilherme III, e era professor de Filosofia da Universidade de Berlim, circunstância que o deixava à mercê do poder estatal.
Segundo Hegel, as carências6 só podem ser resolvidas com o trabalho, só pela mediação do outro. Os homens satisfazem suas carências pelo aprimoramento dos meios. Na medida em que vai se aprimorando a ciência e a técnica, elas vão se desenvolvendo, e o trabalho se tornando menos personificado, mais universal, pois qualquer pessoa pode fazê-lo.
Para Hegel, o trabalho possui uma dimensão formadora, constituidora do homem; Hegel adota uma concepção positiva do trabalho. Assim sendo, trabalho é visto como mediação humana, na relação homem-homem. Portanto, trabalho é natureza transformada para satisfazer às necessidades do homem.
A sociedade capitalista, contudo, possui como um de seus fundamentos a apologia ao trabalho. Como expressa a fábula de La Fontaine A cigarra e a formiga, aliás, a sociedade capitalista se afirma e tem vida no trabalho dos seres humanos. O trabalho, porém, não é somente a atividade física diária e o salário como resultado. O processo do trabalho pressupõe outras formas de relação entre o trabalhador e sua atividade e entre o trabalhador e os outros trabalhadores. Marx, nos Manuscritos de 1844, assevera que Hegel apreende acertadamente a essência do trabalho como exteriorização, transformação objetiva e esforço humano nos seus escritos de 18067 e em 18218:
A mediação que, para a carência particularizada, prepara e obtém um meio também particularizado é o trabalho. Através dos mais diferentes processos, especifica a matéria que a natureza imediatamente entrega para os diversos fins. Esta elaboração dá ao meio o seu valor e a sua utilidade; na sua consumação, o que o homem encontra são, sobretudo produtos humanos, como o que utiliza são esforços humanos. (HEGEL, 1990, p. 187).
Nesse trecho, o trabalho acontece quando há dispêndio e dispersão de atenção (atividade consciente) e de força física, sendo que é um meio entre a necessidade que é própria de cada ser particular (muitas das necessidades que estão além das biológicas, são _________________
6– “As carências e os meios tornam-se, como existência real, um ser para outrem, e, pelas carências e pelo trabalho desses outrem, a satisfação é reciprocamente condicionada. A abstração que veio a ser uma característica das carências e dos meios vem também a ser uma determinação das relações recíprocas dos indivíduos”. (HEGEL, 1990, p. 185).
7 - Na "Fenomenologia do Espírito", Hegel discorre sobre o conceito da Consciência (a consciência a caminho da consciência de-si) que representa o "vir-a-se-de-si" (o devir) da Ideia, ou seja, a passagem da Razão ao Espírito; está prefigurada a dialética do saber. Trata-se da "tríade fundamental" da dialética hegeliana (Tese/Ideia; Antítese/Natureza; Síntese/Espírito). Em resumo: para Hegel, o saber de si é sempre um saber do outro e vice-versa. A consciência - que em-si, já é um saber - é sempre saber de algo.
8–“Princípios da Filosofia do Direito”, publicado em 1820, embora a data na folha de rosto da edição original seja de 1821. A Filosofia do Direito (como é geralmente chamada) começa com uma discussão do conceito de livre arbítrio e demonstra que este só pode ser entendido no complicado contexto social da propriedade privada e das relações, contratos, compromissos morais, vida familiar, economia e sistema legal. Uma pessoa não é verdadeiramente livre, a menos que seja participante em todos estes diferentes aspectos da vida do Estado.
determinadas pelo conjunto das relações pessoais) e a satisfação pessoal e social. Segundo Hegel (2009, p. 178), “Há uma tal mediação do particular pelo universal, um tal movimento dialético, que cada um, ao ganhar e produzir para sua fruição ganha e produz também para
fruição dos outros.”
Quando uma carência humana é satisfeita, deve-se remeter ao processo que a possibilitou, isso é, a carência está concebida como algo particular ligado ao social, à satisfação da mesma forma pelo trabalho de um e de muitos.
Além da concepção do trabalho como transformação objetiva, Hegel elabora uma ideia da sociedade dividida em classes, sendo que a classe industrial é aquela que realiza a transformação do produto natural, dando satisfação às carências das pessoas, na sociedade, ou seja:
Um organismo formado por sistemas particulares de carências, técnicas e trabalhos, modos de satisfazer as carências, cultura teórica e prática, sistemas entre os quais se repartem os indivíduos, assim se estabelecendo as diferenças de classes. (HEGEL, 1990, p. 190).
Tanto em Marx como em Hegel, as necessidades se fazem em sociedade e são satisfeitas por ela mesma por meio da atividade de cada um, caracterizando relações de dependências. A satisfação, contudo, é contraditória desde o princípio até o seu fim, há problemas nos momentos do fabrico, da apropriação dos produtos, na distribuição etc. Nem todos os indivíduos participam ativamente das etapas de produção, não são todos que encontram satisfação, pois essa é uma circunstância essencial pela qual a sociedade capitalista se reproduz: muitos se dedicando a elaborar as coisas e poucos usufruindo; este último fato se refere à forma de distribuição dos produtos.
O trabalho em Hegel aparece como detrimento do trabalhador pela máquina: “em suma, a abstração da produção leva a mecanizar cada vez mais o trabalho e, por fim, é possível que o homem seja excluído e a máquina o substitua” (HEGEL, 1990, p. 188) e, com Marx: “(...) o trabalhador baixou à condição de máquina, a máquina pode enfrentá -lo como concorrente” (MARX, 2010, p. 27). No seio da própria classe trabalhadora, existe a competição pela sobrevivência por meio do trabalho; pois, com a introdução das máquinas nas fábricas para aumentar a produção e aperfeiçoá-la, tem-se a segunda competição: a dos indivíduos com as máquinas, sendo que os primeiros perdem, porque as segundas não têm carências de ordem social e biológica.
Enquanto o trabalhador sofre a negatividade do trabalho, o senhor (para Marx, o proprietário dos meios de produção) goza da positividade da criação de outrem. Isso pode ser verificado em Hegel na Dialética do Senhor e do Servo, presente na Fenomenologia do Espírito (HEGEL, 1992, p. 130). O proprietário utiliza mecanismos de dominação para usufruir do trabalho de outrem, e essa relação, se elevada à generalidade social, indica a dominação de um grupo pelo outro. Esses mecanismos estão presentes nas particularidades das relações, por exemplo, quando o operário tem que se submeter ao capitalista para se sustentar. Há, também, os desempregados necessitando de emprego – isso tudo, entre outros fatores, enseja uma circunstância que age na pessoa e a obriga a se render aos desejos de outra.
Com suporte nesse fato, é possível verificar que, para Hegel, o homem está sujeito a ser submetido ao poder de outrem, acrescentando-se que essa submissão está associada à própria noção de classes, que, para Hegel, estão divididas9 em: 1) classe substancial, 2) classe industrial e 3) classe universal. A primeira é a camponesa, que sobrevive de seu trabalho na terra; a segunda é a classe operária da indústria e da cidade, que transforma a natureza; a terceira é a burocracia estatal e a classe dominante, capaz de pensar a universalidade10 11 social – inclusos os problemas da ordem da sociabilidade.
A universalidadehá pouco citada, segundo Marx, é uma universalidade falsa na qual os interesses da classe dominante são defendidos de acordo com o geral, ou seja, o todo social serve para conservar essa classe dominante; é falsa pelo fato de que aparentemente essa classe pensa nos problemas das outras; do contrário, Hegel dá a essa classe o papel de organizadora da sociedade com a função de pensar o universal de forma conciliadora.
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9 A divisão do conjunto em classes, por si mesma, objetivamente, se realiza em uns porque é racional em si mas o princípio da particularidade subjetiva não recebe o que lhe é devido, quando a repartição dos indivíduos em classes é feita pelo Governo, como acontece no Estado platônico (República; liv.III), ou quando depende do nascimento, como nas castas da Índia. (HEGEL, 1990, p.192/3).
10 “ o que há de universal e de objetivo no trabalho, liga-se à abstração que é produzida pela especificidade dos meios e das carências e de que resulta também a especificação da produção e a divisão dos trabalhos. Pela divisão, o trabalho do indivíduo torna-se mais simples, aumentando a sua aptidão para o trabalho abstracto bem como a quantidade da sua produção. Esta abstração das aptidões e dos meios completa, ao, mesmo tempo, a dependência mútua dos homens para a satisfação das outras carências, assim se estabelecendo uma necessidade total. Em suma, a abstração da produção leva a mecanizar cada vez mais o trabalho e, por fim, é possível que o homem seja excluído e a máquina o substitua”. (HEGEL, 1990, p.188).
11 “A universalidade, que é aqui o reconhecimento de uns pelos outros, reside naquele momento em que o universal faz das carências, dos meios e dos modos de satisfação, em seu isolamento em sua abstração, algo de concreto enquanto social”. (HEGEL, 19990, p. 185).
Desse modo, Hegel justifica a desigualdade social, pois, se pelo trabalho se produz riqueza, é natural que exista a desigualdade, porque os homens são desiguais, portanto, justa. A desigualdade se dá pela capacidade, pela contingência (sorte), pelo patrimônio da família e pela aptidão; no estado de natureza o que prevalece é a força. Somos diferentes. Portanto, segundo ele, esta desigualdade é legítima.
Buscando sintetizar e clarificar os resultados, temos que a crítica ao sistema capitalista às maneiras de relação estabelecidas entre as pessoas não consiste nos objetivos de Hegel em seu livro. Muitos dos elementos tratados por G.W.F.Hegel, no entanto, avançam além desses objetivos e adentram o campo da crítica, algo que é inevitável para aquele que trata do campo das relações pessoais. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel adverte para a elaboração de sua obra, que deve ser vista em todo o seu processo. Assim sendo, na Fenomenologia, que é um escrito de 1806, se fazem presentes muitos temas desenvolvidos e retomados de maneira mais acabada no escrito de 1821; como questões relativas à produção do conhecimento sob a perspectiva da atividade humana criativa como fundamento para a formação humana, ainda que limitada ao âmbito ideal; porém foi de fundamental importância para a concepção marxista do trabalho, que antes de desembocar na concepção metodológica na “critica da economia política”, ainda passaria por uma crítica “antropológica” das consequências negativas do trabalho para os produtores, desenvolvida por Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844.
Marx realizou diversas críticas ao sistema de Hegel, e são algumas das críticas, presentes na obra de 1844, que abordamos muito brevemente aqui, como também aquelas que fazem referência ao sistema de Hegel de maneira indireta. Retomaremos este tópico posteriormente, mas aqui destacamos somente alguns fatores que comprovam a crítica de Marx sobre Hegel e também ao sistema econômico.
3.3 Crítica Marxiana à Economia Política
Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, Marx elaborou duas críticas, a primeira como já vimos: a Crítica da Dialética e da Filosofia Hegelianas em Geral, e a segunda, a crítica à Economia Política, que trataremos nesta seção. Aqui queremos ressaltar à importância dessa crítica, em virtude da centralidade da vida econômica na vida social.
Marx apresenta, na folha XXII dos Manuscritos Econômico-Filosóficos, pela primeira vez sua crítica à economia nacional. Esse conceito designa, aqui, em Marx, a ciência da Economia Política. Esta critica não é de cunho ético-humanista, é da ordem do real, como afirmamos no início de nosso trabalho, é metodológica, uma vez que a Economia Política não vai além do universo da sociedade capitalista; pelo contrario, ela vê a realidade como expressão de leis eternas, isto é, não históricas.
Segundo Marx, o limite da Economia Política (economia nacional) é de não ir além da análise abstrata dos fatores da produção, sem explicar o problema do homem que trabalha. Marx insurge-se contra a noção parcial de trabalho da Economia Política, pois o trabalho não é apenas força produtiva ou um dado na conta dos custos de produção – “O
trabalho aparece, na economia nacional, apenas sob a forma de emprego” (MARX, 2010, p.
30) - e logo aparece a contradição:
Diz-nos o economista nacional que tudo é comprado com o trabalho, e que o capital nada mais é do que trabalho acumulado. Mas ele nos diz, simultaneamente, que o trabalhador, longe de poder comprar tudo, tem de vender-se a si próprio e a sua humanidade. (MARX, 2010, p. 28).
Portanto, o dono do trabalho não é o trabalhador, mas sim o outro. – “O trabalhador torna-se uma mercadoria e é uma sorte para ele conseguir chegar ao homem que
se interesse por ele”. (IBIDEM, p. 24).
Para os representantes da Economia Política, na crítica marxiana, o trabalho é tudo e o sujeito do trabalho (o operário/o trabalhador) é nada. “A economia nacional conhece o trabalhador apenas como animal de trabalho, como uma besta , reduzida às mais estreitas
necessidades corporais” (IBIDEM, p. 31), e, consequentemente, pode-se propor a tese de
que, tal como um cavalo, deve receber tanto quanto precisa para ser capaz de trabalhar. Segundo o nosso Filósofo alemão, a Economia Política não se ocupa do homem no seu tempo livre como homem, mas deixa este aspecto para o Direito Penal, para os médicos, para a religião, para as tabelas estatísticas, para a política e para o funcionário de hospício.
É assim que o valor do trabalho é completamente destituído se não for vendido a todo o instante, pois
O trabalho não é suscetível nem de acumulação, nem mesmo de poupança, diferentemente das verdadeiras mercadorias. O trabalho é a vida, e se a vida não se permutar todos os dias por alimento, sofre e, em seguida, perece. Para que a vida do homem seja uma mercadoria, é preciso, portanto, admitir a escravidão. (MARX, 2010, p. 36).
Por conseguinte, “o trabalho é a mercadoria mais miserável que existe”. Esta expressão de David Ricardo (1771-1823) bem figura isto que dissemos: “As nações são apenas oficinas da produção, o homem é uma máquina de consumir e produzir; a vida
humana, um capital; as leis econômicas regem cegamente o mundo”. (MARX, 2010, p. 56).
Nesse sentido, podemos concluir que para Ricardo o homem é nada, o produto é tudo. Com base nesta posição, Marx critica a unilateralidade da Economia Política, que vê só o lado exterior e produtivo do trabalho, e desmascara a alienação que está na base da sociedade burguesa e, mais em geral, de a toda sociedade burguesa. Para ele, a abolição positiva da propriedade privada, tal como a apropriação da vida humana, constitui, portanto, a abolição positiva de toda alienação, o regresso do homem à sua existência humana, isto é, social12.
A Economia Política, segundo Marx, não vê a contradição entre trabalho e capital. O ponto de partida dos economistas políticos é a sociedade burguesa e a objetividade das relações capitalistas. Eles apenas expressam as leis do trabalho estranhado. O ponto de partida de Marx é outro: é o fato econômico real com todas suas formas de relações de trabalho estranhado e do homem negado. Assim sendo, podemos concluir que a contradição da Economia Política não é só contradição do discurso, mas do método também, pois a própria realidade é contraditória.
Ao iniciarmos a análise da “crítica da economia política” de Marx, devemos ter bem claro que não correspondem à obra de um economista no sentido particular, mas sim de um filósofo materialista, que sempre parte da totalidade do ser social, tomando as categorias econômicas como aquelas fundamentais da produção e reprodução do ser social, em razão da prioridade ontológica na totalidade do ser. Marx (2010, p. 79/80) nos esclarece:
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12 – A perspectiva da atividade humana criativa como fundamento para a formação humana, ainda que limitada ao âmbito ideal, será de fundamental importância para a concepção marxista do trabalho, que, antes de