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A busca da formação de uma identidade nacional, como já se viu anteriormente, está relacionada diretamente ao que se denomina de “Ideologia do Branqueamento” e ao “Mito da Democracia Racial”. Ambas, ideologias, forjadas no final do século XIX e início do século XX, e que têm influência, ainda hoje, na sociedade, pois, influenciam as relações étnico-raciais. Em outras palavras atingem a relação entre negros e brancos, atingindo principalmente na aceitação ou não do seu pertencimento racial da parte dos negros.

É importante destacar que, no final do século XIX, trocava-se a mão-de-obra escrava pelo trabalho livre assalariado do imigrante europeu. Desta forma, criava-se clima que acirravam as idéias e manifestações racistas.

No século XIX, enquanto a escravidão estava em vias de ser abolida no continente americano, a ciência veio para validar a dominação racial, ao propor que caucasóides eram superiores às pessoas não brancas, em especial aos africanos. Antes disso, a raça servia para descrever a origem do individuo, não hierarquia de tipos biológicos. A subjugação dos índios e africanos deu-se mais por justificativas religiosas e morais do que por argumentos científicos. O estudo sobre raça no Brasil iniciou-se no final do século XIX, enquanto se dava o processo de abolição da escravatura, e havia por isso uma preocupação crescente com o efeito da raça no desenvolvimento futuro do Brasil. (TELLES, 2003, p.43).

A busca pela afirmação das ideologias que discutidas nestes capítulos, visava efetivar o que historicamente havia sido feito desde o início da chegada dos primeiros escravos no Brasil, colocar negros e indígenas à margem da sociedade.

Ao se extinguir a escravidão de africanos e afro-brasileiros no Brasil, as classes detentoras do poder procuraram se sustentar em novas ideologias, as quais conduziram a que os ex-escravizados à situação que narra Nogueira:

Embora juridicamente capazes de ocupar um espaço na sociedade, os negros eram, de fato, dela excluídos e impedidos de desfrutarem de qualquer benefício social, foram marginalizados, estigmatizados, marcados pela cor que os diferenciava e discriminados por tudo quanto essa marca pudesse representar. (NOGUEIRA, 1998, p.3)

Com a abolição legal da escravatura, os estudos de Lopes (1987), (Bento (2002), Santos. G (2002), Oliveira (2001) entre outros, nos têm revelado que, a mão-de-obra do negro foi substituída pela mão-de-obra branca do imigrante europeu, vindo para o Brasil, com o propósito da classe dominante da época, inclusive de embranquecer a população brasileira, pois, até então, a maioria dessa população era constituída de negros.

A libertação da escravatura não significou para o negro, ingresso na classe trabalhadora: ao contrário, tal processo foi vivenciado como um abandono: abandonado pelos senhores, ele se tornava um peso, um excedente na estrutura social” e ainda mais “O negro, contrariamente ao imigrante, que fez uma escolha de buscar uma nova oportunidade de trabalho, a fim de prosperar numa terra distante, foi capturado, aprisionado, estrategicamente animalizado pelo traficante que o colocava em condições de perda de identidade. (NOGUEIRA, 1998, p.31).

Os grupos que estavam no poder no Brasil, no final do século XIX, acreditavam ser necessário embranquecer o país para este ser visto com bons olhos pela comunidade internacional, a qual vivia e, ainda hoje, vive sob uma perspectiva européia de sociedade. Sabe-se que a ideologia do branqueamento foi implementada antes mesmo do término oficial da escravidão brasileira, o que fica explícito com o incentivo da vinda de imigrantes europeus para o Brasil, como mostram os dados apresentados em trabalho de Bento:

Entre 1871 e 1920, ingressaram no Brasil cerca de 3.400.000 europeus, dos quais pelo menos 1.300.000 italianos, 900.000 portugueses e 500.000 espanhóis, dentre outros. Importante observar que num período de meio

século, o Brasil recebeu um número de imigrantes muito próximo ao número de escravos que aqui desembarcou em três séculos e meio. (BENTO, 2002, p.51).

Nesse contexto é possível perceber que o propósito de branqueamento da população brasileira demonstrava uma atitude discriminatória e preconceituosa em relação ao africano e afro-brasileiro. Essas ideologias que se fortaleceram há mais de um século atrás, tem seus efeitos no cotidiano da sociedade brasileira. Portanto faço denúncia sobre a atual situação da população negra na atualidade, destacando um fato ocorrido há dois anos atrás.

Um rapaz negro de classe média, dentista, foi morto no dia três de fevereiro do ano de 2004, em Santana, na zona norte de São Paulo, por sete policiais militares que o confundiram com um ladrão negro que teria assaltado um comerciante naquela região, por onde esse passava. Sendo ele o negro mais próximo no momento, acabou sendo apontado pela vítima do assalto como o praticante do crime e, o rapaz foi morto sem ter chance de se defender pelos policiais, e o comerciante ao perceber que havia cometido um engano e confundido o rapaz, acabou sendo coagido pelos policiais a reconhecer o jovem de vinte e oito anos como o suposto criminoso, o que foi relatado no boletim de ocorrência na delegacia.

O caso foi esclarecido quando o comerciante resolveu voltar à delegacia e contar toda a verdade, que havia sido coagido pelos policiais a colaborar com eles os quais, ainda, forjaram a existência de provas que incriminasse o rapaz por eles assassinado. (Folha de São Paulo fevereiro de 2004). Felizmente essa farsa veio à tona, ficando explícito, nesse fato, as discriminações que sofrem os negros, não somente na relação com a polícia que os trata diferentemente, mas também ao preconceito que emerge da sociedade civil, contra negros.

Ainda cabe registrar a experiência recente do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim B. Barbosa Gomes, que foi barrado na entrada do (STF)7, devido a cor de

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sua pele. Tal fato mostra que no dia-a-dia, mesmo as pessoas negras que atingiram status na sociedade, sofrem discriminação-racial. Convive-se, com notícias relacionadas a essa questão, diariamente, mostrando que não basta o negro ascender socialmente para superação do racismo, discriminação e preconceito racial.

Como se vê, é necessário discutir as relações étnico-raciais, haja visto que grande parte das pessoas não se preocupam com essa questão, pois a consideram de menor importância. Valorizam apenas as questões econômicas como fator que estaria influenciando na condição de vida das pessoas negras. Toma-se como exemplo, as pessoas contrárias a ações afirmativas quando reduzem à explicação da exclusão social a questão econômica e ao conflito das classes sociais.

Os que fazem a historiografia e têm posturas racistas pretendem que os negros aceitem a idéia de que o problema da exclusão que vivem é social. E no ensino de História tenta-se provar, alegando que são pobres, mas não analisam quais formas e as relações que os puseram nas condições de pobreza, e porque mesmo aqueles que conseguem romper com isso, continuam sofrendo discriminações em virtude da cor.

Sabe-se da importância dos estudos econômicos, pois estes podem revelar por meio do perfil salarial entre negros e brancos, o racismo nas relações de emprego. No que tange à exclusão étnico-racial, essa perspectiva econômica é insuficiente para explicar. É necessário avançar além das condições econômicas, para romper com a discriminação- racial, o preconceito e o racismo, que influenciam na aceitação ou não do pertencimento racial negro pelos afro-descendentes. Neste trabalho busco compreender como se dá em meio às teias ideológicas construídas historicamente, muitas vezes, fortalecidas sob a base de questões econômicas, que visam deturpar a realidade da discriminação e do preconceito racial no Brasil.

O mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento são as bases para sustentação de relações de superioridade e inferioridade, desenvolvidas ao longo da História com o propósito de afirmar inferioridade de africanos e afro-descendentes, que

podem vir a acatar o sentimento de inferioridade e conseqüentemente não assumir publicamente seu pertencimento racial.

O problema, no Brasil, é sim de preconceito racial, discriminação e racismo, os quais foram sedimentados ao longo da nossa História e que ficam explícitos quando aprofundam-se na sutileza e destreza das ideologias que permeiam a sociedade e que são fortalecidas por meio de uma educação e de um ensino de História enviesado, que afirma harmonia, em meio a uma verdadeira contradição que atinge violentamente negros e não negros no Brasil.

Toda essa situação é mantida por políticas que visavam e, ainda, visam, única e exclusivamente, manter os interesses das classes que estão no poder, como fez a classe dominante brasileira quando procurou a eliminação dos negros, vistos por eles como inferiores. Fato que não limitou-se apenas as pessoas negras, mas também aos documentos que tratavam da escravidão, os quais foram queimados no período pós- escravidão, visando apagar as marcas e efeitos desta, na sociedade.

Foi utilizado como suporte cientifico para o mito da democracia racial o trabalho de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala (1933), afirma que a escravidão não teria sido prejudicial nas relações entre negros e brancos no Brasil, tanto nas existentes no período escravocrata como após a abolição legal da escravatura, buscando, com isso, constituir uma identidade nacional, reafirmada na mestiçagem e na harmoniosa relação entre brancos e negros. Assim, como se vê em: Schwarcz (1993).

Essa visão, de que se vive harmoniosamente sem problemas que perpassem pelo racismo, preconceito e discriminação racial, não é real, pois, as falas dos alunos em textos produzidos em aulas de História e resultados de pesquisas realizadas sobre essas questões contradizem quem mantém a posição de que vive-se em um paraíso racial. Veja que:

Os círculos dominantes da sociedade brasileira sempre proclamaram a inexistência do racismo e do preconceito na sociedade brasileira. Em termos oficiais há um grande esforço em provar que o Brasil é uma “democracia

racial”, por alguns intelectuais, o preconceito é de classe e não de raça, pois

a medida que o indivíduo, dentro de um continuum de cor, vai se aproximando do branco atenuam-se as formas de barragens que se erguem contra o seu caminhar social. (LOPES. A 1995, p.62).

É em busca das questões que perpassam o sentimento do pertencimento racial, que vai ficando evidente, no transcorrer desse trabalho, que a ideologia do branqueamento e o mito da democracia racial estão diretamente relacionados ao sentimento de inferioridade introjetado no negro e de superioridade nos não negros.

Sendo professor de História, indagando sobre o ensino dessa disciplina e o objeto dessa área de conhecimento, penso ser fundamental, dizer ter sido o mito da democracia racial, tecido por antropólogos e historiadores, que forjaram uma harmonia inexistente nas relações raciais entre negros, indígenas e brancos na sociedade brasileira, e que, infelizmente, não tem sido combatido na escola e, sim, mantido. Desta forma-se utiliza a educação como sustentação de interesses que não são os mesmos dos grupos excluídos.

Segundo Bordieu & Passeron (1982, P. 206-207) A escola não inculca unicamente valores e modos de pensamentos dominantes, como também reproduz os privilégios já existentes na sociedade, privilegiando os já privilegiados. A escola se limita a confirmar e reforçar o “habitus” de classe, ou seja:...uma formação durável e transportável, isto é, um conjunto de esquemas comuns de pensamentos, de percepção, de apreciação e de ação.

O que a escola tem reproduzido, evidencia-se em minhas observações feitas, ao longo de minha vivência social, familiar e escolar, enquanto negro, estudante, e, hoje, professor de História e pesquisador, pois tenho refletido muito diante dessas observações relacionadas ao padrão tido como ideal pela sociedade, sustentado, entre outros por “piadinhas” preconceituosas direcionadas ao povo negro e a banalização da religiosidade oriunda dos negros africanos e afro-brasileiros.

Parece-me óbvio, que as ideologias do branqueamento e do mito da democracia racial, ainda alicerçam e justificam, em meio a outras ideologias, que atravessam o universo do povo negro e não negro, fazendo com que todos acreditem que o negro não

tem História, enquanto africano e afro-brasileiro no Brasil. Ocorre, no entanto, a importância da superação dessas ideologias que prejudicam o sentimento de pertencimento racial positivo para os negros, pois estes têm prejudicado sua auto-estima e identidade por não se sentirem agentes históricos, sentimento este que deve acontecer entre negros e brancos já que todos fazem, pertencem a História.

REFERÊNCIAS TEÓRICAS II