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Na academia, não raro encontramos posições que consideram Marx um economicista, determinista, que buscou explicar a sociedade com base em um único fator ou em uma causa, que desprezou a cultura, a subjetividade, a mulher, e que afirmara que caminharíamos necessariamente para o socialismo. Para esses intérpretes, o pensador em questão não passa de um autor simplório e autoritário que deve ser combatido. Paulo Netto (2009, p. 669) apresenta alguns equívocos que decorrem das interpretações que deformaram, adulteraram e/ou falsificaram a concepção teórico-metodológica de Marx:

No campo marxista, muitas das deformações tiveram por base as influências positivistas, dominantes nas elaborações dos principais pensadores (Plekhanov, Kautsky) da Segunda Internacional, organização socialista fundada em 1889 e de grande importância até 1914.

Os equívocos, no entanto, não se restringem aos apontados. Conforme salienta Paulo Netto (2009, p. 669):

Essas influências não foram superadas – antes se viram agravadas, inclusive com incidências neopositivistas – no desenvolvimento ideológico ulterior da Terceira Internacional (organização comunista que existiu entre 1919 e 1943), culminando na ideologia stalinista.

O segundo equívoco é que, “no registro dos manuais, Marx aparece geralmente como um teórico fatorialista – ele teria sido aquele que, na análise da história e da sociedade, situou o ‘fator econômico’ como determinante em relação aos ‘fatores’ sociais, culturais etc.” (PAULO

NETTO, 2009, p. 670). O autor destaca que Engels, em carta de setembro de 1890, já advertira contra essa deformação, recordando que Marx e ele sustentavam tão somente a tese segundo a qual a produção e a reprodução da vida real apenas em última instância determinavam a história:

Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais que isto. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante, converte àquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda. (ENGELS apud PAULO NETTO, 2009, p. 670)

O terceiro equívoco é concernente às posturas dos adversários teóricos de Marx, que buscaram creditar a sua teoria às explicações “monocausalistas” dos processos sociais, isto é, explicações que pretendiam esclarecer tudo a partir de uma única causa ou fator. Paulo Netto (2009) adverte que a crítica é inteiramente inepta se referida a Marx, que jamais recorreu a essas explicações:

[...] uma vez que, como realçou um de seus melhores estudiosos, “é o ponto de vista da totalidade e não a predominância das causas econômicas na explicação da história que distingue de forma decisiva o marxismo da ciência burguesa”. (LUKÁCS apud PAULO NETTO, 2009, p. 670)

Nas palavras de Lukács (1923 apud GOLDMANN, 1979, p. 49):

Não é a predominância dos motivos econômicos na explicação da história que distingue de modo terminante o marxismo da ciência burguesa; é o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, a predominância universal e determinante do todo sobre as partes constitui a própria essência do método que Marx emprestou de Hegel e transformou de maneira a fazê-lo a fundamentação original de uma ciência inteiramente nova [...] A predominância da categoria da totalidade é o suporte do princípio revolucionário na ciência.

Paulo Netto (2009) entende que, na atualidade, a crítica à teoria de Marx se concentra especialmente sobre dois eixos temáticos. O primeiro é alusivo a uma suposta irrelevância das dimensões culturais e simbólicas no universo teórico de Marx, com todas as consequências daí derivadas para a sua perspectiva metodológica. A esse respeito, Paulo Netto (2009, p. 671) observa que, “apesar de amplamente difundida em meios acadêmicos, trata-se de crítica absolutamente despropositada, facilmente refutável com o recurso à textualidade marxiana [...]”. O segundo eixo se relaciona a um pretenso “determinismo” no pensamento marxiano. Para esses críticos, a teoria social de Marx estaria comprometida por uma teleologia evolucionista, na qual uma dinâmica qualquer, seja ela econômica, tecnológica etc., dirigiria necessária e compulsoriamente a história para um fim já previsto, o socialismo. A nosso ver, a improcedência desse argumento se revela na síntese de Rosa Luxemburgo (apud

MÉSZÁROS, 2003, p. 107), seguindo os passos de Marx, ao se reportar ao dilema a ser enfrentado pela humanidade: socialismo ou barbárie.

Quando Marx formulou sua primeira versão dessa idéia, ele a situou no último horizonte histórico das contradições em evolução. Conforme sua visão, num futuro indeterminado os indivíduos seriam forçados a enfrentar o imperativo de fazer as escolhas certas com relação a ordem social a ser adotada, de forma a salvar a própria existência. (MÉSZÁROS, 2003, p. 107)

Significa que, já a essa época, Marx sinalizava para o potencial destrutivo do capitalismo, indicando que a sobrevivência dos homens5 no planeta dependeria de sua

capacidade de tomar as decisões certas em momentos decisivos por um projeto social radicalmente alternativo. Aqui, não há lugar para um Marx evolucionista em que o socialismo encontraria os homens à sua espera; ao contrário, a história para esse pensador se afetiva no campo das possibilidades, onde batalhas são travadas por classes, e que tanto podem culminar com “[...] uma transformação revolucionária de toda sociedade, ou pela destruição das duas classes em luta” (MARX; ENGELS, 1993, p. 76). A última frase6, da polêmica análise da luta

de classes, iniciada ainda no Manifesto comunista, tem sido pouco observada por seus críticos. Ela revela que, para Marx, o desfecho desse grande conflito é aberto, e na contemporaneidade se mostra dramático para a humanidade:

Se eu tivesse de modificar as palavras dramáticas de Rosa Luxemburgo com relação aos novos perigos que nos esperam, acrescentaria a “socialismo ou barbárie” a frase “barbárie se tivermos sorte” – no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso de desenvolvimento destrutivo do capital [...]. Por isso, o século à nossa frente deverá ser o século do “socialismo ou barbárie”. (MÉSZÁROS, 2003, p. 108-109)

Advertida pelo pensador húngaro sobre os desafios que temos, essa breve referência aos equívocos atinentes ao pensamento marxiano cumpre a finalidade tanto de explicitar o Marx com o qual trabalhamos, verificável em seus textos – um Marx que em pouco tem a ver com o que, em geral, se diz e se ouve falar dele –, como também evidenciar as principais deformações e falsificações de que as teses desse autor têm sido alvo ao longo de sua história, com o propósito de contribuir com uma percepção mais clara e objetiva da teoria que nos permite compreender a ordem social em que vivemos. Condição essa imprescindível para a definição de

5 Do mesmo modo que Paulo Netto e Braz (2006, p. 30), no conjunto do trabalho, “quando nos referirmos a

homem e mulher/homens e mulheres, estamos remetendo aos membros do gênero humano, constituído

necessária e concretamente por homens e mulheres”.

6 A frase é um excerto da afirmação inicial sobre o desenvolvimento histórico e a explicitação da luta de classes. Marx e Engels (1993, p. 76) disseram: “Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora aberta, ora disfarçada: uma guerra que sempre terminou ou por uma transformação revolucionária de toda sociedade, ou pela destruição das duas classes em luta”.

um projeto que trabalhe pelas condições políticas e culturais/teóricas e educacionais de sua superação.

O trato teórico da pesquisa, a investigação, portanto, realizar-se-á7 à luz dos objetivos

definidos, e pelas categorias gerais da teoria do ser social8 de Marx; dos estudos de pensadores

que procuraram explicitar a teoria do conhecimento em Marx, tais como Lefebvre (1975) com a

lógica formal e lógica dialética, Kosik (1995) com a dialética do concreto e Sánchez Vázquez

(1990) com a filosofia da práxis, com destaque para aqueles autores que na ciência da educação, pedagogia, e na teoria do ensino, didática, expressam uma concepção materialista histórico- dialética na compreensão da problemática educacional.

Antes de ingressarmos no entendimento do que vem a ser o método dialético, destacamos ainda a preocupação com um entendimento muito comum que atribui correspondência entre posições fechadas e sectárias ao conceito de ortodoxia.

Paulo Netto (1992), ao discutir marxismo e questões de método nas ciências sociais, esclarece que, em matéria de marxismo, ser ortodoxo não significa adesão acrítica aos resultados da pesquisa de Marx, nem fé nas teses desse pensador ou a exegese de um texto sagrado. Para o autor, a ortodoxia em matéria de marxismo

[...] refere-se, ao contrário e exclusivamente, ao método. Ela implica a convicção científica de que, com o marxismo dialético, encontrou-se o método correto de investigação e de que o método só pode ser desenvolvido, aperfeiçoado e aprofundado no sentido indicado por seus fundadores; [...] implica na convicção de que todas as tentativas de “superar” ou “melhorar” este método conduziram – e necessariamente deveriam fazê-lo – à sua trivialização, transformando-o num ecletismo. (PAULO NETTO, 1992,

p. 60)

Ortodoxia, na teoria marxiana, significa fidelidade aos princípios fundamentais dessa teoria – que em nada tem a ver com posturas absolutistas, fechadas, assim como idealistas, ingênuas e relativistas-imobilistas – , pois o homem, a sociedade, a ciência, o conhecimento são social e historicamente construídos no movimento incessante, contraditório, mediado e objetivo

do real. A postura de Paulo Netto (1992), o marxismo praticado por ele, assim como observa

Coutinho (2004), recusa o ecletismo e a fácil capitulação aos modismos intelectuais, mas evita igualmente o dogmatismo. Trata-se de um marxismo criador, aberto ao novo, situado na melhor

7 Observamos: “tem como propósito realizar-se”, pois sabemos que não é suficiente afirmar que realizaremos a pesquisa a luz de determinado referêncial teórico. As opções, os caminhos trilhados, os resultados é que indicarão se há ou não correspondência com o método proclamado.

8 Expressão usada por Lukács (1979), na obra Ontologia do ser social – os princípios ontológicos fundamentais de Marx, para nomear a teoria de Marx.

tradição da dialética materialista, e é com esse sentido do método que procuraremos apreender neste estudo.

Com o propósito de aprofundarmos nossa compreensão sobre os modos de lidar com o referencial marxista, localizamos também, nos estudos de Saviani (2010a)9, um

encaminhamento que lança luzes sobre o correto entendimento do sentido de ortodoxia. O autor apresenta o modo distinto de lidar do estudioso filósofo marxista Antonio Gramsci e da Escola de Frankfurt em face do fracasso das revoluções no ocidente, partindo do mesmo ponto, o marxismo.

Portanto, o problema que mobiliza a teorização de Gramsci e da “Escola de Frankfurt” é o mesmo: o fracasso das tentativas de revolução no ocidente. E a perspectiva de análise da qual partem, também é a mesma: o marxismo. No entanto, o modo como se posicionam diante dessa perspectiva teórica é distinto. Enquanto Gramsci se posiciona, como ele mesmo dizia, em termos ortodoxos, eu diria que os membros da “Escola de Frankfurt” adotam uma postura heterodoxa. (SAVIANI, 2010a, p. 10)

Aqui Saviani nos coloca a questão da postura diante do método marxiano, qual seja, a de que podemos nos posicionar de modo ortodoxo ou heterodoxo. Na visão do pensador marxista, Gramsci opera em termos teóricos de modo ortodoxo, enquanto os frankfurtianos, de modo heterodoxo. Mas o que significam essas denominações em termos de marxismo? Retomamos as palavras de Saviani (2010a, p. 10) para compreendê-las:

Gramsci toma o marxismo em termos ortodoxos, isto é, ele entende que a “filosofia da práxis” é uma filosofia integral, uma teoria completa que dispõe de todos os elementos necessários para dar conta dos problemas enfrentados. Não necessita, pois, de muletas, quer dizer, não precisa ser complementada por outras teorias. Inversamente, os teóricos da “Escola de Frankfurt” consideraram o marxismo como a referência básica, mas não suficiente, entendendo que ele deveria ser complementado por outras teorias, fundamentalmente pela sociologia empírica e pela psicanálise.

A teoria de Marx, entendida como a filosofia da práxis, é na visão da Gramsci uma filosofia completa, pois reúne e sintetiza as mais expressivas conquistas teórico-culturais da tradição filosófica do ocidente. Mas qual é o sentido de ortodoxia posta por Saviani? Na esteira dos clássicos do pensamento marxiano e explicitando a posição do marxista italiano, destaca que a “leitura que ele faz de Marx é uma leitura ortodoxa, isto é, fiel ao espírito da teoria original. Mas acrescenta que não se trata de uma ortodoxia à moda religiosa que estiola

9 Trata-se da conferência proferida em 18 de agosto de 2010, na FE-Unicamp, “A recepção de Gramsci na educação brasileira e a importância da ortodoxia metodológica” (SAVIANI, 2010a).

a doutrina enrijecendo-a e tornando-a impermeável às transformações históricas” (SAVIANI, 2010a, p. 11), muito ao contrário, de acordo com o seu modo de ver,

[...] não se trata, obviamente, de criticar as interpretações e as experiências apontando-se os seus desvios tendo em vista a manutenção de uma relação dogmática com o autor principal, no caso, Marx. Ou seja, não se trata de tomar as contribuições de Marx como verdades acabadas e incontestes, isto é, como dogmas. Aliás, o próprio Marx, assim como o seu colaborador Engels, tinham consciência dos limites de suas análises, como explicita enfaticamente Engels em 1895 na Introdução a uma nova edição do texto de Marx “As lutas de classe na França de 1848 a 1850”. (SAVIANI, 2010a, p. 11)

Assim, na teoria de Marx, não há lugar para posturas dogmáticas ou céticas, uma vez que a correção de nossos pensamentos só consegue ser evidenciada na práxis, que todos os conflitos que o ser humano é forçado a dominar no âmbito da produção do conhecimento sempre repousam, primariamente, em contradições da prática social, na respectiva vida, e ali desembocam.

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