Moreira (2001), Santos (2004), Orlandi (2006) e Reis (2009) destacaram importantes aspectos relacionados à sexualidade a partir dos resultados apresentados.
De acordo com Santos (2004), a sexualidade não é algo natural e subordinado à vontade dos sujeitos, mas sim um importante mediador social dependente da sociedade e do momento histórico no qual os sujeitos estão inseridos. Santos (2004, p. 141–142) ainda afirmou que, para os adolescentes investigados,
Tornar pública a orientação sexual homossexual é um processo que não se esgota no “assumir”, mas é um ato cotidiano de auto-afirmação de sua identidade sexual. [...] Pode-se afirmar que tornar pública a orientação sexual é, para eles, um fator de integração e aceitação de seus “eus”.
Em sua investigação acerca da maternidade e da paternidade na adolescência, Moreira (2001), Orlandi (2006) e Reis (2009) destacaram que esses fatos não podem ser reduzidos a um único significado, o de problema, o que demonstra que a maternidade/paternidade adolescente ainda está carregada de discursos moralistas, desconsiderando o adolescente como sujeito que possui autonomia. Para as autoras, a maternidade e a paternidade adolescente têm múltiplas significações.
Para as mulheres16 entrevistadas por Moreira (2001), os significados
cristalizados na gravidez na adolescência como “problema” foram reinterpretados a partir do cotidiano, de forma que novas significações foram produzidas e novas formas de lidar com o fato foram inventadas e transmitidas por meio das gerações. A
16 Moreira (2001) analisou, em seu estudo, as significações para a gravidez na adolescência
construídas através das gerações, ou seja, as marcas geracionais entre bisavós, jovens avós e mães adolescentes no que diz respeito à gravidez na adolescência. Por isso, usou o termo mulheres em vez de adolescentes.
pesquisadora relatou que todas as participantes consideraram que a gravidez na adolescência trouxe dificuldades de muitas ordens, mas também enfatizaram a existência de aspectos positivos, como o fato de poder contar com uma rede de apoio familiar, exercida, sobretudo, pelas jovens avós.
Reis (2009), que também investigou a gravidez na adolescência, concluiu, com base nos relatos das adolescentes, que a educação sexual recebida evidenciou a ineficácia dos recursos utilizados na educação formal e familiar. A autora ainda alertou que os aspectos psicossociais que envolvem a gravidez na adolescência, bem como as justificativas para a sua ocorrência, relacionam-se aos aspectos emocionais e sociais, pois
[...] A gravidez na adolescência repercute diferentes valores, normas e expectativas que acabam por influenciar diretamente as vivências humanas; reflete, portanto, a concepção geral de sexualidade, isto é, um fenômeno complexo e plural, que envolve as relações sociais e culturais, que tem muito ainda a ser refletido e discutido (REIS, 2009, p. 165).
Orlandi (2006), que investigou os sentidos atribuídos por adolescentes pais à paternidade e às práticas de cuidados dos filhos, ressaltou, assim como na gravidez na adolescência, a questão do entendimento da paternidade na adolescência como um transtorno, um desvio do projeto de vida do adolescente. Outro dado importante a ser destacado, de acordo com a autora, diz respeito ao fato de que os oito participantes já haviam, em um momento anterior à gestação das parceiras, vislumbrado a paternidade.
Um aspecto relevante apontado por Orlandi (2006), em suas conclusões, está vinculado à identificação de significados atrelados ao cuidado e à paternidade que circulam no discurso familiar e engendram as significações por eles produzidas referentes à paternidade. Dessa maneira, foi constatado que alguns sujeitos abordaram a relação de cuidados com os filhos comparando-a diretamente com a estabelecida pela sua família de origem consigo próprio. A família de origem de cada pai adolescente representa um importante aspecto no delineamento do exercício da paternidade.
Orlandi (2006) identificou, também, o processo de reinvenção do exercício da paternidade por meio do compromisso de buscar fazer “tudo” pelo filho e/ou de exercer a paternidade de maneira diferenciada de seus pais.
A maior parte dos sujeitos considerou que cabe tanto à mãe quanto ao pai esta tarefa e todos declararam o intuito de não se valer da violência com fins didáticos. Deste modo, mesmo que em um plano idealizado, superaram o padrão de estabelecimento de regras e limites da família de origem, em alguns casos, pautado pelo emprego sistemático de violência, bem como pela atribuição de autoridade legítima às figuras masculinas (ORLANDI, 2006, p. 128–129).
No depoimento de cada um dos participantes, quando se referiram à relação de cuidados que estabeleceram ou pretendem estabelecer com seus filhos, chamou a atenção da pesquisadora o modo como foi empregado o verbo “ajudar”. Os adolescentes pais declararam sua disponibilidade para a realização dos cuidados demandados por seus filhos; entretanto, a ênfase estava em localizar o pai como um coadjuvante, competindo a ele auxiliar a companheira no cuidado dos filhos, pois a mãe seria a maior responsável pela criação deles. A autora também concluiu que a maior parte dos adolescentes pais participantes da pesquisa explicitou o projeto de viver com a companheira uma relação igualitária no que se refere à divisão das tarefas domésticas e no cuidado dos filhos, incluindo o incentivo à escolarização e à inserção dela no mundo do trabalho. Destaca-se, ainda, a partir desse estudo, a ênfase dada pela pesquisadora à paternidade adolescente:
Assim como no mundo adulto, a paternidade na adolescência pode ser significada de maneiras diversas, podendo ser desejada ou indesejada, planejada ou não planejada, satisfatória, desagradável, emancipadora... Sendo assim, não cabe aos pesquisadores culpabilizá-la, nem enaltecê-la, fazendo-se necessário situá-la nos diversos contextos sociais nos quais se dá, considerando-se, em última instância, a singularidade dos sentidos atribuídos por cada um dos sujeitos que a vivencia (ORLANDI, 2006, p. 133).
Ao investigar a sexualidade adolescente, os autores referenciados deixaram muito claro em suas conclusões que a sexualidade se constitui como dimensão social e cultural na vida do indivíduo, e que cada um irá ressignificá-la de acordo com o contexto no qual estiver inserido, em uma relação dinâmica entre as subjetividades e o mundo social.