Está claro dentro das perspectivas históricas contemporâneas que não existe “a ortodoxia” (pura, etérea, etc). O que existe são pretensas-ortodoxias - conforme alinhavamos e estendemos pelo olhar de Comblin (1968, p. 48):
(...) o catolicismo oficial, definido pela teologia e pelo direito canônico, nunca existiu. Existem sistemas concretos, constituídos por uma certa impregnação cristã de várias civilizações. Mas o cristianismo puro, oficial, não existe. Nem os próprios clérigos o vivem. A diferença entre o catolicismo dos clérigos e o catolicismo popular consiste apenas nisto, que os clérigos imaginam que o seu cristianismo é puro e o único verdadeiramente autêntico, e os outros não têm problemática de ortodoxia, nem autenticidade.
De fato, o oficial só existe, se é que existe, intra murus católico. Mesmo assim, temeroso seria afirmar uma ortodoxia. E esta fragilidade no modo de plasmar a existência de uma ortodoxia católica é observada dentro da disposição contrária manifesta pelo próprio clero.
Quando o cardeal Ratzinger foi eleito prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé os críticos lamentavam que ele usasse a sua teologia como se fosse a fé da Igreja (NICHOLS, 1987, p. 43).
O teólogo católico Leonardo Boff se posicionou contrário ao pronunciamento interpretativo da Declaração Dominus Jesus. Na querela, em certo ponto, o teólogo acentua a discussão entorno do termo subsiste. Sem querer entrar nos pormenores, Boff empareda a interpretação do mandatário oficial da Congregação para a Doutrina da Fé acusando-o de subverter o Concílio Vaticano II. Eis o trecho:
Eis os termos da controvérsia. Cabe agora perguntar: Essa interpretação do Card. J. Ratzinger,de fato, corresponde à verdade histórica do Concílio ou é a receptio que ele faz, por sua conta, dentro de um certo tipo de compreensão da natureza da Igreja que pessoalmente possui? Aqui urge tirar a limpo a verdade histórica, expressa por um Concílio ecumênico, cuja autoridade está acima da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé e de seu eventual Prefeito. Este, na pessoa do Card. J. Ratzinger, deve ater-se à mens Patrum Concilii como qualquer outro fiel e teólogo. Qual é, de fato, essa mens Patrum (BOFF, 2005,p. 16).
Ora, o cardeal, hoje papa, se dizia, assim como hoje é tido oficialmente, como guardião da ortodoxia católica. No entanto esta ortodoxia é contestada por outros setores da Igreja.
O mesmo problema se deu com o arcebispo emérito de Econe, Marcel Lefebvre (1905-1991) que contestou a autoridade dos atuais pontífices advindos das reformas do Vaticano II (Cf. AQUINO, 2010). O epíscopo dizia ser ele mesmo um santo Atanásio dos tempos modernos. Defensor da sã doutrina ortodoxa vilipendiada pelas reformas dos atuais papas em estado de heresia. Como se percebe, a noção de ortodoxia no universo clerical católico deixa a desejar, é algo, deveras, incerto127.
Sobre esta incerteza o filósofo Jean Guitton comentou o que um dia o papa Paulo VI lhe falara - em entrevista a Stefano M. Paci:
O que me impressiona, a considerar o mundo católico – disse-me – é que às vezes parece predominante dentro do catolicismo um
127
É certo que os clérigos desejam uma ortodoxia, mas há uma diferença mais do que considerável entre o desejo e a realidade. Uma carta pastoral de um bispo conservador expressa bem este descompasso entre o desejo e a realidade. Diz o bispo: “Havemos de iluminar as inteligências com o catecismo, em primeiro lugar. Mas à medida que a inteligência desabrocha e os problemas da vida se vão apresentando, solicitando uma atitude pessoal, havemos de transmitir a nossos adolescentes e a nossos homens a doutrina católica total, de sorte que nossos fiéis pensem de tudo como pensa a Igreja ...(SIGAUD, 1947, p. 41)”.
pensamento do tipo não católico, mas este nunca representaria o pensamento da Igreja. Um pequeno rebanho é preciso existir, mesmo que seja pequeno (GUITTON; PACI,1987, P. 63).
Tudo isto é manifestação frágil da (in)existência de uma ortodoxia. Restringindo, portanto, a noção de ortodoxia, ao pensar consciencioso de cada facção dentro da própria Igreja. Por estes dados obtemperamos: não existe ortodoxia, mas pretensas-ortodoxias. E aqueles que falam que o cordel, em sua dinâmica religiosa, pensa em conformidade com o pensar da ortodoxia católica comete grave erro de cálculo e de conhecimento.
Sobretudo, o dito acima tem valor pelo tratamento dado pelo clero ao pensar popular no tangente à religião. Ora, a própria hierarquia da Igreja, desde a primeira metade do século XX, não reconheceu nesta nenhum traço de “verdade” condizente com os ensinamentos promulgados pela “sã doutrina apostólica, conforme apregoa in catedra o Cardeal Augusto Álvaro da Silva (então primaz da Bahia) sobre o que ele chamava de catolicismo brasileiro:
Praticam atos de aparente devoção e piedade, mas somente enquanto os façam parecer religiosos: dizem palavras bonitas a respeito de Deus, da Igreja, dos mistérios e coisas sagradas; fazem cortesias amáveis aos pastores e ministros da Igreja, dão-se a práticas religiosas exteriores, como ‘vivas’ à religião, discursos laudatórios, exibição de oratórios domésticos, com imagens de vulto; possuem diplomas de mais de uma ordem terceira e insígnias de associação de piedade etc. É quanto lhe basta para se pronunciarem e dizerem ‘muito católicos’, apostólicos, romanos. O essencial da religião, porém, não lhes permite o superficialismo sentir (HOORNAERT, 1969, p.580)
Foi uma religiosidade marcante e presente desde o processo de colonização no Brasil e, posteriormente, renegada pela elite clerical, uma vez, como recorda Maria Isaura Queiroz (1983, p 85): “O termo ‘popular’, por exemplo, é ambíguo; designa o que pertence ‘a maioria dos homens’ , porém também é muito utilizado no sentido daquilo ‘que pertence aos estratos inferiores da população’ , e é envolvido então com conotações desfavoráveis”.
Zaluar afirma: “No catolicismo popular, quatro categorias eram básicas na organização do seu sistema cosmológico: mal de Deus, castigo divino, promessa e milagre (1980, p.161)”. Cabendo aos agentes que o vivenciam manipular e interpretar estes elementos; fazendo distinções entre males terrenos e provindos do
além, apelando para o divino quando as coisas não recebiam solução por via das negociações humanas, etc. Ora, o catolicismo popular, com a sua religiosidade, é sinal claro da busca do homem em lidar com as coisas que cercam a sua vida: necessidades materiais e espirituais, agregação comunitária e respeito pelo pactuado com os santos, o zelo e o cuidado para com estes... No entanto, houve leituras de cunho marxista que a liam exclusivamente como fator de alienação. Todavia, Pedro Ribeiro de Oliveira contracena esta falácia míope com outra realidade ao mostrar o quanto o catolicismo popular foi combatido pela burguesia agrária:
Acontece que o catolicismo popular era um dos obstáculos à incorporação da massa camponesa ao capitalismo agrário, e para a burguesia agrária era interessante eliminar tal obstáculo. Os movimentos camponeses de protesto social, baseados no catolicismo popular, eram esmagados a ferro e fogo, mas não bastavam reprimi-los: era preciso matá-los pela raiz, suprimindo toda a produção religiosa popular contrária à relações capitalistas de produção (OLIVEIRA, 1980, p. 180).
Ora, o catolicismo popular não afrontava somente a elite agrária, contrapunha também a autoridade eclesiástica, como diz Oliveira (1980):
Para a burguesia agrária, como para os bispos e clérigos, a luta contra o catolicismo popular apresentava-se como uma luta contra a ignorância, o fanatismo, as superstições, as crenças atrasadas, as práticas imorais. O combate parecia, portanto, uma missão educativa a ser desempenhada pelo aparelho religioso, para elevar o nível cultural e religioso das grandes massas populares (p. 181).