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Akustisk kartlegging med sonar

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3.2 Akustisk kartlegging

3.2.6 Akustisk kartlegging med sonar

Em ambos os textos cresce a olhos vistos o domínio consciente do homem sobre o direcionamento da própria vida: apresentam pareceres, discutem e recusam o que não é bom para si, impõem-se frente à realidade, etc.

Comparando com os poemas assonantes, onde os personagens estão sempre à espera da ação divina, estes são identificados pela ousadia de projetar-se

na vida, apostando no que vêem como o melhor para si. Assinalando, assim, a sua maior peculiaridade, a saber: a autonomia.

(...) o termo autonomia é originado, historicamente, no seio da democracia grega para indicar as formas de governo autárquicas, isto é, a pólis; posteriormente, a partir da modernidade, o conceito de autonomia passa a se aplicar ao indivíduo, chegando a uma formulação moral sistemática com a Fundamentação da Metafísica dos Costumes de Immanuel Kant. Mas, apesar de a idéia de autonomia estar centrada no conceito de indivíduo – um necessário "produto" da modernidade burguesa e protestante (SIQUEIRA-BATISTA; SCHARAMM, 2004, 05).

A concepção e a conceituação de autonomia implicam uma dificuldade considerável, visto que muitas áreas refletem sobre o mesmo. Servimo-nos de Maria Ângela Martins (2002) para pensar o sentido de autonomia uma vez que, de todos os textos lidos, este parece ser o que soa mais próximo do que observamos no Cordel – apesar de estar direcionado ao campo escolar:

Autonomia vem do grego e significa autogoverno, governar-se a si próprio. Nesse sentido, uma escola autônoma é aquela que governa a si própria. No âmbito da educação, o debate moderno em torno do tema remonta ao processo dialógico de ensinar contido na filosofia grega, que preconizava a capacidade do educando de buscar resposta às suas próprias perguntas, exercitando, portanto, sua formação autônoma. Ao longo dos séculos, a idéia de uma educação antiautoritária vai, gradativamente, construindo a noção de autonomia dos alunos e da escola, muitas vezes compreendida como autogoverno, autodeterminação, autoformação, autogestão, e constituindo uma forte tendência na área. (p.02)

Maria Lúcia Queiroz Guimarães Hernandes (2008, p. 1) – também da área da educação - entende autonomia como a “(...) capacidade de auto-governo e independência em face da normatização e da tradição; ela desemboca em questões como a liberdade, a participação, sempre impulsionadas pelas pedagogias humanistas”

Cecílio, tratando da autonomia sobre o viés da gestão de empresas, explicita:

A idéia de autonomia remete, numa primeira aproximação, a um plano mais macro, como visão de projeto de sociedade, autonomia da sociedade entendida como poder latente e possibilidade real que a sociedade possui de governar e organizar a si mesma (CECÍLIO, 1999, p. 314).

Governo de si mesmo, capacidade de buscar suas próprias respostas, elaborando suas perguntas, pautando-se na liberdade. São desse molho compreensivo cooptado nos citados autores que vemos uma possível definição do que vem a ser a autonomia na LC.

Ficou claro no tópico sobre a liberdade de expressão que o poeta, ao se contrapor aos poderes vigentes (levantando questionamentos, recusando pareceres, alertando para outras possibilidades interpretativas) mostra que o homem simples (a qual ele representa) tem controle sobre a sua vida – é possuidor de autonomia.

É claro que esta não é desejada pelas instâncias sociais e religiosas superiores, uma vez que elas estão para manter o seu status, a sua vontade de controlar e permanecerem vivas e significativas enquanto instituição122. E é com esta

realidade que o poeta, em sua fina percepção, mostra-se como ávido interlocutor. Não é que ele negue o valor da instituição, mas o que ele não quer é que as instituições o sugue e lhe tire a sua vida. O pensar do poeta está detido exatamente nesta realidade: o reconhecimento da opressão. E esta ele não aceita (e os personagens são provas disto, apesar da individualidade de marca burguesa). No entanto, este é o percurso da vontade de dominar, onde a temática do poder “(...) traz sempre a ideia de consentimento e de obediência. Certo mínimo de vontade de obedecer, isto é, de interesse (externo ou interno), faz parte de toda relação autêntica de dominação (CECÍLIO, 1999, p.319)”. O grande lance é que o consentimento passivo, antes muitas vezes delineado nos poemas assonantes, é refeito em muitos pontos em O Jogador e em O Ferreiro.

A autonomia é um processo que pode se desenvolver na vida de qualquer pessoa. Dissemos “pode” porque não é fato afirmar que ela acontecerá no chão da vida de todos. Uma vez que a mesma possui estágios e não quer dizer que eles serão atingidos plenamente por todos. Para tomar ciência:

O estágio autônomo segue-se aos estágios pré-social e simbiótico, impulsivo, autoprotetor, conformistas, consciencioso e antecede o estágio integrado. A pessoa reconhece a necessidade de tornar-se autor uma e, de certa forma, liberta se das exigências e do senso de responsabilidade que marcam o imediatamente e anterior (consciencioso) nesse momento do desenvolvimento humano (estágio autônomo), aparece uma percepção clara da complexidade e do caráter multifacetado da pessoa e das situações reais, que é

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“Para Amitai Etzioni o êxito de uma organização depende, em grande parte, de sua capacidade para manter o controle dos participantes (CECILIO, 1999, p. 316)”.

acompanhada de maior aceitação e manejo mais adequado dos conflitos internos. As preocupações cognitivas voltam-se para problemas sociais e transcendem a experiência imediata, para a realização pessoal e para o cultivo da individualidade(BERNARDES, 1993, p. 45).

Os assonantes são conscienciosos e os seculares, por sua vez, projetam imagens de autonomia.

Outro dado relevante, fora a autonomia, é o controle do homem sobre o símbolo do mal.

Ora, a Igreja estava acostumada a usar como propriedade sua o sistema simbólico, uma vez que a pacata sociedade de então favorecia este monopólio. Porém, os ares dos novos tempos no Brasil e no mundo, gradativamente rompem com esta instrumentalização do poder simbólico123. Uma vez que as forças

da religião já não conseguem envolver toda a população como outrora fizera em proporções significativas pelo conchavo com o Estado (a ponto de fazer com que, pelo menos aos olhos da maioria, as idéias pudessem ser aceitas sem muitas contestações visíveis – por convenção social). O poder simbólico dos mitos se torna a cada dia mais individualizado, mais mercantilizado também podendo, assim, ser consumido por quem quiser e como quiser. Afinal, a dinâmica da individualidade burguesa confere esta garantia.

Inerente a este controle sobre a própria vida está o controle sobre o Diabo. Antes ele era patrimônio simbólico da Igreja, uma vez que era evocado para dispor a polaridade pensada entre as obras de Deus e de Satanás. E dentro deste limite o diabo era manuseado com fins a garantir a hegemonia da fé.

Os cordéis assonantes trabalham dentro da premissa do controle eclesiástico sobre o patrimônio simbólico acerca do mal124. De outra face é o que manifestam os

poemas de religiosidade secular onde, Satanás, está dentro dos limites do poder do homem. E é esta presença de espírito (que não precisa das forças mediadoras de sacerdotes) que imperiosamente assevera, na boca de Pobreza, o poder do homem sobre o signo do mal:

123 “(...)o grau de obediência ou o envolvimento dos membros de uma organização depende do tipo ou forma de poder empregados. Quanto maior a utilização de recursos simbólicos, como nas organizações normativas, maior o envolvimento ...(CECILIO, 1999, p. 319)”.

124 Perelman (2004) cita dois tipos de argumentos que servem para compor esta análise, a saber: o de direção

(que, como o nome mesmo diz, conduz seguramente o ouvinte) e o de superação (que quebrar com a direção proposta). Ora, no embate com a noção de mal. O poeta aplica este último em detrimento ao primeiro (usual nos meios doutrinais da Igreja a reproduzido na fala de Pobreza).

Agora, responde Diabo: Cadê os poderes teus? Ficarás eternamente Preso nos domínios meus, Como prova que, no mundo, Ninguém vive sem Deus (p. 17)!

É certo que embates entre o homem e o Diabo já era algo pertencente à velha trajetória do imaginário religioso no Brasil, onde sacerdotes (tanto católicos como de origem africana) eram chamados para solucionar os casos relacionados às ações do mal. O fato é que o imaginário nordestino e brasileiro (de modo geral) não secou a fonte de produção sobre as forças do mal. Pelo contrário, à revelia dos cientificistas, elas continuam atuando no psíquico humano. Prova disso é a evocação ao Diabo feita pelos herdeiros do catolicismo popular – os grupos pentecostais e neo- pentecostais125. Mesmo a Igreja Católica, na atualidade, tem voltado a se servir da

presença imagética do Diabo em suas pregações; é o que mostra o trecho de uma entrevista com o exorcista do Vaticano Padre Amorth, quando do momento em que a Santa Sé estava lançada à tradução italiana do Novo Ritual do Exorcismo (em 2001):

(...) O malefício é um mal causado a uma pessoa recorrendo ao diabo. Pode ser feito em diversas formas, como feitiços, maldições, maus-olhados, vodu, macumba. O Ritual Romano explicava como enfrentá-lo. O novo Ritual, ao contrário, afirma categoricamente que há uma proibição absoluta de fazer exorcismos nesses casos. Absurdo. Os malefícios são de longe a causa mais freqüente de possessões e males causados pelo demônio: não menos de 90 por cento. É como dizer aos exorcistas que não ajam mais. O ponto 16 então afirma que não se devem fazer exorcismos se não existe a certeza da presença diabólica. Esta é uma obra-prima de incompetência, pois se tem a certeza da presença do demônio numa

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“A IURD faz uma “composição” com as diversas formas de expressão religiosa brasileira, também em outros contextos Mas há questões que para ela são inegociáveis: ela é a única que tem a oração forte, a única com poder de mudar a situação de sofrimento do indivíduo. Embora não haja exigência de se lhe ter fidelidade única, sendo possível assistir às suas reuniões e freqüentar outros espaços religiosos, seu discurso aponta sempre para o preço da não obediência aos mandamentos de Deus, que significa “fidelidade na freqüência à igreja, na entrega dos dízimos e ofertas e participação nas correntes de sacrifício”. O discurso afirmativo dos outros repertórios de fé serve-lhe para afirmar negativamente, no sentido de mostrar a fraqueza, a ineficácia ou mesmo a demonização desses outros repertórios, reivindicando então, para si, o lugar de mais forte, mais eficaz, mais poderosa sobre as outras, fazendo deboche, inclusive, das entidades e divindades de outras expressões religiosas, demonizando algumas e colocando-se, visivelmente, numa posição desejante do monopólio da fé. Em outras palavras, a cultura religiosa serve-lhe de sustentação, fornecendo-lhe matéria prima religiosa para ser manipulada. E ela opera essa matéria prima com os mesmos critérios de funcionamento capitalista, não apenas “integra” seu discurso e prática ao ideal capitalista contemporâneo, como expressa a mesma voracidade e forma de “pensamento único” próprios da configuração social neoliberal. (ESPERANDIO, 2006, p. 2)”.

pessoa só fazendo o exorcismo. Ademais, os responsáveis não perceberam que contradiziam nos dois pontos o Catecismo da Igreja Católica, que indica o exorcismo seja no caso de possessões diabólicas seja no caso de males causados pelo demônio. E diz também para ser feito tanto com pessoas quanto com coisas. E nas coisas não existe nunca a presença do demônio, existe só a sua influência126.

Há, todavia, uma diferença considerável no tratamento ao Diabo, conforme era e ainda é pensado pelo Código de Direito Canônico (que reserva esta atividade para um sacerdote eleito pelo bispo diocesano), assim como também é pensado pelos poemas assonantes; já nos seculares é o próprio homem que controla o Diabo com a força que, segundo a sua crença foi dada por Deus (reconhecendo este poder em si; situação que jamais seria pensada por uma mente inerente a algum segmento de pretensa-ortodoxia)– é o que vemos em O Ferreiro.

Tu querias me levar Para uma vida de horror, Porém fui favorecido Pelas graças do senhor, Para que saibas, maldito, Que Deus é superior! (p. 16)

Atenção deve ser dada para a teologia da graça que o poeta faz, na qual, sem mediação dos sacramentos da Igreja, o homem se reconhece como portador dos benefícios celestes. Outra estrofe mostra bem este percurso teológico:

Guerreaste contra Deus, Te tornando Satanás- És mensageiro do mal, És inimigo da paz, Porém todo o teu poder Contra Jesus nada faz! (p. 16)

Uma última observação se faz necessária, mesmo que não anunciada anteriormente: da autonomia religiosa perpetrada em muitos textos do Cordel, salta aos nossos olhos, que esta se manifesta no gênero masculino. Neste sentido dá para observar o quanto de permanente a dinâmica patriarcal ainda mantém na forma de produzir as novidades projetadas pelo tempo.

Sobre o perfil de homens e mulheres no cordel, Abreu (2004, p. 207) escreve:

Há caracterização nas heroínas, por exemplo, é quase sempre idêntica: delas, honestas, caridosas, fiéis. Apesar de serem necessariamente bonitas, não será a caracterização física o aspecto mais envolvido; o que interessa, realmente, é o fato de elas serem honestas, firmes, leais, corretas, caridosas. Esses atributos são indissociáveis, constituindo o perfil da heroína-bonita e virtuosa. (...) a descrição dos protagonistas masculinos, embora menos desenvolvidas, é também bastante uniforme: são valentes, honestos, inteligentes, justos e fiéis. Raramente se faz algum homem por sua beleza: quando se trata de homens, o aspecto fundamental é o caráter.

Fazendo com que se note que a cultura nordestina, apesar das novidades impetradas pelo tempo, carrega consigo a voz do “macho” como o senhor daquele espaço. Levando-nos a pensar que, mais forte que a dinâmica da religiosidade (já apresentada por Rolim como inconsistente e por nós como insustentável) é a dinâmica de gênero.

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