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DEL 2. SAMMENFATNING

4   DISKUSJON

Que papel, então, dos novos media na política? Podemos identificar dois ex- tremos no seu uso. Num destes extremos parece estar o caso português, em que os novos media são incorporados no reportório político sem que este se altere significativamente. No outro extremo podemos apontar o caso ame- ricano, onde os novos media parecem ter transformado a política – embora, como iremos argumentar, a percepção de uma maior influência dos cidadãos possa ser, em larga medida, ilusória.

A ausência de transformação no caso português é particularmente evi- dente no período de campanhas eleitorais, que – como referem Gillespie & Gallagher (1989: 170) – representam o momento de maior envolvimento e in- teracção entre os partidos e a sociedade em Portugal. As campanhas eleitorais portuguesas são fundamentalmente espectáculos concebidos para os media, com destaque aqui para a televisão. A interacção directa com os cidadãos é escassa e em geral ineficaz. Examinando a campanha eleitoral de 1999, referi3 que os próprios funcionários e candidatos constatam que o retorno de idas a feiras e de distribuição de sacos plásticos e outros brindes é praticamente nulo. Não obstante, como me notou na altura um candidato, os partidos têm de con- tinuar a ir a feiras e a oferecer estes objectos de modo a marcar território e mostrar ao eleitorado – em particular, ao seu eleitorado – que o partido está no terreno.

Estendendo a análise uma década, é evidente que os partidos portugueses marca presença nos novos media, desde websites a redes sociais como Face- book e Twitter. Contudo, esta presença parece gerar uma reprodução do dis- curso partidário convencional, numa lógica fundamentalmente unidireccional. A presença dos partidos nos meios digitais não parece ter provocado qualquer modificação relevante na natureza ou forma de interacção dos partidos com os eleitores. Antes, a presença parece ser ditada sobretudo pela necessidade de estar presente, mais do que pelas possibilidades que estes meios abrem.

Assim, os novos media parecem ser o equivalente funcional das idas às fei- ras – uma forma de marcar território e mostrar a segmentos do eleitorado que o partido está no terreno digital. A interacção com os eleitores permanece superficial, seja no espaço “real” ou “virtual”.

No outro extremo podemos considerar o caso americano, onde os novos media revolucionaram a forma de fazer política. Os estudos existentes sobre a campanha presidencial de Barack Obama em 2008 tendem a ser unânimes sobre este efeito. Um autor considera inclusive que Obama provavelmente não teria ganho as presidenciais de 2008 sem o uso eficaz que fez dos novos media (Clayton, 2010: 152).

A importância dos meios digitais parece ser ainda mais saliente nas pre- sidenciais de 2012. Em parte, os novos media são usados como forma de aumentar a exposição dos candidatos (Wortham 2012). Contudo, o aspecto que mais tem sido destacado nas vitórias de Obama é a sua base de dados sobre os eleitores, desenvolvida na campanha de 2008 e reforçada em 2012. Talbot (2008: 78) descreve como esta base de dados e as ferramentas digitais permitiram a Obama fazer campanha:

“The MyBO [Obama’s social networking site,

www.my.barackobama.com] databases could slice and dice lists of volunteers by geographic micro region and pair people with appropriate tasks, including prepping nearby voters on cau- cus procedure. “You could go online and download the names, addresses, and phone numbers of 100 people in your neighborhood to get out and vote-or the 40 people on your block who were un- decided,” Trippi says. “‘Here is the leaflet: print it out and get it to them.’ It was you, at your computer, in your house, printing and downloading. They did it all very well.”

Neste contexto, importa frisar o papel dos meios digitais na recolha e aná- lise de informação sobre os eleitores. Como refere Beckett (2012), a campa- nha de Obama recolheu um conjunto considerável de dados individuais sobre os eleitores através das ferramentas digitais. Tal permitiu-lhe posteriormente adequar e adaptar as suas mensagens consoante o perfil dos eleitores, ela- borado a partir desses dados. Larson, Shaw & Beckett (2012) ilustram este ponto com as várias versões de um simples email da campanha Obama, cada

uma ajustada ao tipo de recipiente. Assim, a política adopta as estratégias do marketing e vendas baseados em data mining, proporcionando mensagens políticas ‘por medida’ para cada eleitor.

Se o caso americano representa uma mudança substancial da política, le- vanta também uma questão: até que ponto esta transformação leva a uma ligação mais genuína dos cidadãos com os seus representantes? Com efeito, este tipo de campanha pode gerar uma percepção de proximidade entre o elei- tor e o eleito que é, em última análise, potencialmente ilusória. A relação de principal-agente – em que o eleitor, enquanto principal, delega as deci- sões num partido ou político – é subvertida, transformando-se num processo onde o agente mobiliza o principal, transmitindo-lhe – a cada eleitor, indi- vidualmente – o que ele quer ouvir. Ao contrário de gerar uma participação efectiva dos cidadãos, os meios digitais servem para reforçar os agentes po- líticos. Ocorre assim uma transformação, mas não necessariamente uma que favoreça a qualidade da democracia.

Globalmente, constatamos que a influência dos meios digitais é profunda- mente intermediada pelas estratégias partidárias (e/ou de políticos individuais, como no caso americano). Quer tomando o ‘extremo’ português, quer o norte- americano, podemos constatar que as novas ferramentas tecnológicas podem ser subsumidas à lógica política dominante, no limite reforçando-a.

Conclusão

Os meios digitais são uma parte incontornável das sociedades contemporânea, e o seu impacto é perceptível em inúmeras esferas da vida humana. Neste contexto, o seu impacto sobre a política é inevitável. Contudo, e como este capítulo procurou explorar, o efeito não é necessariamente a reinvenção da democracia que alguns autores têm sugerido. Antes, a análise dos media deve também ter em conta o efeito do contexto político, e o papel de agência que os actores políticos têm, que lhes permite adaptarem-se às novas tecnologias – e, no limite, a subsumirem-nas às suas lógicas dominantes. Adaptando o velho ditado italiano – “fatta la legge, trovato l’inganno” – poderíamos dizer que, também neste domínio, os agentes políticos são capazes de encontrar a forma de tornear os efeitos dos novos media.

e exogenamente gerada pelos meios digitais, o futuro da democracia talvez dependa de factores mais prosaicos, mas mais duradouros: cidadãos e insti- tuições. Em específico, cidadãos mais envolvidos e mecanismos institucionais que fomentem e integrem esta maior participação. Nesse sentido, a reinvenção futura da democracia passa pelos mesmos processos que alicerçaram as ante- riores reinvenções; e implica os mesmos sacrifícios que sustentaram os ganhos democráticos dos últimos cem anos.

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