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4. Tvil og framandkjensle i Ejersbos trilogi

4.2 Frå kolonisert til kolonist: Sofie

4.2.2 Diskriminering og sjeleblindheit i Danmark

As intervenções empreendidas pelo governo do Tocantins no processo de ocupação físico-cultural do território a partir da forma de ocupação dos espaços desapropriados para a construção de Palmas podem ser analisados a partir da demolição de tudo que se encontrava na área: edificações, símbolos e mitos, diante dos objetivos voltados para a criação de uma nova identidade histórica para a região. No Estado, predominava “o processo de ocupação da área, dominada basicamente pela migração nordestina piauiense, maranhense e baiana, passava a configurar-se na região a ausência de identidade cultural com o sul de Goiás” (OLIVEIRA, 1998, p. 09).

As referências materiais e históricas do território onde Palmas foi construída em relação às intervenções do governo, da forma como foram efetivadas, podem ser entendidas como bárbara diante da vontade expressada pelo domínio completo do território, criando novos símbolos, novas identidades; por isso, acharam importante destruir a cultura local. Diante disso, durante as negociações entre o governo e os proprietários de terras para fins de

desapropriação, um dos quesitos era derrubar as edificações existentes na propriedade, caso isso não fosse feito, as empreiteiras fariam a demolição. Entre as construções, o governo só deixou a sede da Fazenda Triângulo, que era a melhor casa da região; por isso, como diz o antigo proprietário, não foi inclusa na desapropriação, mas vendida como casa, conforme afirmações do proprietário:

Mas então eu fiz um contrato para que a casa ficasse porque quando veio Palmas para cá a única casa boa que tinha era a minha. Tanto é que nela funcionou a primeira sede da prefeitura, porque não tinha casa pra botar a prefeitura de Palmas. (3ª entrevista analisada).

Com as afirmações do entrevistado fica caracterizado o espírito pragmático dos gestores e criadores da cidade. Conforme entrevistas gravadas pelos pesquisadores da Gerência de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Palmas, com o vereador Euclides Correia Costa, logo após a instalação da Capital teve início o processo de instalação da Câmara Municipal de Palmas, na casa sede da Fazenda Triângulo, em um pequeno espaço (Sala). Nesse lugar, deu-se a instalação e a permanência do poder Legislativo por um bom tempo. As sessões eram realizadas normalmente, três sessões por semana. Os vereadores que participaram da primeira legislatura de Palmas foram Afonso Vieira Ramalho, Antônio Pereira de Sá, Euclides Correia Costa, o Gilberto Gomes da Silva, Pedro da Silva Alencar, Mário Benício dos Santos, Udson Terencio de Souza, Tarcísio Machado da Fonseca, Valdir Pereira da Silva. A ausência de prédios para abrigar os poderes públicos municipais, tomando como referência as estruturas que estavam sendo feitas para abrigar os poderes do Estado, foi intencional, diante do perfil em que cidade foi criada, construída e ocupada. No início, o tratamento dado pelo governo era o mesmo direcionado a um grande canteiro de obra, sem a conotação de uma cidade. Por isso, quando tiveram que constituir os poderes do município, o projeto urbanístico não contemplava as sedes dos poderes executivo e legislativo municipal. Sobre a transferência Fenelon Barbosa que foi o primeiro prefeito de Palmas disse que “a transferência do município de Taquaruçu para Palmas foi no início de 1989 e tudo era improvisado, a prefeitura e a Câmara foram instaladas em uma casa de uma fazenda onde é hoje o Parque Cesamar” (BARBOSA, 2012, p. 14), Figura 16.

FIGURA 16 – Casa Sede da Fazenda Triângulo, depois Casa Suçuapara - 1989. FONTE: Thenes Pinto – cedida pela Gerência de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Palmas.

Em entrevista realizada pelos pesquisadores Marcelo Lopes e Antônio Filho, cedida pela Gerência de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Palmas, Fenelon Barbosa, primeiro prefeito de Palmas fala sobre a importância da Casa Suçuapara e do Palacinho para a história do Tocantins e de Palmas.

Eu acho muito importante pelo fato de ter sido o começo, o começo de tudo aqui em Palmas. A cidade começou ali, então eu acho que tem que ser preservada... como o Palacinho é muito importante pra Palmas, representa o começo do Estado do Tocantins aonde funcionou o Governo do Estado. Então, eu acho que a Casa deve ser preservada porque também foi muito importante. É uma construção muito simples, muito humilde, mas é o marco principal na criação de Palmas. Dali é que saiu os grandes projetos da capital (FENELON BARBOSA).

Porém, para a surpresa do ex-proprietário e um dos primeiros moradores da cidade, a casa da então Fazenda Triângulo, como era conhecida na região, passou a ser denominada de Casa Suçuapara. No seu entendimento, como havia vendido e recebido pela desapropriação, entendeu que não deveria se intrometer mais no processo. Contudo, depois que a casa foi tombada, o antigo proprietário percebeu a violência do ato:

Foi tombada pelo Patrimônio Histórico, ela já é tombada, só que foi tombada com o nome errado. Ela foi tombada com o nome errado e isso é um erro fundamental que fizeram, não me procuraram, não procuraram o dono da casa pra saber a procedência da casa. Então, ela já foi tombada e espero que continue porque ela faz parte da história dessa divisão do Estado. (3ª entrevista analisada).

Assim, ao analisar a constituição de outros monumentos construídos na cidade, deu para se ter uma ideia sobre a inversão do nome da casa que permaneceu em pé após a criação e a construção de Palmas. Qual, então, seria o interesse em alterar o nome de uma construção aparentemente insignificante perante todo o processo da história da cidade? A princípio parece ser algo pequeno, insignificante diante da grandeza das obras que foram construídas. No entanto, quando um objeto pequeno como uma casa isolada é transformada para legitimar outra história, considera-se que os atores da história original permanecem vivendo nesses mesmos espaços. Esses métodos criam um desconforto em relação à história que estava sendo oficializada por meio de intervenções autocráticas. Por isso,

Palmas e a redefinição territorial do Estado estão intimamente ligadas. No âmbito cultural, significativas transformações também se processaram, muitas ainda incompreendidas, como o “apagamento”, se é que pode usar esse termo de uma identidade goiana e o forjar de uma identidade tocantinense. A criação de Palmas e o investimento maciço em propaganda acabaram por impregnar no ideário popular a identidade “tocantinense” de uma maneira fabulosa, ao que parece, envolvendo, sobretudo, a população flutuante vinda de outros estados para a “nova capital”. (SILVA, 2010, p. 20).

Uma das possibilidades para um fato dessa natureza ter ocorrido poderia ser explicado nas relações de quem vende e compra um determinado bem. Por isso, o antigo dono parecia ter esse entendimento. Entretanto, não se pode negar o fato histórico, não se pode mudar o curso da história como aconteceu com a casa da Fazenda Triângulo. Erros podem acontecer na falta de documentos, de atores que pudessem reproduzir essa realidade

histórica. Ao analisar as fontes primárias desse processo, fica evidente que os motivos foram político-partidários dentro de uma lógica de controle da identidade cultural da região. Quando interrogado sobre o assunto, o antigo proprietário da Casa diz que o artifício era

Perseguição política e que eu não tinha acesso na época às pessoas pra mim falaram a verdade. E a minha palavra também não valia nada, não tinha valor... eu era um estranho no ninho pra eles, né? Aí o tempo foi passando, foi se evoluindo e ficou Fazenda Suçuapara. Isso magoou muito a nossa família, os filhos principalmente, a esposa... Eu não tomei conhecimento porque, porque, mas... (3ª entrevista analisada).

O entrevistado tenta voltar ao assunto mesmo com sua voz embargada pela perda da identidade do objeto que construíra e que vinha ser transformado em outro objeto histórico diante da força das intervenções; finaliza dizendo que tudo isso era resultado da sua opção política:

Na época eu era oposição ao governo eleito Siqueira Campos. Ele juntou um grupo e fizeram da maneira deles. Não foi feito da maneira adequada e não procurou respeitar os direitos de quem tava morando na região. Não citaram o meu nome João Batista, não citaram o nome da Fazenda Triângulo, não tem no quadro histórico do Estado do Tocantins por uma perseguição a nós e, principalmente, nós moradores que éramos aqui, todos, quase 90% éramos da oposição. (3ª entrevista analisada).

Saindo da Fazenda Triângulo, hoje Parque Cesamar, e da Casa Triângulo, hoje Casa Suçuapara, passa-se para os prédios e praças sucessivamente construídos, onde foram colocados diversos monumentos voltados para a validação da memória cultural pretendida pelo fundador da cidade. Em relação aos antigos moradores e das pessoas que migraram para Palmas na última década do século XX, os significados simbólicos dos monumentos da Praça dos Girassóis distorce a identidade cultural dos antigos habitantes do Tocantins e dos novos que migraram para a cidade logo após a sua criação. A prefeitura, depois de migrar para diversos prédios, teve a sede definitiva construída na gestão do prefeito Eduardo Siqueira Campos:

O edifício está localizado em área institucional na avenida Teotônio Segurado. Resolvido em um pavimento, a linguagem e o partido são semelhantes aos primeiros prédios dos palácios, de tijolo e concreto

aparentes, buscando o sombreamento das áreas internas. Um grande guarda-sol de concreto marca a entrada e cria uma praça de articulação com os futuros prédios da Câmara e do Fórum, que constituiriam o Paço Municipal de Palmas, mas que acabaram sendo construídos em outros locais da cidade. (SOUZA, 2005, p. 04).

O Paço Municipal é o centro das decisões políticas; em volta, há o “Bosque dos pioneiros, agradável para lazer com a família e onde, aos domingos, se realiza a Feira do Bosque. O verde predomina na paisagem, afinal são 52 milhões de m³ de ar puro” (REVISTA DE INFORMAÇÕES TURÍSTICAS DO ESTADO DO TOCANTINS, s/d, p. 2). A Figura 17 mostra a vista parcial da frente do Paço Municipal.

A estruturação de uma identidade político-cultural voltada para a consolidação de um espaço de poder necessitava de novos significados culturais e ideológicos; para isso, foram construídos os monumentos da Praça dos Girassóis de Palmas, associados a uma estrutura arquitetônica moderna para a construção dos prédios públicos.

FIGURA 17 - Sede da prefeitura da cidade de Palmas capital do estado do

Tocantins - 2005.

FONTE: Walter Gama. Foto cedida pela Gerência de Patrimônio Cultural da Fundação

Em relação às estruturas da praça, dos espaços construídos e da relação que os monumentos tiveram, direta e indiretamente, com a memória dos lugares pretéritos, os novos mitos e as culturas estavam direcionados para a difusão de uma nova identidade, diferente da constituída pelas lutas separatistas. Por meio de ações pragmáticas, o governo instituía monumentos objetivando a fixação de um ethos novo interligando o desenvolvimento econômico da cidade e do Estado aos fluxos de ocupações dos espaços.

Assim, o lócus dessas representações situou-se, em parte, nos símbolos construídos na Praça dos Girassóis, focados nas estruturas e no fluxo de consolidação e exaltação das três frações do estado: Legislativo, Judiciário e Executivo. Todo esse processo foi associado a um circuito de poder, como objeto centrípeto do território municipal e estadual. Essa condição foi corroborada pela posição geográfica de Palmas, bem como pelo fato da praça ser o lócus intraurbano dos diversos ramos de atividades empresariais e das estruturas físicas e simbólicas das esferas públicas: “Em torno dessa praça foi prevista a localização de usos e atividades urbanas capazes de gerar centralidade com bancos, escritórios, clínicas médicas, restaurantes, cinema e mesmo edifícios mistos com apartamento a partir do primeiro andar” (CARVALHÊDO, 2009, p. 55).

O entendimento do contexto cultural do Tocantins e de Palmas por meio das alegorias, das formas constituídas numa simbologia fragmentada e desconectada da realidade cultural da região pode ser identificado nas fachadas e no interior dos prédios públicos, considerando-se que a riqueza cultural é a resultante proporcionada pela realidade e não pela sua negação. Nesse sentido, não se sabe ao certo dos porquês do ostracismo imposto a outros separatistas, pois só a figura de Teotônio não representa o todo da história autonomista do norte de Goiás. Assim, a história é a resultante das ações desenvolvidas em uma determinada realidade; diante disso, não pode ser alterada, distorcida, pois quando isso acontece surge outra história, a projetada na aculturação da sociedade.

Assim, ao privilegiar fatos que não fizeram diretamente parte da cultura do norte de Goiás, o governo deixa margens para especular sobre a construção de um novo ethos para a região ao investir em monumentos ideológicos da República Velha, do tenentismo à Coluna Prestes. Contudo, nenhum faz referência à Guerrilha do Araguaia. Esses movimentos visavam à construção de uma nova identidade política a partir da fragmentação do predomínio de São Paulo e Minas Gerais e investiam também contra os sistemas oligárquicos regionais. Talvez essa seja a proximidade desses movimentos com a cultura

reproduzida na região antes da criação de Goiânia, em 1933, considerando que a população de Palmas é composta de migrantes do interior do Tocantins e de outras localidades do país.

A institucionalização de uma nova cultura objetivava a dissipação das manifestações culturais de migrantes do Pará, Maranhão e Piauí ou transformá-las em uma tabula rasa por meio de uma lógica de intervenção:

Se esse processo não foi estendido a todos os conceitos “sistemáticos” que são utilizados aqui (por exemplo, arbitrário cultural, violência simbólica, relação de comunicação [...], modo de imposição, modo de inculcação, legitimidade, ethos, capital cultural, habitus, reprodução social, reprodução cultural). (BOURDIEU; PASSERON, 1975, p. 17).

Por um lado, o governo patrocinava o surgimento de novas manifestações e a reconstrução de aspectos históricos sincronizados aos espaços da capital. De outro, dificultava as lembranças dos antigos mitos por meio da massificação de novos símbolos caracterizados por uma política de exaltação de uma nova memória cultural na população do Estado do Tocantins, tendo Palmas como referência.

3.3 Confronto entre Culturas: a construção e a ocupação dos espaços físicos e