É um fato inquestionável que o nível de empreendedorismo, quando definido como a taxa de indivíduos que possuem um negócio próprio em relação ao número de empregados varia enormemente entre países (SHANE 1993; GEM, 2012). Uma grande quantidade de estudos associa a variação do nível de empreendedorismo às diferenças no estágio de desenvolvimento econômico, tecnológico, além de características institucionais destes países (WENNEKERS e THURIK, 1999).
No entanto, a relativa uniformidade entre condições econômicas, tecnológicas e institucionais de alguns países com níveis semelhantes de desenvolvimento, indicam que fatores não econômicos sejam também capazes de explicar a variação do nível de empreendedorismo (SHANE 1993; WENNEKERS e THURIK, 1999; BEUGELSDIJK, 2010).
Busenitz e Lau (1996, p.27) afirmam que “intenções de iniciar uma empresa, dependem da estrutura e do processo cognitivo, que por sua vez dependem de uma variedade de variáveis agrupadas em contextos sociais, valores culturais e variáveis pessoais” (tradução livre). Mitchell e colaboradores (2002) também realizaram pesquisa para investigar relacionamentos entre a estrutura cognitiva de empreendedores em diferentes culturas, com os objetivos de descobrir se as cognições empreendedoras são universais e de que maneira variariam entre culturas. Os resultados indicaram que existem diferenças significativas nos processos cognitivos que levam ao empreendedorismo, nos países pesquisados.
Godley et al. (2001) indicam que embora a influência da cultura seja conceitualmente e mesmo intuitivamente aceita, pois percebemos as diferenças de comportamento entre regiões e nações, existe uma dificuldade em adicionar a variável cultura na teoria econômica clássica, pois em condições similares, a teoria econômica clássica prediz que os indivíduos deveriam se comportar da mesma maneira, o que não ocorre empiricamente em diferentes culturas.
No entanto, após a publicação do trabalho de Hofstede (1980) Culture’s Consequences, uma quantidade imensa de estudos em áreas como Administração, Psicologia e Sociologia foram conduzidos com o objetivo de explicar e entender a variação intercultural entre o comportamento dos indivíduos. Atualmente reconhece-se a importância e o impacto da cultura em todas as sociedades, moldando e governando as interações sociais, indicando que diferentes
valores conduzem a diferentes comportamentos, incluindo o comportamento econômico (GRANOVETTER, 1985).
Desta forma, Godley e colaboradores (2001) afirmam que os valores culturais podem ajudar a entender o processo de desenvolvimento de diferentes nações. McCloskey (1998) sugere que o surto de invenções da Inglaterra do século dezoito, foi um fenômeno cultural, com profundas consequências econômicas para a Revolução Industrial. A ascensão econômica obtida pelos Judeus e dos Quakers no início da era moderna também pode estar associado a fatores culturais que facilitavam o acesso ao crédito nestas culturas. Godley e colaboradores (2001) indicam que o processo de adoção da industrialização ter ocorrido em alguns países e não em outros, mesmo apesar de condições econômicas e dotação de fatores semelhantes, pode ser explicado em parte por fatores culturais, demonstrando que a cultura é um componente fundamental para se entender o desenvolvimento econômico global.
Martinelli (2001) cita o estudo de Cochran (1949) que atribuí a diferença entre o desenvolvimento dos Estados Unidos e a América Latina em termos do grau de legitimação do empreendedorismo em cada cultura. Do mesmo modo, Landes (1951) teria afirmado que a diferença entre a velocidade e a extensão do desenvolvimento econômico dos EUA e da França seria devido à diferença na herança histórica dos dois países, pois enquanto a herança feudal francesa teria deixado atitudes sociais hostis ao empreendedorismo, os EUA por não possuir tais atitudes negativas, dispunha de um contexto sócio cultural especialmente receptivo a inovação e ao empreendedorismo (MARTINELLI ,2001).
O argumento de que as diferenças entre o sucesso econômico e regional estão associadas à presença ou ausência de uma cultura empreendedora não são recentes e estão presentes em vários trabalhos clássicos que demonstram como valores de uma determinada cultura podem influenciar a decisão de empreender (e.g. WEBER, 1958; BAUMOL 1968). O início dos estudos das relações entre o empreendedorismo e valores culturais pode ser atribuído ao clássico de Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo de 1905, onde as normas culturais e sociais de grupos religiosos são enfatizadas como fatores para explicar altos níveis de atividade empreendedora e de invenção em determinados povos ou culturas, associando práticas e o ethos do trabalho a valores religiosos.
Tais estudos clássicos fomentaram o surgimento de várias pesquisas posteriores que buscam explicar a diferença entre a taxa de empreendedorismo através do entendimento de como
valores culturais podem influenciar a decisão de empreender, ou seja, qual a influência de “valores empreendedores” ou também da “legitimação do empreendedorismo” na manifestação do empreendedorismo na população.
Sérgio Buarque de Holanda (1936/1984), em Raízes do Brasil, apresenta também esta distinção entre os povos, elencando algumas características entre os chamados povos caçadores e os lavradores, o tipo aventureiro e o trabalhador, para explicar a cultura brasileira e seus valores em relação ao trabalho. Para Holanda (1936/1984, p.15) existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura.
De forma semelhante, o modelo cultural de Pearson e Chatterjee (2001), desenvolvido a partir de uma revisão de objetivos do trabalho, proposições chave da psicologia interacional e literatura sobre empreendedorismo, indica que o ambiente cultural, as características pessoais e o ambiente de trabalho influenciam a decisão individual em empreender ou não, e a cultura pode facilitar e apoiar o desenvolvimento de características pessoais e do ambiente de trabalho que podem favorecer o crescimento econômico.
McGrath e colaboradores (1992) conseguiram confirmar a hipótese de que empreendedores de várias nacionalidades e culturas, apresentavam um conjunto de valores diferentes dos indivíduos não empreendedores. De modo semelhante, Baum e colaboradores (1993) descobriram que empreendedores e não empreendedores Israelenses apresentaram diferenças em relação à realização, pertença, autonomia, e dominância. As diferenças foram superiores às encontradas entre empreendedores Israelenses e Americanos, indicando um possível compartilhamento de valores entre empreendedores, mesmo em diferentes culturas. Mesmo com algumas pesquisas iniciais sobre o tema, Pearson e Chatterjee (2001) afirmam que pouca pesquisa já foi realizada para examinar se os valores são universais entre empreendedores.
De forma geral, a literatura sobre empreendedorismo indica que a cultura tem um impacto marcante sobre o nível de empreendedorismo nas sociedades. Beugelsdijk (2010) argumenta que os altos índices de empreendedorismo nos Estados Unidos têm sido explicados por valores como liberdade, independência, realização, materialismo e individualismo. Litch (2010) indica que é possível falarmos não só em indivíduos empreendedores, mas também em nações empreendedoras, existindo a possibilidade de busca de características ou determinantes que tornam uma nação mais ou menos propensas ao empreendedorismo.
Busenitz e Lau (1996) defendem que algumas culturas produzem mais empreendedores que outras. No entanto, embora as características pessoais dos empreendedores tenham sido amplamente exploradas, o mesmo não ocorreu em relação às características nacionais que seriam determinantes do empreendedorismo. Liñán & Chen (2009) na construção de seu instrumento para medir a intenção empreendedora, indicam que os valores influenciam os antecedentes da intenção, como o apoio social e também as atitudes em relação ao empreendedorismo, indicando também haver quantidade limitada de pesquisa culturais comparativas.
Weber (1985) e Terpstra e David (1985) também apontam a religião como um forte influenciador da sociedade e de seu comportamento, resolvendo conflitos entre preferências individuais e o que a sociedade espera que as pessoas façam, determinando quais são os valores e práticas socialmente aceitas dentro daquela religião. O mesmo papel é desempenhado para manter a coesão da sociedade para que os seus membros aceitem a distribuição desigual de poder, prestigio ou riqueza material dentro de uma sociedade.
McClelland (1961) no clássico Archieving Society, indica que alguns valores de uma determinada cultura tais como a necessidade de auto realização, são um dos maiores determinantes do nível de desenvolvimento econômico alcançado por uma sociedade. A própria teoria de McClelland trata de três motivações básicas: motivação por necessidade de auto- realização, motivação de pertença e motivação de poder.
A motivação por necessidade de auto realização é definida como um desejo recorrente de se superar, de desempenhar bem suas funções, de ter sucesso, de criar ou manter um padrão elevado de excelência no seu campo de atividade. Neste caso, dois componentes complementares estão presentes: a esperança de sucesso como o motivo para buscar um objetivo qualquer e o medo do fracasso. A motivação por necessidade de afiliação ou pertença é alta em indivíduos que tendem a se preocupar com o estabelecimento, manutenção de contatos pessoais e relacionamentos emocionais com outros. Finalmente a motivação de poder é definida pelo desejo de buscar prestígio, exercer impacto, controle ou influência sobre outras pessoas ou grupos.
O trabalho de McClelland (1961) investigou indicadores de necessidade de realização e crescimento econômico em diversas culturas, em diferentes períodos temporais. Os resultados indicaram que quando a motivação de realização era alta, a produtividade também era alta
algum tempo depois. Através da aplicação de um instrumento que media a necessidade de auto realização em várias culturas inferiu-se que a necessidade de realização foi maior nas culturas ocidentais do que em outras culturas, mesmo que culturas asiáticas industrializadas. Vários estudos posteriores buscaram também associar os motivos de realização à questão do empreendedorismo, indicando que uma maior motivação nesta dimensão estaria associada a um maior nível de empreendedorismo ou de atividade empreendedora (MCCLELLAND, 1965).
Terpstra & David (1985) também indicam a existência de valores em relação ao trabalho, à acumulação de riquezas e a auto realização. Estes valores tem sido apontados como os que mais afetem o desempenho econômico de uma sociedade. Estudos antropológicos realizados em diversas culturas tem mostrado que os seres humanos são maximizadores racionais, ou seja, procuram se esforçar mais pelas coisas que lhes traga os maiores benefícios. Os itens mais valorizados, dependem em grande parte da cultura em que o indivíduo está inserido (TERPSTRA & DAVID, 1985, p.117).
Os valores de uma cultura em relação à mudança são também são apontados como importantes para a criação de novos processos ou produtos. Algumas sociedades podem acreditar que mudanças significam interrupções indesejáveis, ou maléficas, enquanto outras podem considerar que mudanças são importantes ou mesmo essenciais para o desenvolvimento da sociedade. (TERPSTRA & DAVID, 1985). Os achados de Rothwell e Wissema (1986) mostram que as sociedades que inovaram tinham características como disposição de tomar riscos, senso de urgência e de tempo, e a estavam preparadas para aceitar mudanças, além de uma orientação dinâmica ao longo prazo.
Segundo Martin e Picazo (2009) a cultura não só facilita a assimilação e a introdução de avanços tecnológicos, mas também promove modificações no ambiente econômico de forma mais efetiva. Os autores também apontam que a cultura pode ter impacto negativo ao desencorajar a atividade empreendedora quando incentivar o recebimento de salário ou um emprego fixo ao invés de assumir o risco de se tornar empreendedor. David e Terpstra (1985) apontam que a cultura define o que é aceitável e o que não é aceitável em termo de riscos.
Embora alguns estudos indiquem que empreendedores possuem um conjunto de valores
compartilhados independentemente da cultura (MCGRATH, MACMILLAN E
(BUSENITZ E LAU, 1996), sugerindo que ainda há grande necessidade de confirmação destes dados (LITCH, 2010).
Hosftede e Bond (1988) sugerem a existência de um relacionamento direto entre o empreendedorismo e as dimensões culturais encontradas em seus estudos. Dentre as dimensões que receberam maior atenção estão as dimensões de individualismo-coletivismo e a distância hierárquica (HOFSTEDE, 1984; SHANE, 1992; MORRIS, 1994; TRIANDIS, 1995). Hofstede (1984) aponta que as sociedades que apresentam uma menor distância hierárquica e maior escore na dimensão de individualismo têm uma tendência a apresentar um número maior de inovações.
Tiessen (1997) sugere um framework para a realização de pesquisas cross-cultural utilizando as dimensões de Hofstede para explicar o empreendedorismo, mais especificamente a dimensão de individualismo-coletivismo. Segundo Tiessen (1997), a dimensão de individualismo estaria ligada a orientação de valores e ações que levariam a independência, competição, enquanto a orientação mais coletivista tenderia a fomentar os valores e ações que mantivessem o status quo e o bem estar do grupo. As pesquisas comparativas que buscam entender a relação entre o individualismo-coletivismo e o empreendedorismo têm indicado que individualismo está associado a uma maior incidência de comportamentos empreendedores, enquanto o coletivismo está mais associado a uma menor atividade empreendedora (PETERSON, 1988).
O estudo de Shane (1993) que comparou a taxa nacional de inovação de 33 países nos anos de 1975 e 1980 indicou que as taxas de inovação das nações eram influenciadas pelos valores culturais de seus cidadãos, foi encontrada uma forte associação entre as dimensões distância hierárquica e individualismo e a taxa de inovação destes países, corroborando pesquisas anteriores de Hofstede (1984). Shane (1992) defende que as culturas mais individualistas apresentam crenças sobre liberdade, lócus de controle mais interno e usam a remuneração financeira, prestigio social e realização pessoal para motivar os inovadores, e o contrário aconteceria nas culturas coletivistas que acabam por desencorajar a inovação e o empreendedorismo.
A influência da baixa distancia hierárquica sobre a inovação é atribuída a baixa preferência pela hierarquia rígida e formal, permitindo a existência de canais de comunicação e estruturas descentralizadas mais eficientes. Além disso, uma baixa distancia hierárquica permite que
subordinados tenham autonomia no processo de decisão, e possam gerar e compartilhar ideias, além de ter a oportunidade de alcançar mobilidade social (SHANE, 1992).
Muitos outros estudos suportam a ideia que a cultura afeta empreendedorismo e seus resultados (HOFSTEDE e BOND, 1988; PETERSON, 1988). Nestes estudos foram encontrados valores contrastantes entre indivíduos de diferentes nacionalidades ou antecedentes culturais, além de diferenças entre nações que apresentam diferenças entre os padrões das empresas privadas.
Beugelsdijk e Noorderhaven (2004) utilizaram o banco de dados de Estudos de Valores Europeus (European Values Studies) que abarca uma série de questões, compreendendo também informações sobre normas e valores (BEUGELSDIJK, 2010). A definição de o que seria uma cultura empreendedora foi derivada de uma série de questões relativas a:
Opinião entre distribuição de renda igualitária ou a meritocracia;
Preferência entre propriedade privada ou estatal de industrias e empresas;
Responsabilidade do Estado ou individual sobre se sustentar ou prover para as pessoas; A opinião sobre o “dever” de pessoas desempregadas aceitarem qualquer trabalho ou a
aceitação que estas pessoas possam esperar por o emprego desejado, mesmo que dependam de seguro social;
A relação entre o trabalho e o sucesso. Em um extremo tudo depende de conexões e sorte, e em outro, o trabalho duro, no longo prazo leva a uma vida melhor.
Os micro dados da pesquisa European Value Survey, para sete países Europeus, foram então computados para estas questões e compilados para formar o constructo de cultura empreendedora. Os dados que as regiões que apresentavam “culturas empreendedoras”, ou seja, as que possuíam atitude e características empreendedoras apresentaram maior crescimento econômico, embora também dependente de fatores institucionais (BEUGELSDIJK E NOORDERHAVEN, 2004).
Apesar dos vários estudos encontrados, pesquisas que relacionam valores de uma cultura e empreendedorismo estão em estágio ainda inicial (LITCH, 2010). Thiessen (1997) indica que a pesquisa internacional em empreendedorismo deve utilizar mais estudos comparativos que buscam similaridades e diferenças entre o processo empreendedor em diferentes culturas, ao invés de assumir que o processo não se modifica nas diversas culturas. Pois o processo de
crescimento, de criação de novos negócios pode partir de pressupostos e mecanismos diferentes em cada cultura.