A proposta de desenvolver um capítulo a respeito do tema currículo surge da necessidade de aprofundar o debate em torno das mudanças ocorridas com a educação farmacêutica no Brasil. Para tanto cursei a disciplina “Trabalho em Saúde” da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Brasília, quando realizei um seminário com o verbete Currículo Integrado. Neste processo de levantamento de conhecimentos relacionados com o verbete Currículo Integrado, identifiquei o texto: “Proposta de Reformulação do Ensino Farmacêutico no Brasil” que trás uma descrição dos debates e propostas desenvolvidas nas décadas e 80 e 90 pelo movimento dos estudantes e profissionais farmacêuticos que visava à reforma do currículo farmacêutico. Este se transformou em movimento concreto pela reformulação da educação farmacêutica no Brasil. Logo a busca colocou a necessidade de aprofundar o tema, considerado importante para a construção do objeto geral deste estudo, ou seja, a educação farmacêutica no Brasil. Nesta direção passei a desenvolver nova disciplina, desta vez, centrada no tema currículo, com este título, na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, que demonstrou ser o currículo um campo de estudoem Educação.
É corrente afirmar que o currículo diz respeito à seleção, sequenciação e dosagem de conteúdos da cultura a serem desenvolvidos em situações de ensino-aprendizagem e compreende conhecimentos, ideias, hábitos, valores, convicções, técnicas, recursos, artefatos, procedimentos, símbolos dispostos em conjuntos de matérias/disciplinas escolares e respectivos programas, com indicações de atividades/experiências para sua consolidação e avaliação. Portanto, um conjunto de atividades desenvolvidas pela escola, na distribuição das disciplinas/áreas de estudo, por série, grau, nível, modalidade de ensino e respectiva carga-horária – o que denominamos de “grade curricular”. Compreende os
programas, que dispõem os conteúdos básicos de cada componente e as indicações metodológicas para seu desenvolvimento, a organização curricular supõe a organização do trabalho pedagógico. O saber escolar, organizado e disposto especificamente para fins de ensino-aprendizagem, compreende não só aspectos ligados à seleção dos conteúdos, mas também os referentes a métodos, procedimentos, técnicas, recursos empregados na educação escolar. Consubstancia-se, pois, tanto no Currículo quanto na Didática (Saviani, 2002; Lopes & Macedo, 2011).
O currículo pode ser compreendido como processo, que envolve um conjunto de relações, abertas ou tácitas, em diversos âmbitos, que vão da prescrição à ação, das decisões administrativas às práticas pedagógicas, na escola como instituição e nas unidades escolares especificamente. Para compreendê-lo e, principalmente, para elaborá-lo e implementá-lo de modo a transformar o ensino, é preciso refletir sobre grandes questões (Gimeno & Sacristan, 1998). Sem dúvida um conjunto de questões que devem ser respondidas a partir de perspectivas teóricas e posicionamento na sociedade, dentre muitas, a central é, qual o conhecimento deve ser ensinado. Ou seja, qual o conhecimento ou saber é considerado importante ou válido ou essencial para merecer ser parte do currículo escolar e ainda a sua relevância (Silva, 1999). Nas análises efetuadas a partir do final do século passado e durante todo o século XX, sobre o significado dos processos de escolarização e, consequentemente, sobre os conteúdos culturais que se manejam nos centros de ensino, chama a atenção à denúncia sistemática do distanciamento entre a realidade social e as instituições escolares (Santomé, 1998).
O currículo é definido como as experiências de aprendizagem planejadas e guiadas e os resultados de aprendizagem desejados, são formulados por meio da reconstrução sistemática do conhecimento e da experiência sob os auspícios da escola para o
crescimento contínuo e deliberado da competência pessoal e social do aluno (Tanner, 1975).
A seguir vamos desenvolver uma pequena revisão história, buscando situar a construção do conhecimento e sua influência no Brasil.
Pode-se afirmar que o início da industrialização (1900) nos Estados Unidos da América trouxe a questão do que ensinar e como uma questão essencial do papel da escola para o desenvolvimento econômico e social, trazendo principalmente a questão do que se deveria fazer parte do plano formal das atividades de ensino e aprendizagem. No Brasil este movimento se traduz na Escola Nova (Hidalgo, 2008; Lopes & Macedo, 2011).
O Taylorismo na administração e o comportamentalismo na psicologia caracterizam esta época histórica, que demandam diretamente a escola as necessidades do setor produtivo por mão de obra qualificada e ao mesmo tempo formando jovens para o modelo capitalista nascente, tendo a escola e o currículo um papel importante na adequação e controle da sociedade (Santomé, 1998).
Em 1918, Bobbitt defende um currículo cuja função é preparar o aluno para a vida adulta economicamente ativa, não fazendo referência aos conteúdos, mas sim as tarefas e objetivos, agrupados em disciplinas, caracterizando os eficientistas. O progressivismo de John Dewey, cujos princípios de elaboração curricular residem sobre conceitos de inteligência social e mudança, defende que a educação poderia, portanto, ser um instrumento para formar indivíduos capazes de atuar na busca das mudanças. Os princípios de Dewey influenciaram as reformas educacionais no Brasil, com destacados educadores, conhecidos como escolanovistas, Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo. Aqui o currículo é visto como um processo de racionalização de resultados educacionais, cuidadosa e rigorosamente especificados e medidos, o modelo institucional dessa
concepção é a fábrica e sua inspiração “teórica” é a “administração científica” de Taylor (Silva, 1999).
Em 1949, Halph Tyler consolida o modelo de Bobbitt e propõe articular a abordagem técnica, como as eficientistas, com o pensamento progressivista, produzindo uma importante resposta às questões sobre seleção e organização de experiências e de conteúdos educativos. O modelo de Tyler é um procedimento linear e administrativo em quatro etapas: definição dos objetivos de ensino; seleção e criação de experiências de aprendizagem apropriadas; organização dessas experiências de modo a garantir maior eficiência ao processo de ensino; avaliação do currículo (Lopes & Macedo, 2011). Esta adquire hegemonia no campo curricular norte-americano e influência essa área no Brasil, estabelecendo a ideia de organização e desenvolvimento e apresenta a área como eminentemente técnica, constituindo-se em um modelo tecnocrático, utilizando-se de um discurso científico, desenvolvido no âmbito das organizações empresariais, em que a racionalidade da organização do trabalho esteve submetida às demandas exclusivas de maior lucratividade via controle e exploração do trabalho alheio (Hidalgo, 2008).